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Saúde auditiva na dança

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Quando falamos em saúde para a dança, lembramos quase que exclusivamente de aspectos articulares, cardiovasculares e respiratórios. Mas a nossa saúde auditiva também é muito importante, e pode ser afetada durante as aulas de dança. Já reparou como parece que ficamos mais empolgados quando o volume da música está mais alto?

Esta questão foi abordada em um interessante estudo realizado na cidade de Porto Alegre, no ano de 2013. Três fonoaudiólogas pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul preocuparam-se com a longa duração e alta intensidade do som à qual são expostos os professores de dança. A maior parte dos estudos na área foram realizados com trabalhadores expostos a ruídos considerados desagradáveis, como no campo da construção civil, metalurgia, mecânica e militarismo. Entretanto, ruídos que podem ser considerados agradáveis ou prazerosos, como é o caso da música, também podem causar dano ao aparelho auditivo. Isto é particularmente importante para pessoas expostas a ambientes em que há música em altos volumes, como academias de ginástica, escolas de dança, festas e locais de convívio social.

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A fundamentação teórica do estudo diz que a perda auditiva é uma das causas mais comuns de doença ocupacional no Brasil e em vários países industrializados. Estima-se que 25% dos profissionais que trabalham expostos a ruído têm perdas auditivas sem perceber. Os professores de dança estão aí incluídos. Entre modalidades de atividade física que utilizam música, 86% das academias de ginástica e dança apresentam-se acima dos limites de intensidade sonora; professores de ciclismo indoor referem aumentar sistematicamente o volume de som a pedido dos alunos, para que sintam-se mais motivados.

As pesquisadoras gaúchas decidiram, então, pesquisar o nível de pressão sonora entre professores de dança. Para isto, recrutaram professores de diversos estilos e técnicas de dança e mediram a intensidade do som nos primeiros 5 minutos, na metade e nos 5 minutos finais de cada aula de dança avaliada. Em cada uma destas aferições, a intensidade do som foi medida durante 1 minuto. Sabendo que a distância do sujeito até a fonte do som interfere na intensidade percebida, as pesquisadoras posicionaram-se aproximadamente no mesmo local do professor, que quase sempre era à frente dos alunos (próximo a uma parede ou espelho), ou no meio da sala de aula.

A intensidade do som é medida em uma unidade denominada decibel (dB). Bel é uma medida de proporção (como a percentagem) raramente usada, nos dias atuais, e que foi assim denominada em homenagem ao físico Alexander Graham Bell. Um decibel é a décima parte do bel e representa a proporção de uma quantidade de energia ou intensidade. Sons entre 85 e 90 dB podem causar danos auditivos irreversíveis. As consequências são proporcionais ao tempo de exposição: quanto maior o tempo ouvindo um som muito alto, maior o dano às estruturas do aparelho auditivo.

musica_alto-falanteO Ministério do Trabalho, segundo normas de 1994, limita a exposição a som e ruído em:

  • 16 horas para exposição de 80 dB;
  • 8 horas para exposição de 85 dB;
  • 4 horas para exposição de 90 dB;
  • 2 horas para exposição de 95 dB;
  • 1 hora para exposição de 100 dB;
  • 30 minutos para exposição de 105 dB;
  • 7 minutos até 115 dB.

(Perceba que, a cada 5 dB somados, cai à metade o tempo de exposição permitido.)

Trinta e cinco professores distribuídos entre as áreas de ballet clássico, dança jazz, sapateado americano, danças urbanas, danças árabes e danças de salão tiveram suas aulas aferidas. Entre eles, 11 eram homens e 24, mulheres, variando entre 18 e 55 anos; tinham entre 1 e 37 anos de experiência em ensinar dança, e trabalhavam de 1 a 10 horas por dia.

Além da aferição da intensidade do som, as pesquisadoras também aplicaram um questionário de sensações autorreferidas pelos professores; 15 deles admitiram que a intensidade do som em suas aulas era alta, 19 disseram que estava na média e apenas um referiu som suave. Quando indagados sobre o motivo de usar música em altos volumes, 40% disseram que acreditavam melhorar a performance dos alunos.

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Vinte e quatro professores (cerca de 68%) referiram nunca terem recebido informação sobre os danos à saúde relacionados a uma música muito alta, ainda que 20 deles tivessem formação de dança em nível profissionalizante (curso superior ou tecnológico na área da dança ou do movimento).

Ao final do período de coleta de dados, foram avaliadas 15 aulas de ballet clássico, 4 aulas de sapateado americano, 5 de dança jazz, 6 de danças urbanas, 2 de danças árabes e 3 de dança de salão.

Os resultados foram muito interessantes: no início das aulas a variação de intensidade do som foi de 75 dB, em aulas de ballet, a 89 dB, em aulas de danças árabes. No meio da aula, o ballet seguiu tendo a menor intensidade de som (77 dB) e o sapateado americano foi a aula mais “barulhenta”, com 91 dB. Na medição do final das aulas, as danças árabes baixaram o tom, ficando com a aferição mínima de 77dB; as danças urbanas e o sapateado americano empataram no topo, com 91 dB. A dança de salão teve 84, 87 e 84 dB nas medidas de início, meio e final de aula, respectivamente. Na média, foi a terceira “mais barulhenta”, entre as modalidades aferidas.

Para termos uma ideia comparativa, observe a contagem de decibéis de diversas outras situações:

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Todas estas informações servem para pensarmos no quanto os professores de dança ficam expostos ao dano auditivo, sobretudo porque é comum iniciarem-se nesta arte ainda na infância ou adolescência. Além de perda auditiva, a exposição a altos níveis de ruído por longo tempo pode acarretar ansiedade, fadiga, taquicardia, dificuldade de concentração, alterações na respiração, no sono e no sistema imunológico. A perda neurossensorial instalada do aparelho auditivo pode manifestar-se com tinnitus (uma espécie de ruído metálico ou agudo contínuo) ou exacerbação de alguns sons (hiperacusia).

Então, vale a pena refletir:

  • Que outras maneiras temos para motivar os alunos de dança, que não apenas aumentando a intensidade do som?
  • Professores de dança, e também alunos que frequentam bailes ou várias aulas de dança por dia, devem incluir a prevenção auditiva entre seus exames de saúde. O fonoaudiólogo e o otorrinolaringologista são os profissionais indicados para esta avaliação;
  • Ações educacionais dirigidas aos profissionais de dança em formação (particularmente nas universidades e cursos tecnológicos) devem contemplar em seus currículos a saúde ocupacional do professor de dança, incluindo a saúde auditiva;
  • Salas de aula de dança com melhor planejamento acústico também ajudam muito: metragem adequada, material isolante acústico e caixas de som bem posicionadas otimizam a utilização da música.

Já havia pensado nisto? 😉

LEITURA RECOMENDADA:

  • ANDRADE, A. I. A. et al. Avaliação auditiva em músicos de frevo e maracatu. Revista
    Brasileira de Otorrinolaringologia. 2002;68(5):714-720.
  • ANDRADE, I. F.; DE SOUZA, A. S.; FROTA, S. M. M. C. Estudo das emissões otoacústicas-produto de distorção durante a prática esportiva associada à exposição à música.Revista CEFAC.2009;11(4):644-61.
  • DEUS, M. J.; DUARTE, M. F. S. Nível de Pressão Sonora em Academias. Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde,1997;2(2):05-16.
  • LACERDA, A. B. M.; MORATA, T. C.; FIORINI, A. C. Características dos níveis de pressão sonora em academias de ginástica e queixas apresentadas por seus professores. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia. 2001;67(5):656-59.
  • MAIA, J. R. F.; RUSSO, I. C. P. Estudo da audição de músicos de rock and roll. Pró-Fono. 2008;20(1):49-54.
  • NEHRING, C.; BAUER, M. A.; TEIXEIRA, A. R. Exposure to classroom soud pressure level among dance teachers in Porto Alegre (RS). Internal Archives Otorhinolaryngology 2013; 17 (1); 20 – 25.
    O decibel e os sons. Disponível em <http://www.mat.ufrgs.br/~portosil/passa1f.html> Acesso 14/01/2016.

 

 

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

2 Comments

  1. Olá, Giovanna; obrigada pelo seu comentário. Certamente os alunos também sofrem com a decibelagem elevada. O texto foi focado nos professores porque eles passam mais horas do dia expostos ao uso de música, e também porque os textos consultados traziam estas informações.
    Sobre referenciar os artigos ao longo do texto, sabemos que é a forma acadêmica convencional. Contudo, este não é o escopo da revista Dança em Pauta. A proposta das publicações da coluna Dança e Saúde nesta revista é trazer informações de caráter técnico, mas em linguagem e formato amigáveis. Os textos devem ser acessíveis a pessoas atuantes na dança de salão, com ou sem formação acadêmica, e que desejem aprofundar seus conhecimentos. Além disto, nem todos os textos listados aparecerão ao longo do artigo. Perceba que eu os listo como “Leitura recomendada”, e não como “Referências bibliográficas”. Funcionam como textos complementares, para aqueles que desejam embasar ou alargar os conhecimentos no assunto.

  2. Oi, achei muito interessante o seu post. Porém, devemos levar em consideração que não apenas a audição do professor pode ser prejudicada, mas também a dos alunos presentes nas aulas… Ponto muito importante a ser lembrado… Seria legal também você referenciar os estudos ao decorrer do texto, porque tive que ficar procurando la embaixo nas referências qual estudo falava sobre tal coisa rs. Parabéns e sucesso, bjs

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