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Vários sotaques num só corpo

Característica da dança de salão nacional, o generalismo ainda mostra-se dominante. Somos um povo espontâneo, dançante por natureza, e até internacionalmente famosos por tal qualidade. Talvez essa nossa paixão pelo movimento, ligado a uma música nos embalando, explique a enorme gama de gêneros musicais que dançamos por esse nosso Brasil continental. Nossa enorme extensão territorial e colonizações diversas também colaboram para que, culturalmente, tenhamos tradições e costumes muito distintos. É comum escutarmos comentários dos vários ”Brazis” existentes em nosso país, com isso, é muito normal encontrarmos amantes de danças de caráter muito diferente, dentro do universo da dança a dois brasileira.

Não há como negar que a agilidade com que a informação circula hoje, seja pela internet ou pela facilidade em nossas viagens, colabora com o consumo eclético da cultura. É nessa realidade que a dança vem de carona, trazendo um desafio a mais para os professores e alunos de nossas academias de dança de salão, que é o desenvolvimento da forma do corpo realizar aquela dança, demonstrando o caráter da mesma.

Aproveitando a estada no cruzeiro marítimo Dançando a Bordo que, como de costume, conta com uma série de professores especialistas em diversos gêneros de dança, pedi a alguns destes profissionais que me dessem sua opinião, no ritmo em que são referência, sobre as características mais marcantes para uma boa execução da dança.

Começarei com o que Jomar Mesquita e Juliana Macedo, precursores do ensino de danças do grupo dos swings no Brasil, como o Lindy Hop, veem como característica básica para um casal buscar, quando interessado em representar esta dança de origem norte-americana. Em virtude da influência do negro na criação e desenvolvimento dessa dança, a manutenção da postura agachada, com joelhos semiflexionados, sempre executando movimentos com energia e explosivos, buscando sua relação com a terra e a intenção de demonstrar peso no movimento, segundo eles, seriam características fundamentais para um casal que esta dançando o Lindy Hop, mantendo seu caráter original.

Já para J. Júnior e Jussara Andrade, atuais campeões brasileiros de Forró, a felicidade e alegria do casal, bem como a proximidade entre o par, o famoso “dançar coladinho”, não podem faltar para os que querem dançar um forró arretado.

O casal Rafael Barros e Carine Morais, campeões mundiais de Salsa em 2010, relatam que os autênticos salseiros têm como característica o swing no corpo e uma movimentação intensa e coordenada de quadris e ombros, algo definido por Rafael como uma ginga de “negro cubano”. Carine lembra que estas características são confirmadas pelo próprio nome do ritmo, uma vez que a salsa foi assim batizada por ter surgido da mistura de diversas influências musicais, o que faz com que a dança acompanhe essa tendência de muita movimentação.

Magoo e Carol, expoentes do Samba Rock, ritmo bastante difundido em São Paulo, destacam que a maior característica presente nesta dança é a movimentação entrelaçada e desafiadora que o casal executa com os braços, isso acompanhado de uma irreverência com muito swing.

No West Coast Swing, Guilherme Abilhôa e Tatiana Lemos destacam a fluidez, a elasticidade, a alternância de velocidade e a musicalidade, muito presentes nesta dança. Para eles, estes seriam os principais adjetivos que poderíamos creditar aqueles que dançam o ritmo, ainda em crescimento no Brasil, mas já com uma quantidade interessante de praticantes em nosso país.

Jonathan e Betsabet, campeões mundiais de Tango no ano de 2010, também estavam conosco embarcados neste Dançando a Bordo, e apontaram que é fundamental, a construção da imagem do casal e suas distintas funções dentro do Tango dançado. Para eles, a conexão entre a “pareja” de baile está boa quando o homem demonstra uma contenção da mulher que, envolta em seus braços, se sente protegida. Enquanto a dama, neste contexto, deve mostrar uma personalidade forte, buscando seu espaço na dança sem estar submissa, encontrando sua própria forma de expressar os movimentos junto com seu par.

O Zouk, com sua origem na Lambada e a mutação intensa apresentada nos dias atuais, mantém características antigas como o uso dos quadris na sua movimentação básica e descentralizações com apoios em suas figuras, somadas a características mais atuais como conduções com várias partes do corpo e uma grande entrega da dama, que permite a seu cavalheiro movimentá-la de forma mais ampla. Foi o que explicaram Alex de Carvalho e Daniela Werlgres, professores e organizadores de um dos maiores eventos do ritmo, a Ilha do Zouk. Eles acreditam também que a sensualidade, a principal identidade do ritmo, foi mantida através dos tempos, apesar de todas as mutações.

“Malandragem é a essência do Samba de Gafieira”, afirmam Marcelo Chocolate e Sheila Aquino, uns dos casais que é referência no ritmo. Para Sheila, esta malandragem pode ser construída se o praticante pensar em uma “soltura corporal”, aliada a uma energia do corpo que permite que os movimentos sejam rápidos e dinâmicos. O movimento deve iniciar de baixo pra cima, começando nos pés, com muita influência na flexão dos joelhos, refletindo para o corpo todo. Mas o casal acredita ainda que cada um deve buscar o seu jeito de dançar, aproveitando os prazeres que o samba tem.

Escutando todos estes depoimentos é possível perceber quantos ‘sotaques’ estão envolvidos nas danças a dois. Vale como desafio, a missão dos praticantes e professores da dança de salão, conseguirem criar uma relação entre o ritmo executado e suas principais características. É claro que existem elementos auxiliadores desta relação como, por exemplo, estar em um ambiente propício, assim como uma milonga em Buenos Aires ou um típico baile no subúrbio carioca, onde os rituais que envolvem aquele momento propiciam esta famosa ‘osmose’, mas isso já é assunto para o próximo artigo. Aguardem!

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta e divulgação

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

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