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Sapatilhas de Pontas: quando começar?

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No universo dos praticantes de ballet clássico, o uso de sapatilhas de pontas é um momento muito esperado. Receber o primeiro par deste equipamento tão especial é um rito de passagem, um sinal de seriedade e dedicação.

Litogravura da bailarina Marie Taglione de 1831.
Litogravura da bailarina Marie Taglione de 1831.

Contam os registros históricos que as “pontas” – como são chamadas pelos iniciados – começaram a ser utilizadas pela bailarina sueco/italiana Marie Taglioni (1804-1884). Outras já haviam usado pontas antes, mas apenas para aparições breves em forma de truques; Taglioni foi a primeira a realmente dançar com esse calçado diferenciado. O que ela desejava é ainda o que move milhares de estudantes de dança a cobiçar dançar em pontas: leveza, sensação de suspensão e uma imagem mais alongada. Em pontas, uma bailarina chega a medir 20 centímetros a mais!

Assim, é comum que o período preparatório das meninas que estudam ballet seja acompanhado de grande ansiedade para chegar às pontas. É muito importante saber qual o momento adequado para que este trabalho inicie. A tal leveza que as pontas transmitem são precedidas de trabalho árduo, disciplina corporal e – sejamos francos – um alto grau de desconforto. Para que as dificuldades sejam superadas e haja condições de se alcançar um resultado positivo sem comprometer a saúde da praticante, é indispensável que se respeitem as condições mínimas para o começo do trabalho em pontas.

Por que é tão difícil dançar em pontas?

Afinal, por que são necessárias tanta força e coordenação para trabalhar em pontas com segurança? A resposta está na abordagem técnica associada às particularidades da fabricação das sapatilhas. Para proporcionarem o suporte do peso da bailarina sobre uma base tão pequena, as sapatilhas de pontas são feitas com materiais rígidos: geralmente, várias camadas de tecidos de densidades diferentes, cola e alguns acabamentos em couro. Dependendo do fabricante, pode ser utilizado também um elastômero termoplástico, menos propenso à deformação pelo pé. Esses materiais absorvem o impacto de saltos um pouco melhor do que as sapatilhas de meia-ponta, mas ao mesmo tempo, por sua rigidez, representam um revestimento contra o qual o pé da bailarina deve “lutar” para assumir a forma desejada. As pontas diminuem a amplitude de movimento da articulação do tornozelo, aumentando consideravelmente as demandas mecânicas sobre as estruturas do pé.

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Dançar em meia-ponta (com sapatilhas de lona ou couro) aumenta a força incidente sobre os pés e os tornozelos em até 4 vezes o peso da bailarina; em pontas, chega a 12 vezes! O centro de massa corporal desloca-se para a frente, e é necessário um grande equilíbrio e um refinado domínio dos músculos do tronco. Os membros inferiores são extremamente solicitados, exigindo um perfeito alinhamento e grande força muscular nas coxas, panturrilhas e nos pequenos músculos dos pés. Não surpreende que o índice de lesões de membros inferiores seja tão alto em bailarinas clássicas. Elas incluem desde lesões por contato direto, como bolhas e abrasões, até consequências crônicas de alinhamentos (mesmo que minimamente) equivocados: “joanetes”, tendinites, bursites, fraturas ósseas de stress, e outros efeitos do excesso de treinamento.

Quais são as condições necessárias para iniciar o trabalho em pontas?

Parece haver um consenso entre os profissionais da Medicina da Dança: a iniciação ao trabalho em pontas não é determinado apenas pela idade, mas pela cuidadosa avaliação de uma série de fatores. Eles abrangem:

  • Estágio de desenvolvimento corporal geral e maturação óssea;
  • Qualidade do controle do tronco, musculatura abdominal e pelve;
  • Alinhamento das articulações dos membros inferiores (quadril-joelho-tornozelo-pé);
  • Força e flexibilidade dos pés e tornozelos;
  • Duração e frequência do treinamento em dança.

As alunas que atendem esses requisitos, que tenham iniciado o estudo de ballet aos 7 ou 8 anos de idade, e que frequentem as aulas no mínimo duas vezes por semana, podem iniciar o trabalho em pontas no quarto ano de treinamento, ou seja, aos 11 ou 12 anos. Não encontramos, na literatura científica, menção de idade inferior a 11 anos como sendo adequada, sob qualquer circunstância, para o início do trabalho em pontas.

ballerina_tutu-points_so-dancaAtenção especial deve ser dada à aluna que apresentar hipermobilidade, condição determinada por particularidades genéticas fisiológicas (normais) ou pelas chamadas doenças do colágeno, fazendo com que as articulações sejam mais móveis que as da média das pessoas. Essas alunas podem, paradoxalmente, parecer mais “prontas” para o trabalho em pontas, pois suas linhas correspondem esteticamente às demandas do ballet. Essas alunas terão um “colo de pé” mais curvado, mas podem não ter trabalhado tanto a musculatura nem a consciência corporal para isto, pois sua condição articular é inata. Neste caso, algum tempo a mais de trabalho preparatório será benéfico para iniciar as pontas com segurança.

Alguns profissionais de Medicina da Dança são drásticos: contraindicam totalmente as pontas em alunas que fazem apenas uma aula de ballet por semana, que não tem apropriada flexibilidade no tornozelo (cujo pé “não curve o suficiente”) ou adequado alinhamento de membros inferiores (pés que “tombem para dentro” ou joelhos “torcidos”). Alguns experts também contraindicam as pontas em alunas que não tenham pretensões profissionais; quanto a isso, tenho ressalvas. Não existem estudos científicos que demonstrem que as amadoras não alcancem um resultado técnico e artístico satisfatório, nem que tenham mais lesões. Consideremos, evidentemente, que o tempo para atingir o nível técnico necessário para as pontas pode ser maior, mas com a dedicação necessária, não vemos motivo para contraindicação absoluta.

No caso de iniciantes ou reiniciantes adultas de ballet, estaremos trabalhando com corpos que já superaram uma fase evolutiva mais sensível; poderemos, com isto, ter algumas perdas (de flexibilidade, por exemplo), mas muitos ganhos (maior atenção, consciência corporal, maturação osteomuscular concluída). Assim, o tempo de preparação para as pontas será mais bem definido pelas habilidades técnicas e físicas da aluna, e não somente pelo dito período de quatro anos (que poderá ser maior ou menor, dependendo de cada caso).

Existem testes para verificar se as condições físicas para o trabalho em pontas já foram atingidas?

Não existem testes obrigatórios ou padronizados, mas os pesquisadores da Medicina da Dança muito tem trabalhado sobre este tópico. Já em 2004 um levantamento realizado na Pensilvânia (EUA) perguntou a profissionais de dança avaliadores pré-pontas o que eles levavam em conta. Esses profissionais podiam ser afiliados a companhias profissionais ou não, e podiam ser profissionais da área da saúde ou não. As respostas incluíram fatores pessoais (idade cronológica, início da menstruação, tempo de prática de ballet), técnicos (correção na execução de rélevés, pliés, port de bras, tendus, passés e développés), físicos (alinhamento da marcha e da coluna, propriocepção, força muscular, amplitude de movimento articular) e médicos (histórico de lesões, exames de imagem como radiografias, ressonância magnética ou cintilografia).

releveOutro estudo mais atual (2016), conduzido em duas escolas de dança da Georgia (EUA), propôs os seguintes exercícios como diagnóstico para a aptidão às pontas:

  • Prancha: realizada até a perda do alinhamento da coluna, até colocar os joelhos no chão, ou até o máximo de 5 minutos;
  • Teste do “avião”: posição de “arabesque”, com a perna suspensa e o dorso paralelos ao chão; a bailarina então flexiona o joelho da perna de suporte permitindo que as mãos toquem o chão. O equilíbrio geral e a estabilidade da pelve devem ser mantidos;
  • Teste de “eixo” ou topple test: execução de uma volta de pirueta (a partir da quarta posição, en dehors, em passé) completa, estável e com técnica correta;
  • Rélevés: retirar o calcanhar do chão em apoio unipodálico, com a outra perna suspensa (em cou de pied) realizando o movimento pela marcação de um metrônomo até não ser mais possível seguir o ritmo, ou no máximo até 75 repetições;
  • Teste do sauté em uma só perna: na mesma posição do exercício anterior, a estudante deverá saltar mantendo a estabilidade do tronco e o alinhamento da coluna, com o pé apontado para o chão no momento do salto, e aterrissando perfeitamente através do rolamento do pé. Deverá executar 16 repetições.

Esta bateria de testes foi avaliada em escalas de graduação, e através dela os pesquisadores puderam diferenciar grupos de bailarinas em fase de preparação, em nível básico ou intermediário de pontas. Entretanto, os autores alertam para a necessidade de mais pesquisas, com maior número de bailarinas e maior poder estatístico. Ainda assim, vemos nesses testes não a necessidade de uma rotulação numérica para cada estudante, e sim a chance de percepção do professor quanto a possibilidades de melhorias físicas e técnicas em cada aluna para que o trabalho em pontas seja seguro e bem sucedido.

É indispensável ou recomendável ir ao médico antes de começar o trabalho em pontas?

Não há diretrizes oficiais que indiquem obrigatoriedade de ir ao médico para a liberação do trabalho em pontas. Entretanto, a avaliação criteriosa de um profissional de saúde familiarizado com a técnica de ballet pode ser muito útil, junto à avaliação do professor de dança.

x-ray_ballerinaAs condições de saúde da aluna que pretende “entrar em pontas” devem ser satisfatórias, estando em dia com sua revisão clínica habitual (com o pediatra ou clínico). Especialistas como o médico do esporte, o reumatologista, o ortopedista ou o fisiatra, dependendo de cada caso, podem auxiliar na determinação da idade óssea e de condições maturacionais (neste caso, o endocrinologista também pode ser indicado). Havendo sintomas específicos, estes profissionais conduzirão o diagnóstico diferencial de doenças do aparelho locomotor (como artrites crônicas da infância, osteocondroses ou problemas ósseos congênitos). Nenhuma destas condições seria, por si só, impeditiva ao uso de pontas, desde que detectada e tratada adequadamente, e com acompanhamento da equipe de saúde e do professor de dança na progressão de cada etapa, que pode ser mais lenta. O fisioterapeuta é um profissional que deve ser incorporado à equipe de saúde que cuida da bailarina pré-pontas, contribuindo para a avaliação funcional (marcha, postura) e de alinhamentos articulares; ele também será requisitado para intervenções terapêuticas necessárias, como trabalho de reforço muscular específico, propriocepção, alongamento, entre outros.

Entretanto, cabe lembrar que a equipe de saúde, sozinha, não define o início do uso das sapatilhas de pontas. Mais importante é a impressão do professor de dança, conjugada às informações de saúde. Quem vê a aluna em aula diariamente, acompanha sua progressão técnica e conhece suas particularidades emocionais deve ter um voto de grande peso para esta decisão.

Como os pais podem ajudar nesta fase?

  • Provavelmente, na fase em que a aluna de ballet está esperando ansiosamente para calçar pontas, ela ainda será bastante dependente dos pais ou responsáveis para tomar as decisões que envolvem o momento. Portanto, é essencial que os pais estejam atualizados sobre o assunto, auxiliem e conduzam as melhores escolhas.
  • Procure uma boa escola, conferindo a formação e a experiência dos professores, e evitando as escolas que indiquem pontas antes dos 11 anos de idade ou que mesclem turmas;
  • Não pressione o/a professor/a a colocar pontas antecipadamente na sua filha, nem pressione por participações em festivais ou competições em pontas sem um trabalho técnico e artístico adequado para a idade;
  • Não compre a sapatilha antes da hora certa, indicada pelo/a professor/a. Se você ceder à pressão de comprar a sapatilha “só para ter”, ou para ir “acalmando a ansiedade” da pretendente, ou por qualquer outra razão que não seja a certa, não conseguirá impedir que sua filha a calce no momento que quiser, em local inadequado, e sem a orientação de um professor. É alarmante a quantidade de vídeos nas redes sociais com meninas de várias idades sem as mínimas condições para usar sapatilhas de pontas, exibindo seus “exercícios” feitos no próprio quarto, totalmente desalinhadas e sob risco de lesões graves a qualquer momento. Portanto, nada de comprar as pontas antes da estrita autorização de um bom professor. E se possível, monitore: em casa, nada de usar pontas;
  • Quando se fala em “quatro anos de trabalho preparatório antes de entrar em pontas” muitos pais alegam que suas filhas “fazem ballet desde os dois anos na escolinha” e que, portanto, aos 6 ou 7 anos já estariam aptas para entrar em pontas! Este é o perigo de se colocar estritamente um parâmetro cronológico para a definição do início das pontas. Vale lembrar que os quatro anos referidos pelos pesquisadores se referem ao real trabalho técnico em ballet, que só pode começar aos sete ou oito anos. Os anos antecedentes devem ser apenas de trabalho lúdico, preparatório, de sensibilização, de coordenação, de vivência… Mas nunca de trabalho técnico. Portanto, não adianta pressionar uma boa escola com este argumento. “Ballet” antes dos 7 anos? Não conta para o período preparatório de pontas.

Enfim, aos pais cabem a atenção, o monitoramento, a paciência e o encorajamento.

Fotos: divulgação Só Dança e banco de imagens

Na próxima semana, daremos continuidade ao tema, com a segunda parte deste artigo em que falaremos, entre outros, sobre um assunto que é pouco abordado, o uso de pontas por homens.

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

1 Comment

  1. Artigo excelente!!!!!
    Parabéns a Dança em Pauta e a colunista Izabela Lucchese Gavioli.
    Professores, alunos e amantes da Dança, especificamente Ballet Clássico devem ler e refletir sobre o assunto, quem sabe assim teremos menos bailarinos lesionados por mal uso das pontas.
    Gracinha Araujo

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