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Dança a dois: todos somos um

Ao formarmos uma parceria prazerosa pelo hábito intenso da dança, ocorre uma adaptação entre cavalheiro e dama que eleva a comunicação a um nível difícil de se obter de outra forma. Não é fácil perceber o que, neste processo, tomou um rumo fora da regra essencial da condução, assumindo um patamar diferenciado de comunicação. O fato é que funciona no sentido de gerar um prazer a mais para ambos, já que a definição do que ocorre torna-se mais compatível com a palavra sintonia do que com a palavra comunicação. Quando se faz uma troca de pares, a fluência pode não seguir o mesmo rumo, a leitura inicial exige mais atenção do que desfrute, mesmo que haja uma compatibilidade imediata. O exercício aquilata…

Parece-me que isto é visível até mesmo com parcerias de ponta. O caso de Carlitos Espinoza e Noelia Hurtado me atrai para esta exemplificação. Quando dançam juntos o resultado é um, extraordinário, único. Quando fazem trocas com outros parceiros, também de altíssimo nível, o resultado, comparativamente, deixa a desejar. Talvez isto não ocorra somente com a dança. Quando conhecemos bem uma pessoa, podemos entender o que pensa por um olhar, que para outro passa despercebido.

Estes dias vivi uma experiência tradicional, muito conhecida, experimentada, até banal, a troca de parcerias estabelecidas pelo hábito. O que me chamou a atenção desta vez foi a possibilidade de ler, em cada cavalheiro com quem dancei, a marca de sua parceira habitual. Observando a dança dos casais é possível notar determinados movimentos que são únicos da parceria, um detalhe na postura, uma forma de mover o pé, um toque diferente no abraço. Pequenos detalhes, que fazem uma dança exclusiva de determinada combinação de cavalheiro e dama. O interessante é que um acaba impregnando o outro com seu jeito particular, como se houvesse um tipo característico de incorporação de nosso par habitual em nossa dança. Foi isto que notei de forma mais intensa nesta experiência que, de tão banal, chegaria a ser tola se não a notássemos por outro ângulo.

Observei diversos perfis de pares estabelecidos pelo tempo. Então, nas trocas, veio o primeiro cavalheiro, me senti, em vários momentos, experimentando a movimentação que via em sua parceira, aquele toque típico dela, agora parecia quase conduzido. Na segunda troca, minha postura se alinha ao cavalheiro como a que noto em sua parceira. Algo como calçar um sapato que já tomou a forma de outro pé…

Quando nos habituamos a trocar sempre de pares, estes modos se incorporam a própria dança, homogeneizando-a, moldando-a, caracterizando-a de forma mais pasteurizada. O que é de uma dama, se distribui pelas outras não só pela via visual, mas, pelos cavalheiros que funcionam como vetores, e vice-versa. Isto faz uma dança inteira ser o que é, eventualmente, desenha sua técnica. Esta comunicação, esta passagem de informações, é poderosa o suficiente para construir uma dança e acredito que este trânsito de informações modele cada uma das Danças de Salão. Um par habitual por sua vez, que não faz trocas, acaba criando um universo próprio, uma dança única e assim, por seu isolamento, surge uma diversidade passível de ser copiada por outros de forma meramente visual, incorporando-se a partir daí à dança.

Seja como for, o que nós fazemos na pista de dança ao formarmos um par, momentâneo ou habitual, afeito ou não a trocas, e ao compartilharmos momentos com outros pares, tem uma grande força, a de desenhar este magnífico organismo vivo que é a Dança de Salão.

Pinturas: Sera M. Knight, Darlene Keefe e Leonid Afremov

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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