Artigos, Forró em Pauta

Um ano é muito pouco pro Rei do Baião

Estamos vivendo o ano do centenário de Luiz Gonzaga, o maior nome do forró que já existiu. Não apenas por ter sido o “criador” do ritmo, o que já lhe daria status suficiente, mas também porque o legado deixado por ele é imenso e admirável. Foram mais de 50 discos e centenas de canções sendo boa parte delas sucessos nacionais que fazem parte do cancioneiro mais popular do Brasil.

As comemorações trouxeram à tona grande parte da obra do Rei do Baião e muitas histórias da sua vida, contadas no cinema, no teatro e em diversos livros e reportagens feitas desde pouco antes do 13 de dezembro de 2012, data efetiva das comemorações. Se antes ele andava meio esquecido e deixado de lado, com a data histórica ganhou força na mídia que, mais uma vez, fez reviver a importância desse personagem que trouxe o nordeste para todo o Brasil.

Luiz Gonzaga nasceu em Exu, pequena cidade pernambucana quase na divisa com o Ceará. Foi neste pequeno lugar que ele aprendeu com Januário, seu pai, os primeiros passos no aprendizado da sanfona, instrumento que virou seu grande parceiro pela vida adiante. Quando Exu começou a ficar muito pequena, o ainda adolescente Luiz foi para Fortaleza se alistar no exército e conhecer o Brasil. Deu baixa no sudeste e passou a viver na zona do meretrício no Rio de Janeiro, onde tocava sua sanfona com o chapéu estendido esperando pelas gorjetas dos transeuntes e frequentadores do local. Um dia, deu de cara com estudantes cearenses saudosos de suas cidades de origem que lhe pediram que tocasse umas “coisinhas do norte”. Gonzaga não demorou a presenteá-los com um ritmo todo balançado e tradicional das festas nordestinas, o ainda sem nome e desconhecido Baião. Daí em diante, Luiz Gonzaga passou a tocar em programas de rádio, shows de calouros e ganhou fama em todo o Brasil.

Era década de 50 e Luiz Gonzaga foi o grande nome da música popular neste período, virando rei, Rei do Baião. O reinado foi longo, suficiente para produzir um novo ritmo no Brasil e inúmeros seguidores e discípulos de primeira grandeza. O Brasil finalmente não era apenas o sul e sudeste.

Gonzaga chamou para si a responsabilidade de “ser” nordestino e passou a se apresentar com chapéu e gibão de couro, típicos do seu nordeste. Mas a cultura é cíclica e sedenta de novidades e, de repente, apareceu um rapaz com um banquinho e um violão de um lado e um monte de cabeludos com guitarras eletrônicas do outro. O público esqueceu a sanfona praticamente renegando-a e sua majestade perdeu grande parte do espaço conquistado na mídia, mas não na cultura brasileira, onde seu nome já estava gravado em um dos degraus mais altos. Tanto é verdade, que os cabeludos e o rapaz com banquinho e o violão, em algum momento de suas carreiras também prestaram sua homenagem a Luiz Gonzaga, tocando e cantando o ritmo que ele criou, assim como toda a música brasileira fez desde que aquele matuto nordestino resolveu assumir sua nordestinidade.

Luiz Gonzaga hoje é a base da música brasileira, é um dos alicerces mais fortes em que se apoiam os novos valores da nossa música, criando e recriando em cima do seu baião. Por isso, todas as homenagens para ele são poucas. Embora tenham sido relevantes e muito bonitas, existe o receio de que este Brasil, que tanto ama as novidades, demore mais 100 anos para trazer de volta a memória de sua obra que é tão rica e importante.

O Brasil prima pela diversidade com qualidade na sua cultura, muito devido as suas dimensões e miscigenações. Graças a elas, temos essa variedade deliciosa de elementos culturais em todas as áreas. Na música, essa característica se manifesta com uma intensidade muito grande, basta ver a infinidade de ritmos que o país tem do Oiapoque ao Chuí. Gonzaga ocupa uma faixa muito grande disso tudo, pois é responsável por um dos ritmos primários, tais quais as cores primárias que se misturam para a obtenção das demais. O Forró, o samba, o frevo, o choro, e mais alguns ritmos nacionais, servem de base para a alquimia genial deste povo misturado e criativo.

Ter Gonzaga sempre em voga e não apenas por um ano é a garantia de mais e mais criações nesse maravilhoso cenário cultural brasileiro. Por isso, comemoremos os 100 anos, sem deixar de esquecer os 101, os 102, os 103…

Ilustrações: Obras de Silvio Rabelo, Francorli e Carmem, Fernando França e Cícero Arraes, que fizeram parte da exposição itinerante “O Imaginário do Rei – Visões Sobre o Universo de Luiz Gonzaga”, em 2012.

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Empresário e produtor no meio cultural, envolvido com o forró desde 1991, proprietário do Canto da Ema, uma das principais casas de forró de São Paulo. Criador do Dia Nacional do Forró (13 de dezembro). É apresentador e produtor do programa “Vira e Mexe”, na Rádio USP 93,7 FM, direcionado ao ritmo nordestino. O cantor Dominguinhos era seu parceiro na apresentação do programa.

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