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Sobre o artigo “Passos aéreos e dança de salão, ainda há dúvidas?”

O artigo publicado nesta coluna mês passado interessou a muitos leitores, trazendo provocações interessantes, fomentadoras de aprofundamentos, o que é formidável para a dança de salão.

Embora o objetivo do artigo estivesse distante de discursar sobre o Lindy Hop, pretendendo sim abrir um debate sobre o uso de passos aéreos no salão, alguns aspectos merecem este novo artigo, que visa rediscussão e fundamentação.

Fundamentações

Disponibilizei aqui algumas das fontes fundamentadoras das frases do artigo que foram apontadas por, em tese, conterem “erros”. Caso o objetivo do artigo fosse discutir Lindy Hop, muitas outras fontes além das citadas poderiam ser mencionadas, não é o caso.

Comecemos pela seguinte frase, que gerou profícua controvérsia:

Por isto, é válido estudar as razões pelas quais a Valsa está aí até hoje, e o Lindy Hop durou tão pouco tempo, considerando inclusive que seu ressurgimento nos salões, se de fato houve, foi tímido e provavelmente artificial.

Segundo Shona Smith (www.lindycircle.com/history/lindy_hop), “The original Lindy Hop died off as the music changed to Be-Bop and Rock and Roll”. Outro texto, no subtítulo “Lindy Hop”, afirma: “Known from the 1930s as “Jitterbug”, it was widely danced until the late 1950s” (http://www.jitterbuzz.com/lindyhop.html). Já outra fonte considera a duração da primeira fase do Lindy Hop entre 1925 e 1945 (http://www.kclindyhop.org/history_b.htm). Com base nestas e em outras fontes, entende-se que a primeira fase do Lindy Hop durou, provavelmente, entre duas e três décadas. E “teve uma segunda vida nos anos 80”, conforme o texto que, segundo Andrei Udiloff foi fornecido por Jomar Mesquita, disponível em http://www.andreiudiloff.com.br/ritmo%20lindy.htm, http://pt.wikipedia.org/wiki/Lindy_Hop e outros. Considerando que é praticada até a presente data, temos, nesta segunda fase, mais cerca de três décadas de atividade desta dança. Conforme estas fontes, no total, o Lindy Hop não chegou a ter duração de um século, o que não o compromete, de modo algum.

Perna (2005), página 12, coloca que: “A dança de salão a dois de pares enlaçados, onde a dama dependia apenas de seu cavalheiro e vice-versa, e não de outros dançarinos, só chega no final do século XVIII em Paris, com a Valsa”, mostrando-nos que, segundo esta fonte, a Valsa está nos salões a, pelo menos, mais de dois séculos.

Conforme as fontes apresentadas, a duração da Valsa é de mais de dois séculos e do Lindy Hop de menos de um século. O que não é demérito, é fato. Mesmo se contássemos o tempo de existência da Valsa somente a partir do surgimento do Lindy Hop, ela ainda teria duração maior, pelo fato de não ter sido interrompida como o Lindy Hop foi. Neste contexto, cujo único foco abordado foi a duração (e não conjuntura de origem), a colocação comparativa de que o Lindy Hop “durou tão pouco tempo” fica fundamentada.

Quando notamos, nas citadas fontes e em outras, informação de que o Lindy Hop sofreu o que os autores chamaram de “morte” e uma posterior “redescoberta”, enquanto a Valsa perdurou ininterruptamente desde o século XVIII, não é equivocado entender que, em relação a Valsa, a expressividade do Lindy Hop no tempo foi tímida em sua segunda fase. E artificial, pois não brotou naturalmente nos salões, foi, como diz o texto, reativada a partir de fontes provenientes da primeira fase. Por isto a colocação “se de fato houve” questiona se teriam ocorrido mudanças significativas entre a primeira e a segunda fase do Lindy Hop, que, eventualmente, seriam merecedoras de distinção na própria definição de Lindy Hop. O questionamento respalda-se na história que se tem conhecimento, afinal há autores que dividiram a primeira fase do Lindy Hop em duas gerações distintas (uma entre 1925 e 1935 e outra entre 1935 e 1945 – http://www.kclindyhop.org/history_a.htm).

Interessante notar ainda que este artigo não é o primeiro texto a abordar Lindy Hop e Valsa em um mesmo contexto: “The Lindy Hop owes much to Charleston, Jazz and Tap steps, Ballet, and complex movements from Vienese Waltz” (http://www.jitterbuzz.com/lindyhop.html). Este exemplo mostra que Lindy Hop e Valsa talvez não sejam tão desconectados ao ponto de abordagens conjuntas serem “errôneas”.

Naturalmente, pode-se rediscutir a questão, em havendo literatura científica provando que:

  1. não é válido estudar as aludidas razões;
  2. o Lindy Hop não durou “tão pouco” tempo em relação a Valsa;
  3. o ressurgimento do Lindy Hop não é tímido e provavelmente artificial comparado com o que houve com a Valsa até hoje;

Outra frase que trouxe polêmica foi:

Uma mulher ao final da gravidez, que pode dançar extraordinariamente bem uma Valsa, terá dificuldades e estará exposta a riscos que não compensam ao dançar o Lindy Hop com suas acrobacias.

Note-se que o trecho termina assim: “com suas acrobacias”. Uma vez que isto foi nitidamente especificado, entende-se que o Lindy Hop pode, sim, ser dançado sem acrobacias. Caso contrário a especificação não teria razão de ser.

Novamente, caso exista literatura demonstrando que uma mulher ao final da gravidez não terá dificuldades e não estará exposta a riscos ao dançar Lindy Hop com suas acrobacias, abre-se novamente a discussão.

Vale considerar ainda que o escrito não afirma, de nenhuma forma, que mulheres em qualquer estágio da gravidez, não podem dançar, não devem dançar ou não dancem Lindy Hop, especialmente, sem suas acrobacias.

Seguindo as apreciações, outra frase que suscitou dúvidas foi:

Esta dança, Lindy Hop, teria influenciado tecnicamente o rock and roll e o swing.

No artigo consta, cuidadosamente: “teria influenciado” e não “influenciou”, porque há fontes que embasam a afirmativa, entretanto, não científicas. Logo, que não são prova. Estas fontes são mais contundentes ainda, afirmando: “O Lindy Hop é o ritmo que originou o Swing e posteriormente o Rock”, seguindo mais adiante: “E foi do Lindy Hop, de sua enorme riqueza coreográfica, de seus loucos passos aéreos e solos que, mais tarde, a partir dos anos 50, surgiram os mais diferentes estilos de rock’n’roll e swing” (texto, segundo Andrei Udiloff, fornecido por Jomar Mesquita: já citado). Existindo literatura comprobatória de que o Lindy Hop não influenciou em nada o rock and roll e o swing, é possível colocar os autores e disseminadores das informações contraditórias a dialogar.

A compreensão sobre o que um conjunto de palavras articuladas significa dentro do contexto de um texto vem sendo estudada, revelando que inópia na interpretação de textos é fato, estatisticamente mensurado, atingindo parcela representativa da população brasileira (BRASIL, 2009), então, não surpreende. Este fenômeno é bem representado pelo que segue:

  • não há no artigo afirmação de que o Lindy Hop foi extinto, nem de que não existe mais. Mesmo que tivesse se proferido tal asseveração, o que não se fez, poder-se-ia apontar fonte que justificaria uma determinada extinção: “The original Lindy Hop died” (…) “In the mid 1980’s some of the original members were rediscovered” (www.lindycircle.com). Esta leitura suscita o significado de que o Lindy Hop foi extinto no intervalo de tempo que compreendeu sua “morte” e a “redescoberta”;
  • não há nenhuma afirmação no artigo, que pessoas idosas ou grávidas não possam dançar, não devam dançar ou não dancem Lindy Hop;
  • não há afirmação que o Lindy Hop teve sua primeira fase finalizada por conter passos aéreos;
  • um artigo onde foi dito que o Lindy Hop é “absurdamente excitante”, escancara o avesso de um posicionamento discriminatório contra a dança. Lembrando ainda que conteúdo discriminatório não vai ao encontro dos princípios da Revista Dança em Pauta, vai de encontro. A editora da revista também jamais admitiria qualquer publicação discriminatória;
  • o artigo não contém nenhuma afirmação de que Lindy Hop resume-se a aéreos, como já demonstrado.

Entretanto, alguns trataram como se estes e outros conteúdos existissem no artigo, quando não existem.

Ótimo quando temos oportunidade de reverter interpretações desvirtuadas, evoluímos cognitiva e emocionalmente, bem como na compreensão da língua.

Críticas e seus fundamentos, para refletir

As críticas são sempre bem vindas. As construtivas tem fulcro no que de fato existe e não no que se pensa que existe. As outras, estão sob pena de padecerem vazias além de cometerem injustiças com todos que estão envolvidos na produção alvo.
Um artigo opinativo, não científico, como é o caso, não requer fontes científicas. Entretanto, para provar a existência de erros ou falhas, é mandatória a apresentação de cada fonte que prove cada erro, indispensavelmente contendo:

  1. apresentação articulada dos conteúdos;
  2. referências bibliográficas completas;
  3. a cogente indexação científica, meio consagrado de validação do conhecimento sistematizado na sociedade atual.

Esta é a forma legítima de se mostrar que há erro. Assim, não se comete iniqüidade.

Vale lembrar a relevância do fato de que fontes científicas ainda são raras na dança de salão, tendo-se que recorrer a materiais que não passaram pelo crivo exigente do processo científico, portanto, são insuficientes como prova de erro ou acerto, o que requer postura de diálogo. Desta forma, as afirmações contundentes sobre existência de erros e falhas, podem ficar difíceis de sustentar, acabando contraproducentes.

Já um posicionamento investigativo, proporcional e cordial parece compatível com este status quo. Um exemplo brilhante e inteligente deste posicionamento foi dado pelo colega Luiz Dalazen em seu questionamento do último artigo:

“Não tenho fontes claras sobre tal, mas os movimentos aéreos dessa prática eram somente utilizados nas exibições dos pares, quando a prática social era interrompida e os casais de destaque mostravam suas habilidades, não? Será que esse show de malabarismos era executado com todos no salão??? Se alguém puder contribuir… Fica o questionamento!”

Esta conduta é produtiva, construtiva, bonita, porque abre “espaço” para que o autor debata, por exemplo, que esta foi uma das razões pelas quais a frase abaixo foi colocada no artigo:

É interessante notar que os espaços de dança neste momento histórico não eram exatamente como são os salões hoje ou eram no remoto surgimento da dança de salão. – entenda-se que a palavra “espaço”, polissêmica, foi empregada nesta frase no sentido lato, abrangendo a dinâmica de eventos e não simplesmente um lugar.

Aqui, continua sendo um bom espaço para debate, troca salubre de idéias. Desta forma, é imperativo que se apresentem fontes para que todos possam constatá-las, compartilhá-las de forma construtiva, efetivamente abalizada, e aí sim iniciar uma discussão útil, que vai ao encontro da consolidação do saber e chega a conclusões válidas. Sem nenhum tipo de fonte que sustente o contraditório, os argumentos e seus escopos ficam nebulosos. A ocupação deste espaço torna-se frívola. Os questionamentos reduzem-se a conjecturas. Faz-se o que, no meio jurídico, popularizou-se pelo bem humorado e irônico jargão que remete ao latim: jus sperniandi.

De qualquer forma, todas as opiniões baseadas no que de fato foi escrito são importantes. Elas são capazes de suscitar novos questionamentos, esclarecimentos e enriquecer o conhecimento por se respaldarem na correta interpretação de texto, declaração de fontes e conduta justa.

FONTES:

Literatura:
BRASIL, Instituto Paulo Montenegro. Indicador de analfabetismo funcional, principais resultados. 2009.
PERNA, M. A. Samba de Gafieira a História da Dança de Salão Brasileira. 3ª ed. s / editora. Rio de Janeiro. 2005.
SMITH, S. Lindy Hop History, sem data disponível em: www.lindycircle.com/history/lindy_hop. Acesso em 3 de junho de 2011.

Sites citados, acessados em 3 de junho de 2011:
http://www.jitterbuzz.com/lindyhop.html
http://www.kclindyhop.org/history_b.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lindy_Hop.
http://www.andreiudiloff.com.br/ritmo%20lindy.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Valsa
http://en.wikipedia.org/wiki/Waltz
http://lindyhoppt.blogspot.com/p/o-que-e-lindy-hop.html

Este texto é uma resposta aos comentários feitos no texto original “Passos aéreos e dança de salão, ainda há dúvida?”, por isso, não foi aberto a comentários.

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.