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Uma nova visão da dança folclórica

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Sublime! Este é o melhor adjetivo para tentar relatar o espetáculo “Herança Sagrada – A corte de Oxalá”, do Balé Folclórico da Bahia (BFB), aos que ainda não tiveram a oportunidade de assistir a Cia em cena.

Com 27 anos de história e apresentações em 24 países, considerada a melhor companhia de dança folclórica do mundo pela Associação Mundial de Críticos e merecendo elogios da crítica especializada em jornais como o The New York Times, foi apenas em agosto deste ano que a Cia se apresentou pela primeira vez no sul do Brasil, graças ao patrocínio de O Boticário na Dança.

Apesar de se tratar de uma apresentação de dança, a obra vai muito além, trazendo música, canto, teatro e uma aula de história nacional sobre nossas raízes africanas. O que o BFB traz ao palco é um espetáculo completo no mais literário sentido da palavra, ou seja, “aquilo que chama e prende a atenção”. Perfeição técnica, riqueza de detalhes, carisma, beleza estética dos movimentos e inovação. As ideias pré-concebidas que o público em geral (me incluo neste grupo) tem sobre apresentações de danças folclóricas não se aplicam ao BFB. Não por demérito dos inúmeros grupos folclóricos espalhados pelo Brasil que tem um importante papel na preservação da cultura de um país com tamanhas peculiaridades de região para região, mas o BFB é diferente.

Quem espera ver uma tradicional apresentação de dança folclórica, não conhece a Cia. No decorrer do espetáculo são muitas as gratas surpresas para quem, como eu, esperava assistir ‘apenas’ uma apresentação de dança, como o percussionista Fábio Santos, que toca o berimbau como se ele tivesse tantas cordas quanto uma harpa, tirando do instrumento sons que fizeram a plateia vibrar, ou a voz potente e suave da cantora Dora Santana, que após um dos momentos de maior euforia do espetáculo, que agita a plateia, entra com um solo calmo, mas poderoso o suficiente para não perder e ainda prender a atenção de cada espectador.
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NOS BASTIDORES DO BALÉ FOLCLORICO DA BAHIA

Poucas horas antes do espetáculo em Curitiba, no teatro vazio que, logo depois, seria tomado pela energia vibrante dos profissionais baianos em cena, o diretor geral e fundador do BFB, Walson Botelho, o Vavá, concedeu uma entrevista à Dança em Pauta. Logo no início da conversa é possível perceber o comprometimento e a seriedade que ele dedica ao trabalho e que consagraram sua Cia. Envolvido com variados gêneros de dança desde os 11 anos de idade, a decisão de trabalhar com a dança folclórica baiana o levou a buscar a formação em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia. “Busquei o curso por causa da dança e foi a melhor coisa que fiz, preciso muito desta visão antropológica pra fazer o meu trabalho. Ainda existe muito de nossa cultura que desconhecemos, temos vários trabalhos científicos, livros de antropologia, mas eles não trazem peculiaridades como a melodia, o passo, o movimento, a intensidade, que são coisas que buscamos trazer ao palco”, afirma.

Vavá relata que, por trás de todo o trabalho de preparação física e técnica apresentado pelos dançarinos, cantores e músicos do BFB, existe um trabalho ainda mais longo de pesquisa histórica, que pode levar anos. “Quando nos propomos a montar um espetáculo novo o trabalho é muito intenso, pois é difícil achar as referências e o folclore tem que estar embasado na história. Para conseguirmos informações sobre manifestações desaparecidas, por exemplo, precisamos ir a campo, resgatar a memória através de entrevistas e depoimentos, pois no passado você não tinha filmes e fotos e não é algo que você vai encontrar na internet. Em alguns casos, o trabalho de pesquisa para montar uma coreografia pode levar dois anos pra ficar pronto”, relata o diretor.

Com toda esta base histórica muito bem fundamentada entra em cena mais um grande trunfo da Cia, conseguir aliar as tradições do folclore à visão contemporânea. “Não mascaramos, nem caricaturamos o tradicional trazendo o contemporâneo para dentro dele, mas também não levamos ao palco aquela cultura de 300 anos apresentada sem o apuro técnico, sem a evolução natural que a cultura tem. Damos possibilidade ao bailarino de mostrar aquela tradição de forma técnica, limpa e apurada, pois proporcionamos formação em várias técnicas de dança, moderna, clássica, contemporânea e, claro, dança afro, que é nossa base. Nossos bailarinos tem uma formação muito completa, podendo dançar em qualquer cia do mundo”, ressalta.

Além dos bailarinos, músicos e cantores da Cia principal, o BFB ainda possui uma segunda Cia que realiza espetáculos diários desde 1995, no Teatro Miguel Santana, sede da companhia, em Salvador, atração que sempre faz parte do roteiro dos turistas estrangeiros e também de outros estados brasileiros.

Mas o ensino desta arte e cultura não fica restrito apenas aos profissionais que integram a Cia, durante todo o ano, as segundas, quartas e sextas, são oferecidas oficinas de dança gratuitas, abertas a todos os interessados. “De dançarinos e atores a dona de casa, quem tiver interesse pode participar das aulas à noite, que são super disputadas”, explica Vavá.

Por fim, o encantamento deixado pelo espetáculo do Balé Folclórico da Bahia e conhecer um pouco da história e do trabalho desenvolvido por seus integrantes me traz a memória um trecho da clássica composição de Dorival Caymmi: “Você já foi à Bahia nega? Não? Então vá!”. Ou torça para ter o Balé Folclórico da Bahia em sua cidade, trazendo um pouquinho da Bahia até você.

Fotos: divulgação

 

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

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