Colunas, Dança Afro

Verdades Absolutas na era digital

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Neste novo artigo, venho compartilhar com vocês leitores e colegas, um panorama da nossa área e algumas percepções em relação ao evento Afro Arte, que aconteceu em Curitiba, em novembro de 2016. No Afro Arte, reunimos alguns profissionais especialistas da dança e percussão do gênero e a troca de experiências foi gratificante. A mesa redonda que aconteceu na abertura foi espetacular e de altíssimo nível, sem custo nenhum para participar.

Fazendo um fechamento do evento e colhendo feedbacks, acabei tendo uma conversa interessante com um velho e querido colega, e foi quando percebemos a importância de trabalhar nesta geração atuante o real conceito de “compartilhamento” e de como seria importante a dança se aprofundar nos conceitos da “economia criativa e colaborativa”.

Não só na dança Afro, mas no mundo da dança, ainda vejo corpos com consciência corporal, treinamento e performance incríveis e, por outro lado, uma limitação em relação a autoestima, ego e inteligência emocional. As pessoas se apropriam de suas danças e de seus estudos e, quando todos se acham os donos da verdade, muitas vezes por medo de perder terreno em suas carreiras, geram um enorme problema para o crescimento da própria dança. Vejo muita crítica e falta de trabalho em conjunto. O “mindset” de alguns indivíduos está programado para não se unir com a concorrência. O pensamento é: “Cuidado para que ninguém roube a sua ideia, seus estudos, seus alunos e sua coreografia!!”.

Nossa, vamos acordar!! Estamos imersos na era tecnológica, da conectividade plena, da interação! A globalização chegou faz tempo. Há décadas, diga-se de passagem.

Sinto que durante os processos de workshops, cursos, oficinas e outras atividades voltadas ao universo da dança, os profissionais ficam mais preocupados em mostrar o quanto eles sabem sobre este ou aquele conteúdo do que compartilhar e expandir seu networking e/ou abrir para novas ideias sobre seu próprio conteúdo de domínio. Verdades absolutas existem apenas para quem ainda não saiu da redoma. Meu colega pode desenvolver algo diferente da minha linha de trabalho e estar correto também. Os contextos são infinitos. Como já disse, na dança Afro, as possibilidades são muitas, pois a África é imensa, assim como o Brasil, e a história ainda está sendo construída, pesquisada e reescrita. Hoje, com algum tempo de estrada, vejo que o certo ou errado é muito relativo.

Temos características específicas sobre a dança Afro em cada região do país. São verdades absolutas que formam um leque incrível de conhecimentos e cultura. Devemos expandir estas verdades dentro de um senso comum: o crescimento da dança, da cultura e da educação no Brasil.

Quando a mídia abre espaço na sua programação para a cultura e dança Afro ou para o mundo da dança, para muitos e principalmente, aos que se julgam especialistas ou estudiosos do assunto, a primeira reação não deveria ser a crítica pesada e sim uma visão sistêmica e apreciativa do fato de que “estamos em foco” e na mídia. Muito já foi conquistado, mas não o suficiente. Na minha opinião, o ideal seria trabalharmos juntos para garantir em primeiro lugar este espaço mais significativo da nossa cultura e da nossa dança através de parcerias, independentemente de convicções pessoais pré-estabelecidas.

Resumindo, primeiro a dança como um todo, e depois as divergências pessoais e técnicas. Entender e pesquisar mais sobre a economia criativa e colaborativa poderia ser mais um caminho e também buscar uma dança que aprimore a consciência integral humana, valores, tolerância e não um trabalho onde os egos, a competição e as verdades absolutas acabam sendo o foco. A competição não deve ser da dança contra a dança. Assim perdemos mercado.

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Em relação a dança Afro me pergunto: As pessoas sabem quanto vale a dança Afro? Dentro das escolas existe a dança Afro como opção de atividade artística e/ou cultural? Quando a dança e a cultura Afro brasileira poderão viver fora dos projetos de lei? Quando nossos jovens e crianças vão escolher praticar algo regional ao invés de venerar outras culturas apresentadas na mídia através de clips, filmes e midiáticas, como, por exemplo, os famosos youtubers? E quando eles terão a consciência crítica do discernimento disso?

É claro que são muitas respostas complexas e não temos a fórmula pronta para todas estas questões, mas acredito que se você leitor parar um minuto para pensar sobre isso, já é um passo importante.

Penso que, quanto maior o número de pessoas que dançarem e estudarem a dança Afro melhor. Almejo que a dança e a cultura Afro e Afro-Brasileira, assim como as danças indígenas e ancestrais, ganhem seu espaço, sua relevância e reconhecimento merecidos. Para isso precisamos que os profissionais se desapeguem de suas verdades absolutas e se unam em um universo de múltiplas verdades, acessíveis a todos e caminhando na direção do bem comum.

Vou repetir até quando precisar, que a cultura Afro e Afro-Brasileira, na sua essência, tem como conteúdo principal o encontro com a natureza, a conexão com seu eu interior, com valores familiares e éticos. O “passinho e a coreografia”, a região de onde ela vem e outras características técnicas não deveriam estar em primeiro plano dentro desta ideia de crescimento e colaboração.

Enquanto existe a ideia de que a minha dança é mais importante do que a outra, enquanto a minha religião é mais importante do que a do outro, enquanto a minha cor e a minha cultura são melhores do que a do outro, estaremos não só atrasando o crescimento da DANÇA no mundo, mas atrasando também nossa evolução como seres neste planeta.

Bem, finalizando os questionamentos, já estamos trabalhando para que os desdobramentos do Afro Arte estejam pautados neste universo ideal descrito.

E voltando a cultura Afro, vejam que interessante: um outro fato bastante curioso que exemplifica a influência da África na humanidade atual é sobre nosso modo de aplaudir e saudar. Os estudiosos em Etnografia sabem que bater as palmas das mãos e erguer o braço, foram as mais antigas manifestações do regozijo humano – como uma saudação, satisfação, agrado, alegria. Ninguém ensinou e nem o costume obedeceu às leis da transmissão difusiva, mas, ainda hoje, aplaudimos batendo as palmas. Esta ação de bater palmas e de saudação dá-se por toda a África. É a forma mais primitiva e comunicante de saudar e exprimir concordância. Entre os indígenas brasileiros o processo é idêntico. Então vamos aplaudir a nossa cultura.

A relação passado-presente-futuro funde-se no movimento e no sentimento expresso na dança AFRO.

Penso também, como alguns estudiosos, que a cultura brasileira é em parte negra e que depende do grau de presença africana pelas várias regiões do país para que esta presença seja mais ou menos percebida e reconhecida. Mas, meu ponto está focado em duas linhas de atuação: esta dança possibilita uma profunda percepção e conexão com a natureza, num momento em que tanto precisamos ser sustentáveis para sobreviver e viver em harmonia, e que esta dança nos coloca em contato com valores importantes para o nosso crescimento e da sociedade.

Por hora, esta é a minha crença dominante, minha verdade absoluta.
Axé!

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Fundadora e Diretora da Companhia de Dança TRIBAH (Tributo e Resgate da Identidade Brasileira e Afro com Honra) é coreógrafa há mais de 25 anos, com experiência internacional em países como EUA, México, Chile, Perú, Argentina e Europa. Professora universitária de graduação e pós-graduação nas disciplinas de Dança Afro e Corporeidade, trabalha com consultoria e capacitação de professores na lei 10.639/03, tendo vasta experiência como empreendedora em escolas, academias e na TV. Possui reconhecimento público na Assembleia Legislativa do Paraná pelo Consulado do Senegal no Brasil.

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