Colunas, Danças de Salão, Salsa em Pauta

Salsa com tempero verde e amarelo

Ela nasceu em Cuba com forte influência africana e europeia, foi levada a Nova York por músicos cubanos e, misturada ao jazz norte-americano e vários ritmos latinos, incluindo o nosso samba, resultou em um dos gêneros mais ricos da música popular. Desde o seu surgimento, é feita essencialmente para bailar. É escutada e dançada em bares e casas noturnas de mais de 60 países, espalhados por todos os continentes, garantindo uma legião fiel de apaixonados. Anualmente, acontecem mais de 200 eventos com foco no ritmo pelo mundo, revelando talentosos dançarinos das mais diversas nacionalidades. Nenhum outro gênero de danças de par tem uma produção musical tão grande e ativa, lançando frequentemente novas canções e intérpretes. Estes são apenas alguns dados que revelam o impacto mundial da Salsa, palavra que descreve um delicioso caldeirão cultural de música e dança.

Mas e no Brasil, país dos atuais tricampeões Mundiais de Salsa, Carine Morais e Rafael Barros, qual o cenário atual da salsa?

Para responder a esta pergunta, conversamos com profissionais de diferentes regiões do país que desenvolvem trabalho com foco no ritmo. Através de suas vivências, buscamos apresentar um breve panorama da Salsa no Brasil e desmistificar alguns estereótipos criados em torno da dança e de seu aprendizado.

 

Abre que Voy!

“La rumba esta comenzando
Y tiene mucho sabor
Que vengan muchos salseros…”
Trecho da música ‘Abre que Voy’, de Los Van Van

Impossível falar sobre a repercussão da salsa no Brasil sem o que poderíamos chamar do seu “marco zero” no país, o 1º Encontro Nacional de Salsa, realizado em 2001, em São Paulo, pela Cia Conexión Caribe, grupo formado em 1999, por apaixonados pela música, dança e cultura da salsa. O evento foi de grande importância, não apenas por dar os primeiros passos na difusão da dança no Brasil, mas por trazer uma nova perspectiva a área, já que foi o primeiro com formato de congresso de dança a dois no país. Dois anos depois, o êxito da empreitada pioneira transformou o Encontro em Congresso Mundial de Salsa do Brasil e, a partir de 2010, resultou na Semana da Cultura Latina, que além do congresso de salsa, apresenta também os de zouk, tango e samba. Neste mesmo ano, ao comemorar uma década de divulgação do ritmo, a salsa brasileira atingia seu ápice com a consagração de Carine e Rafael como os primeiros brasileiros a conquistarem o título de Campeões Mundiais de Salsa no mais importante campeonato do gênero, o World Salsa Open, realizado em Porto Rico.

Carine e Rafael na conquista do 1º título mundial de salsa do Brasil.

Mas se para o mundo o Brasil mostrava sua maturidade técnica através de nossos dançarinos campeões, conquistando respeito e admiração no exterior, por aqui, reduzia a procura pela salsa entre o público adepto das danças a dois. De acordo com os idealizadores e organizadores do congresso, Douglas Mohmari e Ricardo Garcia, este processo era algo previsto a partir de 2004, quando o evento passou a apresentar a etapa brasileira da competição Salsa Open como parte das atrações. “A gente demorou pra tomar a decisão de trazer o campeonato porque sabíamos que isso iria afastar o público, mas ao mesmo tempo era algo inevitável, porque o ritmo estava crescendo e já nos cobravam isso. O problema é que as pessoas assistem uma dança de campeonato e dizem: ‘isso não é pra mim’. Mas a dança de competição está muito longe do que é aquela salsa gostosa que se dança no salão”, relata Douglas.

Carine concorda com ele: “A competição foi responsável por fazer o país todo se apaixonar pela salsa, mas acredito que ao mesmo tempo em que ela fez a salsa dominar o Brasil, também afastou um pouco”. A tricampeã ressalta que o alto nível técnico da dança apresentada em competições, sempre contando com muitos giros e acrobacias, que deveriam ficar no palco e não nos salões, ‘espanta’ os iniciantes. “Aí se perde o aluno, porque ele acha que só se dança daquele jeito. Nossas apresentações são focadas em um padrão de competição internacional, mas não quer dizer que a gente não curta a essência de brincar e se divertir com a salsa. É isso que eu e o Rafael queremos resgatar no Brasil”, ressalta ela.

E se as performances estonteantes dos dançarinos profissionais de salsa assustam os iniciantes nas danças a dois, parece que muitos professores não procuram amenizar a insegurança dos alunos, já que uma afirmação comum entre aprendizes e mestres é de que a dança é difícil.

Mas se a salsa é, historicamente, uma música feita para dançar, como pode ser difícil?

“Quem diz que ela é difícil está errado. Digo com convicção que esta imagem de dança difícil é culpa dos professores. A salsa tem uma dança e música complexas e por ser o ritmo mais dançado no mundo tem um nível muito alto e, hoje, é uma dança muito evoluída, mas isso não significa que ela tem que ser difícil. Com uma aula de salsa você vai aprender passos que te garantem se divertir a noite inteira em um baile. Existe um repertório de passos que você faz abraçado, sem fazer giros ou com giros muito lentos. A questão é, se você quiser se aprofundar, existe um universo muito vasto pra evoluir sua dança”, afirma Ricardo Garcia.

Já sobre outra dificuldade muito citada pelos aprendizes de salsa, conseguir ouvir a música e dançar no tempo correto, Douglas comenta: “As pessoas falam em ser musical, interpretar a música, acho até importante, mas muito mais importante é acompanhar a muchacha e ver o que ela gosta”.

“Se você quiser dançar e se divertir sem seguir o tempo da música ninguém vai te prender por isso, não está escrito na bíblia que isso é pecado”, brinca Carine.

 

A SALSA NO RIO DE JANEIRO

O músico panamenho Agustin Flores que, atualmente, faz shows com a banda Salsa Klave recorda que, quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1988, eram poucos os brasileiros que conheciam a salsa, mas esta realidade começou a mudar por volta de 2000, quando as escolas de dança passaram a dar aulas do ritmo. “Nesta época trabalhei como DJ em bailes nas escolas do Carlinhos de Jesus e do Jaime Arôxa, entre outras, atraindo muitos alunos e até professores para salsa. No Jaime, me apresentei também com uma banda”, conta.

Apresentação de Agustin & Salsa Klave Band em noite latina de um bar carioca.

Mas a partir de 2009, a salsa perdeu muito espaço entre os cariocas, o que para Agustin foi culpa das próprias escolas que impuseram um único estilo de dança, mais complexo, deixando de lado a simplicidade e a diversão que a salsa pode proporcionar. As performances com muitos giros e acrobacias que saíram dos palcos para os salões, não apenas espantaram os alunos, mas também os imigrantes latinos, dividindo o público dos eventos. “A maioria das pessoas que está aprendendo a dançar começa a fazer giros assim que a música inicia e isto tira um pouco do charme da coisa, porque a salsa é a dois, você dança junto. O que vejo hoje no salão é o contrário, eles dançam separados, cada um fazendo seu show”, ressalta o músico que acredita que o caminho para atrair novos adeptos é mostrar que a salsa não é difícil e que pode ser “brincada” por todos.

 

A SALSA NO NORDESTE

Os cearenses Carine e Rafael não foram os únicos dançarinos nordestinos a se encantarem pelo ritmo que já era popular no sudeste. Embora ainda não fossem parceiros, em 2004 ambos participaram do Rebelion Salseira, um grupo de estudos formado por 10 casais das principais escolas de dança de Fortaleza. “Quando a salsa chegou no Ceará foi um choque, todo mundo queria aprender. O primeiro a dar workshop lá foi o Rogério Mendonça e depois passamos a nos reunir pra estudar. Foi assim que eu, o Rafael e todo mundo lá começou a aprender”, relata Carine.

Participantes do Dansal Nordeste

Em 2006, em Natal-RN, acontecia o I Dansal – Mostra Nordeste de Dança de Salão, que contou com a etapa nordeste do Brasil Salsa Open. Apesar de o evento apresentar aulas de ritmos variados, a salsa estava em seu ápice e aqueles que estiveram presentes relatam que ela era o carro chefe nos bailes da mostra. Na época, o Salsa Bar era o ponto de encontro dos apaixonados pelo ritmo em Natal. O bar, que já existia, não apenas mudou de nome para agradar o grande público que procurava o ritmo, como também contratou DJ, abriu espaço para os clientes dançarem e trouxe professores para aulões de salsa. Com o fechamento do bar por motivos administrativos, o público ficou órfão de um lugar para dançar e o ritmo foi perdendo espaço.

Bernardo Vieira Jr., o DJ Don Bernardo, acompanhou todo este processo em Natal, onde reside há 20 anos. Encantado com a salsa desde a adolescência, em 1998 ele lançou o site Salsa Brasil, voltado a divulgação da música. “De 1998 até hoje muita coisa mudou, os salseros estão mais conscientes do que dançam, as pessoas viajam mais ao exterior, frequentando não apenas congressos de dança, mas tendo contato direto com as grandes orquestras e os grandes cantores de Salsa”, comenta. Ele relata que, atualmente, as cinco maiores escolas de dança da cidade oferecem aulas do ritmo, embora a salsa seja pouco executada nos bailes, e destaca a realização do Salsa Astral, evento que acontece quinzenalmente, aos domingos, na praia de Ponta Negra, e que veio suprir a carência dos dançarinos de salsa.

Em Recife-PE, a Noite Cubana do Clube Bela Vista, regada a muita salsa, é uma tradição cultivada com paixão pelos moradores do bairro Beberibe. O baile foi destaque em matérias no programa Fantástico e na revista Veja, entre outros. Já no que se refere ao público das escolas de dança, nossos tricampeões estiveram na capital pernambucana por três vezes ministrando workshops. O mais recente foi no evento Pé na Salsa, organizado por França, um dos profissionais da região que vem trabalhando a divulgação do ritmo. Além de aulas e bailes, o evento apresentou também uma competição de salsa amadora. “Temos muitos profissionais no nordeste que, como eu, gostam da salsa e estão procurando trabalhar no sentido de reerguê-la. Acho que faltam mais eventos interessantes que possam fazer com que ela volte com toda força. Quando trazemos atrações fortes como os campeões, os alunos procuram porque querem saber como eles dançam”, diz França.

Rosaly Afonso e França, organizadores do evento em Recife.


A SALSA NO SUL

Gerson, Carine, Dana e Rafael. Os organizadores do evento com os Tricampeões Mundiais de Salsa.

A capital gaúcha é, sem dúvida, não apenas a grande representante da salsa no sul, mas um importante centro de divulgação do ritmo no país, contando com muitos profissionais engajados em sua difusão. O destaque entre os eventos da região é o Porto Alegre Salsa Congress, que realizou sua terceira edição neste ano. O evento tem como padrinhos os tricampeões mundiais Carine e Rafael e, atualmente, é o único exclusivamente de salsa realizado no Brasil. Dana Vargas, organizadora do congresso com o parceiro Gerson, conta que, ao lado de outros profissionais da região, desenvolveu um trabalho de divulgação da salsa em Porto Alegre cujos resultados puderam ser observados diretamente no número de participantes gaúchos no Congresso de Salsa de São Paulo. De uma participação tímida nas primeiras edições, em 2010 os gaúchos representaram a maior comitiva de fora do estado no evento. “Aqui quando toca salsa a pista é disputada, mas ainda assim já foi mais. Agora, estamos buscando novos salseros e eles ainda estão meio acanhados, mas é pra este público se soltar que servem os bailes internos de escolas”, comenta Dana.

Organizadores e campeões do 1º Campeonato de Salsa Amadora de Curitiba

Em Curitiba-PR, também com o objetivo de difundir a salsa entre o público e novamente com o apoio dos tricampeões, que já ministraram workshops na cidade, foi realizado em 2013 um concurso de salsa amadora. O evento foi organizado por Washington Passos e Carine Trombin. “Estamos batalhando para trazer o público dançante da cidade para a salsa, organizando bailes e eventos para quem quer se divertir com uma salsa mais descontraída. Atualmente, só temos uma casa noturna na cidade que oferece salsa, então nossa proposta é garantir um espaço pro pessoal que curte o ritmo poder dançar”, diz Washington.

Aula de Roda de Casino ministrada por Ed Charles no Baila Caliente, em Florianópolis.

Levantando a bandeira da salsa em Florianópolis-SC está o dançarino Ed Charles, que dirige o grupo Cia do Casino. Sobre a redução da procura pela salsa nos últimos anos, além do fator citado por todos os colegas das acrobacias no salão, ele também acredita que é preciso criar mais oportunidades para que as pessoas escutem salsa, já que nos bailes de dança de salão, em geral, ela não tem tido muito espaço. Neste sentido, em 2012, ele organizou com outros dois professores da região, Guilherme Rocha e Cacá Rogelin, o 1º Muevete, um domingo com workshops e baile de salsa para reunir professores e alunos que apreciam o ritmo. “Tem espaço pra todos os ritmos no Brasil, mas pra que a salsa volte a ter mais representatividade a gente tem que se unir, cada um respeitando a ideia do outro de como trabalhar, mas lutando pelo que a gente gosta, que é a salsa, e realizando bailes e eventos”, comenta Ed.
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La Salsa Vive!

Segundo muitos profissionais do meio, o público das danças de salão está passando por seu processo natural de renovação, com novos alunos chegando, o momento ideal para apresentar a salsa como a dança divertida e sensual que é.

“Perdemos espaço porque os profissionais de salsa foram incompetentes, ou menos competentes do que os de zouk pra captar o público novo. Não podemos cometer os mesmos erros, ou vamos perder este público também. Agora é hora de união e de parar com o discurso de que é uma dança difícil, só pra virtuoses. A salsa é pra todos”, afirma Ricardo Garcia.

“Seja com a roda de casino ou a salsa em linha, precisamos mostrar que a salsa é um ritmo gostoso e que eu não preciso dar 20 giros e fazer passos acrobáticos pra poder me divertir”, comenta Carine Morais.

“Vejo a salsa no Brasil em um momento de ressurgir. Espero que São Paulo volte a ter a força que teve em seu congresso. Mas é preciso fazer mais eventos, trazer mais gente de fora, como é o caso agora com a vinda do Ed Torres no Congresso de São Paulo. É um grande professor como ele que pode dar este alento que os salseros precisam, porque hoje parece que eles tem vergonha de dizer que são salseros”, diz o DJ Don Bernardo.

“A salsa é muito forte no mundo, então ela pode ter períodos de baixa, mas nunca vai morrer, porque estamos conectados com o mundo”, finaliza Douglas Mohmari.

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta, Leandro Grigoletti/Dança em Pauta, Daniela Pimazoni/Dança em Pauta, Coletivo Luna Fotografia e divulgação.

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

7 Comments

  1. Palavra “Salsa” não existe em Cuba
    E “Dança de Casino” com a mistura principalmente de 3 origines :
    – Son Cubano
    – Mambo Cubano
    – Chachacha Cubano (Cubanos são os inventores do Chachacha)
    As vez temos um pouco de Rumba Cubana dentro do Casino Cubano
    A mais recente forma do Casino Cubano e a Timba (LVV, Pupy, Charanga, Bamboleo,…)
    Casino Cubano tem 3 formas de se dançar :
    – Em casal
    – Em Rueda
    – Suelta (porque para dançar a dois primeiro temos que saber dançar suzinho…)
    Casino Cubano não tem que ser misturado ô confondido com dansa de salão porque não tem nada em commun
    Casino Cubano e baseado no ritmo clave de Son 2/3 principalemento de origino africano dansado em direção da terra
    Dansa de Salõe e mais da Europa voltado para o ceu na postura
    Desculpa eu para este Português approximativo, mais eu sou Frances tentendo dansar Casino Cubano aprendo com professionais Cubano e Africanos em Toulouse desde 2006

  2. Keyla Barros, está de parabéns texto maravilhoso falando da nossa paixão salsera , Creio que todos nós salseros do Brasil ao ler essa materia nos orgulhamos cada vez mais da salsa…Obrigado pela Pauta. 🙂 Os amigos de la salsa y La BAchata agradecem todas essas informações .

  3. Gênero muito gostoso de ser dançado e músicas muito legais para serem ouvidas. Excelente matéria da Keyla, parabéns….. Existem profissionais brasileiros do maior quilate dançando e ensinando os gêneros Latinos no Brasil, exemplos: Cia Conexion Caribe de SP, Jomar Mesquita Diretor da Cia. Mimulus de BH, e que foi a pessoa que trouxe a Roda de Casino para o Brasil, além de outros profissionais mais….

  4. Parabenizo a autora pela excelente matéria! Ter embasamento sobre aquilo que nos propomos a ensinar/divulgar é fundamental em qualquer área. Espero que os professores de todo o Brasil que se propõe a ensinar salsa tenham esta consciência pra que mais pessoas se sintam estimuladas a aprender esta dança. Fui um dos “iniciantes” que se “assustou” com a salsa, como o texto menciona. Só não desisti porque realmente era um ritmo que me agradava e fui buscar outras fontes que, felizmente, me revelaram esta “salsa gostosa” que os profissionais descrevem aqui.

  5. SENSACIONAL!! Muito bom saber que a Salsa que eu tanto amo dançar está espalhada por todo o Brasil! Sou de Curitiba e estou planejando uma viagem pra Natal no ano que vem. Com certeza, incluirei no meu roteiro um domingo no Salsa Astral pra conhecer os salseros nordestinos. Abre que Voy pq La Salsa Vive!

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