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Todo poder emana da dama…

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Já no artigo primeiro de nossa Constituição Federal lemos que: “Todo poder emana do povo”. Como uma das regras máximas de nossa nação, entendemos, portanto, que ao governo é transferido o poder que deve ser exercido de forma a satisfazer o povo, seu titular. Caso houvesse uma Constituição para a clássica dança de salão, talvez começasse definindo que “Todo poder emana da dama”. Pois já no século XIX, Tobias Barreto afirmou que a influência do salão é sinônimo de influência da mulher. Neste artigo faremos um paralelo lúdico e despretensioso deste conteúdo da Carta Magna com o que rege a condução na pista de dança tradicional.

A palavra poder tem significação complexa, entretanto, é possível entende-la como a capacidade ou o direito de deliberar, de exercer autoridade, de decidir, de mandar. Por regra, o poder, desejado por muitos, é disputado e leva as pessoas a fazerem coisas incríveis por ele. Legitimar e sustentar o funcionamento de um governo, provavelmente, é um dos maiores poderes.

Na pista de dança, é conhecida e bem difundida a ideia de que o poder de decidir os movimentos a serem executados, seu tempo e a direção que o par segue no espaço, caberia somente ao cavalheiro e, à dama, restaria a obrigação de obedecer. Esta, naturalmente, é uma relação de poder desequilibrada, portanto, que tende a não se manter. Mas os fatos nos mostram que a condução clássica tem ultrapassado os séculos bem viva nas pistas de dança, logo, o âmago de seu regramento que deve ser a satisfação de ambos, cavalheiro e dama, vem sendo, de alguma forma, preservado.

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Poder sem limites tem grandes chances de desaguar em abusos desestabilizadores. Como vemos em muitas relações entre governos e povos, quando um desequilíbrio é gerado pelo abuso do poder de autoridade que resulta em significativa insatisfação do povo, cabeças podem rolar, literalmente. Algo nesta linha nos trouxe o ideal da liberdade, igualdade e fraternidade.

Cedo ou tarde o poder é retirado do governante que dele abusa. Se os cavalheiros, lato sensu, ainda não foram depostos definitivamente do cargo de condutores na pista, é porque, de alguma forma, existem limites para o exercício do poder a eles conferido e as damas, definitivamente, não estão oprimidas. E talvez a deposição, stricto sensu, de um ou outro cavalheiro que se concebe apenas como mandante a ser obedecido, possa ter contribuído para continuidade deste equilíbrio ao longo de séculos.

Pois vejamos, o ambiente em que a dança de salão surgiu e se desenvolveu, no cerne da nobreza, primava pela educação de damas e cavalheiros voltada essencialmente para cordialidade, tendo a dança em seu elenco de conteúdos. Os livros dedicados a ensinar a conduta cortês aos letrados da época deixam muito clara a distribuição do poder naquela relação entre cavalheiros e damas. Ensinava-se aos homens que, para serem distintos cavalheiros da nobreza, deveriam abrir as portas para a dama passar, oferecer um casaco para seu maior conforto no frio e, por meio de muitas outras atitudes, colocar-se a seu serviço, intentando agradar e satisfazer as vontades dela. Uma formação nesta linha destoa da ideia de comando arbitrário da dama sem qualquer preocupação com seu conforto e prazer durante a dança.

couple_up_wood-floorO cavalheiro do momento e local em que a dança de salão iniciou seu florescimento, ou seja, em que nasceu a condução na dança, submetia-se ao aceite ou à recusa da dama por dançar, independente de haver ou não uma pressão social para que uma dança não fosse negada. Em um estado democrático, o povo aceita ou recusa o candidato a governante pelo voto. Uma vez aceito o cavalheiro, o poder lhe é transferido e deveria começar o trabalho de atender aos desejos da dama, titular do poder transferido. Como nesta regra tradicional a dama transferiu o poder das decisões, para obter o que quer, é necessário indicar ao cavalheiro o seu desejo, a fim de que ele possa satisfazê-la e assim, continuar com o ambicionado poder. De forma organizada e sadia, um não existe sem o outro.

Uma vez que a regra para ser um bom cavalheiro é satisfazer a dama, atingindo-se este objetivo que é atestado pelas reações da dama, dá-se a satisfação também do cavalheiro por ter tido sucesso em seu objetivo, por ter constatado a própria competência e por continuar com o poder.

Poderes e responsabilidades de damas e cavalheiros são imperativos na pista, nesta regra, um precisa do outro para ser feliz. E nem na brincadeira desta analogia adianta sugerir brioches, seja quem for que tenha tido esta ideia na História. É preciso matar a fome do povo e do governo, digo, da dama e do cavalheiro…

Fotos: Déborah Godoy/Dança em Pauta

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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