Dança & Educação, Danças de Salão

Treino é treino, jogo é jogo!

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Se perguntássemos a alguns alunos, em seu primeiro dia de aula de dança de salão, se eles estavam ali porque queriam aprender a dançar, acredito que a resposta, unânime, seria um sonoro SIM! Minha opinião particular difere um pouco desta suposta resposta, penso que a maioria dos alunos, quando inicia seus estudos, na verdade quer é dançar na aula, e não aprender a dançar nela.

Para justificar minha opinião vou citar um fato comum, que se repete quase que diariamente nas aulas de dança de salão por aí afora. Por muitas vezes, na parte da aula onde existe um ensinamento novo, é necessária uma quantidade de prática e explanações maior que as habituais, seja porque determinados assuntos necessitam de mais detalhes, ou porque determinados grupos requerem que se trabalhe um pouco mais na abordagem do conteúdo para melhorar os resultados. Às vezes, tais educativos, explanações e treinos acontecem sem música, e então lá vem a célebre frase: professor coloca uma música pra nós dançarmos!

E esta vontade de dançar, ao invés de continuar a trabalhar no assunto sugerido pelo facilitador da aula, seria ruim? Claro que não! Afinal de contas, tudo que qualquer professor quer é que seus alunos adorem dançar e que façam da atividade parte importante e fundamental de suas vidas. Porém, esta aí a prova de que a aula para alguns praticantes funciona como um baile, e não como a hora do desenvolvimento da sua dança pessoal. Muitas vezes, esses mesmos pupilos que pedem as músicas na aula, durante os treinos, não são frequentadores de bailes, ou seja, só têm contato com o dançar a dois na aula e, por isso mesmo, tentam transformar a hora do treino em jogo, se me permitem a analogia com o meio esportivo.

Acredito muito nos métodos de ensino que aplicamos na dança de salão brasileira. Já ouvi muitos elogios de professores internacionais de renome, sobre nossa maneira de abordar o ato de capacitar às pessoas na arte de dançar a dois. Um fato que acaba impressionando bastante os docentes estrangeiros é nossa capacidade de trabalhar e ensinar ritmos de caracteres muito distintos aos alunos, como um mesmo professor dar aulas de Samba de Gafieira e Bolero. Também é destaque o fato de professores brasileiros conseguirem lidar bem com grupos numerosos de alunos, conseguindo resultados interessantes.

Apesar de toda essa nossa qualidade na transmissão dos ensinamentos de como dançar a dois, vejo uma coisa dentro do modelo de alguns maestros argentinos de ensinar Tango que sempre me fascinou. Acredito que a quantidade de pessoas com um bom desempenho na dança social, dentro das milongas de Buenos Aires, tem uma relação muito íntima com o esquema que é apresentado ao aluno como caminho para aprender a dançar, que consiste em: Aulas, Práticas e Bailes. Se o aluno adere a este modelo, aquela abstinência que ele sente na aula, quando a mesma não apresenta muitas músicas para dançar, acaba.

Em seguida vou explicar um pouco melhor o que é, e a função do esquema que apresentei acima:

  • Aula: Momento para aprimorar os fundamentos e técnicas individuais e de par, também utilizada para a construção e desconstrução do repertório, ou seja, uma parte do aprendizado da dança mais focada no estudo da mesma. Na alusão ao esporte seria o treino!
  • Prática: Um misto de aula e baile, onde se pode dançar com várias pessoas, parar para trocar ideias, esmiuçar o que se conhece, testar e firmar os conhecimentos. Normalmente existe um monitor ou professor a disposição e tem-se música tocando o tempo todo. Funciona como uma espécie de aula de reforço, com foco na pesquisa e hora para tirar dúvidas. O ambiente menos “formal” que um baile. No esporte, poderíamos comparar ao coletivo ou amistoso.
  • Baile: Momento social da prática da dança a dois, onde não se deve focar em correções ou aprimoramentos técnicos na pista e sim na diversão e interação com o par. Local onde executamos o que aprendemos e fundamentamos nas aulas e práticas. Neste ambiente, os rituais de conduta da dança a dois imperam. Aqui sim, o jogo de fato!

Qualquer praticante de Dança de Salão, que tivesse seu processo de aprendizado passando pelo modelo que apresentei acima, com certeza, teria uma relação menos ansiosa na aula, no que se refere a dançar para se divertir ou como um momento de catarse. Em algumas cidades, as escolas realizam práticas para seus alunos, porém, em lugares em que elas não acontecem, só a frequência semanal a bailes já traria um efeito bastante significativo para o praticante encarar a aula de maneira voltada também ao aprendizado e não somente a diversão.

Gostaria de salientar que, de maneira alguma, vejo a aula como um momento chato ou não prazeroso da lida com a dança. Muito pelo contrário, as classes – como as aulas são chamadas pelos argentinos – devem ser muito agradáveis, prazerosas e divertidas, porém, elas não têm a mesma função de um baile, em minha opinião.

Finalizando, não há contestação quando falamos que, para ter um melhor desempenho e usufruir o que a dança oferece de melhor, ter mais contato com ela e torná-la um hábito de vida é fundamental.

Então, uso a frase do escritor latino da Roma antiga, Publílio Siro, que diz: “A prática é o melhor de todos os instrutores”.

Façamos aulas, pratiquemos mais e, depois, vamos para as pistas, pois os bailes continuam!

Fotos: Daniela Pimazoni/Dança em Pauta e divulgação

Postagem AnteriorPróxima Postagem
Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

2 Comments

  1. Bem verdade! Aprender e aplicar são coisas diferentes…Me ocorre também comentar que o ensino de adultos contempla o aspecto de limitação de tempo, e o objetivo que leva o aluno à aula. Muitas vezes ele só quer “se exercitar” e imagina que o tempo que investe na aula é suficiente, nem sequer cogitando em “gastar ainda mais tempo” naquela prática. É o que ouço muitas vezes no consultório quando indico alguma prática motora: “Mais que duas vezes por semana, doutora?” Muito mais!…Duas vezes é só para começar, para incentivar o sedentário a sair da inércia.
    Outro aspecto importante desta questão, me parece, é a dificuldade em ser observado. Para um aluno tímido, ou que não tem experiência em ser alvo de olhares, estar na pista é muito mais embaraçoso do que estar na sala e aula. Este é um dos princípios da teatralidade: o olhar do observador, e um “espaço outro” onde há este “contrato de exibição”. Este exercício é um dos mais belos no aprendizado da dança de salão, e se alcançado o objetivo, pode mudar toda a vida do aluno: trabalho, família, afeto…tudo! Um bom exercício de teatralidade (se houver interesse e tempo na aula, é claro) é criar pequenos momentos em que todos os alunos param para ver um par que acertou algo, ou que resolveu bem um passo, ou ainda ao final da aula cada par exibir uma figura. Cria-se o “espaço outro” e acostuma-se a receber o olhar de uma “plateia”, ainda em clima de amistoso, para usar a metáfora do Prof. Cristovão. Adorei o texto, professor, dá muito o que pensar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *