Colunas, Dança a dois em cena

Reflexões sobre a formação do bailarino e do coreógrafo de danças de salão

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Historicamente, as aulas de dança de salão sempre foram voltadas para alunos que buscavam o seu aprendizado com o intuito de praticar nos bailes, para o lazer. Também por este motivo, as aulas de danças de salão diferem em muitos aspectos quando as comparamos às aulas de outras modalidades de dança, principalmente aquelas que são consideradas danças cênicas por natureza, ou seja, onde o conhecimento é passado para o aluno já tendo como principal objetivo, o palco.

É muito recente a demanda de alunos interessados em aprender esta modalidade de dança para apresentar ou criar coreografias. Acredito que também advenha daí, a maneira como as coreografias baseadas nas danças de salão continuam sendo apresentadas, na maioria das vezes, em trabalhos de qualidade bastante duvidosa. Ou seja, os bailarinos nunca foram preparados para isso.

Ensinar, formar um bailarino, é muito diferente de formar dançarinos. Apesar dos sindicatos dos artistas, bem como a legislação definir de forma diferente, costumo chamar de dançarinos aqueles que praticam as danças de salão como lazer, nos bailes. E os bailarinos, aqueles com uma formação física e artística mais ampla, os capacitando a apresentar coreografias e espetáculos. Não significa que um seja melhor ou pior que o outro, são apenas diferentes nas suas habilidades.

A maior parte dos professores de dança de salão, em geral está preparada para formar dançarinos e não bailarinos. As diferenças aparecem principalmente em três aspectos: preparação física, preparação artística e disciplina.

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Mimulus Cia de Dança – espetáculo Pretérito Imperfeito | Fotos: Layza Vasconcelos/divulgação

Uma aula normal de dança de salão não dedica nenhum tempo para a preparação física. No entanto, aquele aluno que quer estar em um palco precisa (em maior ou menor grau) de força, flexibilidade e resistência. Uma aula de balé clássico, dança moderna ou contemporânea, por exemplo, é composta de exercícios que, de forma direta ou indireta, também preparam o indivíduo fisicamente para a sua prática. É muito recente o surgimento de propostas de trabalhos físicos específicos para os praticantes de danças de salão. Há cerca de 8 anos, desenvolvi, com o auxílio de Murilo Borges – professor da Mimulus Escola de Dança e bailarino da Mimulus Cia de Dança, formado em Educação Física – uma série de exercícios específicos para aulas de danças de salão que podem ser praticados a dois (sem o auxílio de nenhum equipamento) de modo a desenvolver as habilidades físicas, ao mesmo tempo em que o aluno pratica o equilíbrio, atenção e conexão com o par.

Conceitos como projeção de movimentos, direções em um palco italiano em relação à visão do público, bem como a interpretação, raramente são abordados por um professor de dança de salão. Quando o faz, é de maneira muito superficial. Muitas vezes não é culpa do profissional que ministra as aulas, já que o interesse da maioria dos alunos continua sendo o salão, o lazer.

O ambiente das aulas e bailes de danças de salão é mais descontraído, muito diferente da rigidez e disciplina encontradas, por exemplo, numa aula de balé clássico. Precisamos de alunos que fazem reverência de cabeça baixa, ao cruzar com o professor no corredor? Com certeza, não, melhor que não. Mas precisamos de alunos que entendam a importância de fazer “o plié nosso de cada dia” ou, melhor dizendo, “o puladinho nosso de cada dia”, ao invés de já querer fazer 15 variações do mesmo, após ter acabado de aprendê-lo, ou de achar que o aprendeu.

Tais reflexões são fruto do período atual em que todo o meio das danças de salão vive. Costumo dizer que estamos na adolescência. Ou seja, infelizmente, ou felizmente, ainda “estamos descobrindo o que queremos ser quando crescer”. O surgimento de escolas especializadas, nos moldes atuais, e da figura do professor de danças de salão, com uma formação profissional, são muito recentes historicamente. A profissionalização na nossa área iniciou-se há cerca de três décadas apenas. A transposição da linguagem coreográfica dos salões para os palcos, com um cunho artístico é ainda mais recente. Diante disto, vivemos um maravilhoso processo de experimentação, transformações e descobertas de qual é a melhor formação da qual um professor necessita. Qual a formação necessária para um coreógrafo de danças de salão? E para um bailarino?

Continuaremos nos considerando bailarinos preparados para o palco, somente por sermos excelentes dançarinos no salão? Pior ainda, continuaremos a nos considerar coreógrafos só porque sabemos criar bonitas sequências de movimentos?

Existe uma demanda crescente de alunos que buscam as aulas com outros objetivos, com o objetivo de estar no palco ou de criar para ele. Novos formatos de aulas precisam surgir e se consolidar. Esse é também o caminho fundamental para melhorarmos a qualidade do que é apresentado. E assim, também melhorar a imagem amadora que as danças de salão continuam tendo por parte dos profissionais de outras modalidades de dança.

Vamos?! Só precisamos ter o cuidado de preservar as tradições das danças de salão. Criar, inovar, porém preservando a essência, a base.

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Professor, coreógrafo e bailarino, dirige a Associação Cultural Mimulus, a Mimulus Cia. de Dança e a Mimulus Escola de Dança desde 1990, desenvolvendo extenso trabalho de pesquisa das danças a dois em seus países de origem. Criando uma linguagem própria e inovadora, que se renova a cada espetáculo, alcançou prêmios e críticas favoráveis em todo o mundo. Desenvolve também trabalhos como professor e coreógrafo de outros grupos profissionais de dança e teatro, destacando-se: São Paulo Companhia de Dança, Balé Teatro Castro Alves, G2 do Teatro Guaíra, Grupo Galpão, Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi, Cia. Burlantins, Cia. Sociedade Masculina e Cia. de Dança de Minas Gerais.

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