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Professor de dança é coreógrafo? Eis a questão!

Costumo abordar nesta coluna questões relacionadas ao universo do professor, alunos e aulas, porém, é sabido que, por mais que o profissional de dança de salão trabalhe para o ensino das situações de improviso, em inúmeras oportunidades existirá a necessidade do mesmo atuar coreografando, seja para festas de casamento e 15 anos, para apresentações dos alunos e grupos de dança ou ainda para coreografias próprias.

Junto com a indagação expressada no título, os fatores que me motivaram a abordar este assunto foram três: um livro que me foi dado e trata do estudo da composição coreográfica chamado “Culinária Coreográfica”, de Octávio Nassur; a percepção do crescimento do mercado de coreografias para casamentos e cerimônias; e por último a consolidação e maior representatividade da chamada Dança de Salão Contemporânea ou de Projeção.

A começar pela citação do livro de Nassur como motivador, ao lê-lo, o mesmo me fez pensar que é interessante para nós, profissionais de dança de salão, fazermos maior uso de referências bibliográficas para embasamento de nossas construções coreográficas. Ou mesmo, usar como fonte de inspiração e consulta algum período de observação, ou até convivência junto a profissionais mais experientes neste campo, com os quais tenhamos maior afinidade com o trabalho, contribuindo para que, futuramente, nos apropriemos de experiências e busquemos o desenvolvimento de técnicas e métodos coreográficos próprios e autorais.

A demanda que já existe de coreografias para casamentos e demais cerimônias, nos leva a outra questão. O desafio agora é relacionar às considerações e adaptações que serão feitas nas composições, a fim de premiar o objetivo de cada dança. Como o contexto do evento em que acontecerá a apresentação da coreografia, o espaço cênico e os executores serão muito variáveis, a maneira de propor a composição também será distinta. Caso isso não seja levado em conta, podemos ‘errar a mão’ na condução da proposta e, por exemplo, enfatizar muita técnica em detrimento a mise-en-scènes em uma coreografia mais informal, ou deixar de explorar possibilidades que uma apresentação em um palco normalmente proporciona (iluminação, entradas e saídas de cena, coxias etc.).

Cia de Dança Jaime Arôxa, do Rio de Janeiro-RJ/Foto: Fernando Moreira/Dança em Pauta

Como terceiro tópico motivador da condução da escrita deste artigo, nos deparamos com uma antiga discussão dentro da nossa área, que trata da dança de salão se apropriar de outras técnicas para se tornar mais interessante e rica artisticamente, buscando assim melhorar sua plasticidade e interpretação e adequar-se melhor a alguns espaços cênicos. Surge assim, há algum tempo, o termo ‘Dança de Salão Contemporânea’ ou de ‘Projeção’ (este último citado na publicação de Maristela Zamoner, Dança de Salão – Conceitos e definições fundamentais) classificando o trabalho de profissionais que já buscavam em suas composições, mesclas de estilos. Exemplo desse tipo de trabalho podem ser notados em Jaime Arôxa e sua companhia, em Jomar Mesquita com a Mimulus Cia de Dança e com o grupo Laços Dança de Salão Contemporânea, de Izabela Gavioli, que já trás em seu nome esta denominação de gênero.

Grupo Laços Dança de Salão Contemporânea, de Porto Alegre-RS/Foto: divulgação

Exemplificando o crescimento desta realidade, da dança de salão cada vez mais artística e cênica, ainda podemos citar o Prêmio Desterro de Florianópolis-SC um dos maiores festivais competitivos de dança do país, que já distingue para a apresentação dos trabalhos a Dança de Salão Clássica e a Contemporânea.

Os relatos acima demonstram uma tendência de amadurecimento do ato de coreografar em dança de salão e uma demanda crescente dentro de nossa modalidade, contudo um professor não necessariamente terá o conhecimento e ferramentas que um bom coreógrafo deveria ter. Esses papéis poderão naturalmente se mesclar, mas será preciso a busca por novos saberes, fazendo assim surgir dentro do professor esta nova figura que é a do coreógrafo.

Mimulus Cia de Dança, de Belo Horizonte-MG/Foto: Guto Muniz

Estes são apenas alguns tópicos levantados sobre um assunto bastante amplo e pesquisado, necessitando então, bem mais tempo e volume de escrita para analisarmos mais profundamente as questões pertinentes a coreografar em Dança de Salão. Então, como num Pas de Deux, peço que você se junte a mim, trazendo outros pontos para debatermos mais ainda o questionamento do título: professor de dança é coreógrafo?

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

4 Comments

  1. Prof. Cristovão, parabéns pelo artigo e obrigada pelo convite à discussão!
    É uma honra ver o Grupo LAÇOS – DANÇA DE SALÃO CONTEMPORÂNEA citado entre companhias que estão, certamente, em outro patamar de evolução: a Companhia de Jaime Arôxa, com sua orgânica elegância, e a mineira Mimulus, desbravadora de uma forma de expressão. São ícones para nós.
    Em 2004, quando apenas iniciava na dança de salão, durante um período de férias em Florianópolis, fiquei sabendo de um festival de dança, e fui assistir. Lá estava a Mimulus no Baila Floripa, com “De Carne e Sonho”. Até então, eu vinha de uma trajetória de 28 anos de dança, incorporando à dança clássica a dança contemporânea, a dança folclórica e a dança aérea circense, não apenas como vivência, mas como consistente soma de linguagens. A dança de salão no contexto social (de baile, de improviso) me parecia interessante e divertida. Mas quando levada aos palcos, deixava evidente uma carência de elementos e de trajetórias há muito já percorridas por outros estilos de dança. Por que não desfrutar de um conhecimento já disponível, deixando-se nutrir por outras formas de arte? Quando vi a Mimulus dançando tango ao som de Vivaldi, fiquei magnetizada! E estimulada! Ali estava o “pacote completo”! É possível! É encantador, é emocionante!
    A dança de salão contemporânea não é uma “invenção”. É, em nosso entendimento, a confluência de interesses artísticos inevitáveis. Estamos todos vivendo e presenciando uma era de hibridismo, de complementaridade, de busca incessante de soluções para os problemas e novas formas de expressão. É natural que surjam novas estéticas. Os criadores que tem algo a dizer inevitavelmente buscarão seus caminhos, tenha ele o nome que tiver.
    As nomenclaturas são simplesmente formas de unificação e entendimento. A dança de salão pode ser chamada “de projeção”, no sentido de incorporar elementos de maior desfrute ao espectador, e não apenas ao executante. E pode ser chamada “cênica”, no sentido de extrapolar o contexto social e ir ao ambiente da teatralidade, um “espaço outro” onde está previsto um momento de oferta de uma parte, e de contemplação de outra. Apresentar e assistir. Dar e receber. Ofertar e absorver.
    No caso do Grupo LAÇOS, escolhemos de forma muito consciente a designação “dança de salão contemporânea”, que abrange os conceitos acima, mas também características bem conhecidas da “dança contemporânea”. Há ainda muita discussão e pouca unanimidade acerca da definição de “dança contemporânea”, mas certamente ela envolve conceitos que nos interessam: busca o sentido do movimento, e não apenas a forma; aceita fusões e hibridismos; procura o movimento mais natural e orgânico, em detrimento de formas virtuosísticas inexpressivas; e aceita o virtuosismo, desde que contextualizado. E ainda, no caso do LAÇOS, a valorização do coletivo; o trabalho em grupo permite composições coreográficas muito mais ricas e traz o universo de cada individualidade a ser valorizado e a nutrir cada coreografia.
    Neste momento histórico, acredito que o termo “dança de salão contemporânea” tem um caráter também organizativo e de formação de público. À medida que refletimos sobre o que queremos dizer com estas “rotulagens”, somos estimulados a buscar nelas as nossas convicções. Isto é salutar para qualquer campo do conhecimento.
    Sobre o hibridismo, as “mesclas” ou “fusões” de técnicas e estilos, cabe lembrar que devem ser realizadas com absoluto respeito. “Misturar”, em dança contemporânea, não é ”fazer um pouco de tudo”, mas fazer muito de cada técnica, e após dominá-las, estudar seus pontos de trânsito e intersecção. Por isto não se pode “forjar” uma dança de salão contemporânea, e cada uma delas é diferente da outra; elas nascem das vivências de seus criadores. Podem demonstrar características em comum, mas não podem ser igualadas, comparadas ou copiadas. São únicas, como cada um de nós.
    Dentro deste raciocínio, torna-se bastante claro que muitos artistas da dança de salão já fazem o que chamamos agora de “dança de salão contemporânea”, mesmo que não a chamem assim. Seria injusto não lembrar a Companhia Aérea de Dança (RJ), de João Carlos Ramos, atuante desde 1990, com um trabalho extremamente autoral e carregado de autêntica brasilidade. Cito os grupos e artistas selecionados para a categoria “Dança de Salão Contemporânea” no Prêmio Desterro 2013, do qual tivemos a honra de também participar: Cia. Nando Berto, Ritmo Grupo de Dança, Cenarium Escola de Dança, Ilha da Dança, Bi Almeida Cia. De Dança (Florianópolis – SC); Sem Estrutura Grupo de Dança (Campo Grande – MS); Anderson e Brenda e Effect Dance (São Bernardo do Campo e São Paulo – SP). E, em nossa cidade e estado (Porto Alegre- RS), como não citar o belíssimo trabalho de Giovanni Vergo e suas parceiras Paola Vasconcelos e Tauani Aquino? Do belo par Roberta Pacheco e Rafinha Pabst? Dos grupos das Escolas Oito Tempos?… Há muito acontecendo em dança de salão contemporânea. Estarei sendo injusta, sim, ao não citar os tantos trabalhos que não conheço, e que estão florescendo Brasil afora.
    Vamos encontrar a nossa forma de expressão e inventar a dança da nossa verdade. O que importa é o estudo, a imersão, o respeito ao público e aos que vieram antes. O nome não importa.
    Saudações!

  2. Cristovão!
    Tema bem interessante mesmo. Dar aulas e coreografar tem profundidades no meu ver distintas pelo fato de que as ferramentas para coreografar fogem do convencional que é ensinar, apesar de que ensinar também pode muitas vezes fugir do convencional para agradar o aluno. Eu acho que coreografar pode ser um passo evolutivo do professor, pois o universo particular de um aluno, de uma turma, de um grupo, passa a ser exposto a expectadores e nesse ponto, além da necessidade de ser algo atrativo aos olhos, o professor deve saber explorar as limitações em favor dos alunos. Eu achei uma rica experiência e um teste de criatividade e notei que os alunos aumentam o respeito que tem de seus professores após um periodo de ensaios e apresentação! Forte abraço mestre!

  3. Grande Cristóvao… Forte abraço, parabéns pelo artigo, quando vejo pelo facebook acompanho, é bom refletir, seria bom dialogar mais sobre…

    Bom… para mim, em minha humilde opinião e em meu simples diálogo com a dança de salão expresso aqui o que penso, estudo… enfim… mas é só um diálogo, uma catarse interna… sem tempo ou vontade de querer parar para e corrigir enquanto escrevo, pensamentos… 🙂

    A priori, tudo isso que você citou e refletiu pode e ao mesmo talvez não tenha a ver, deveria, mas no fundo talvez não seja a questão, mas é uma boa reflexão como todas…

    Ao mesmo tempo dar aula e levar a dança ao palco tem a ver, mas a falta de ferramentas e entendimento nos leva a crer que não… Estar a mercê da opinião de poucos, por exemplo em festivais, nos leva a manter e estereotipar e tradicionalizar uma linguagem que poderia ser tão rica… se a dança de salão fosse um alfabeto, o que se tem hoje representaria no máximo somente a letra “c”… só o “c” poderia ser “C, ¢, ç, CC, etc…”, mas nem mesmo se enxerga o resto, fora as letras que nem estão no alfabeto…

    Talvez quem trabalhe com essa dança em geral tenha deixado de buscar o estudo da dança de salão como a dois, ou como salão, ou seus estilos, ou quando se sai deles, enfim, buscou outras coisas, estudar outros estilos, as vezes até incompatíveis como ballet (e como explicar que o ballet pode ser incompatível com um corpo a dois?!), mas é só um diálogo, sempre são poucos à influenciar e sempre tem a moda para influenciar a grande massa, sempre se é lenta qualquer mudança, e muito pequeno qualquer real, se real, entendimento… talvez a sensação de que a dança de salão não era suficiente por si só talvez criara estas questões levantadas, assim como rótulos, estilos… mas não, isso não é, ou pelo menos não pode ser, motivo e referência para se definir clássico ou contemporâneo, aula ou palco, e talvez seja até uma atitude bem clássica e antiga na humanidade…

    … Contemporâneo para mim também tem a ver à quando se reflete, se questiona, quando se cresce, “simmmmm”, referências e pesquisas em cima de um trabalho tornam este uma busca mais contemporânea, traz diálogo, mas não, isso não tem a ver com clássico ou contemporâneo ou moderno, aula ou palco… muito menos trocar a música, fazer passos e estruturas, ficar descalço, enquadrar em linhas mais retas ou liberais, etc… isso não faz de uma dança uma reflexão contemporânea… quem sabe a dança de salão não esqueceu apenas de se tornar moderna para se enquadrar esses pontos, e no fundo como tudo só quer pular etapas…

    Para mim há um erro ao tratar a dança de salão clássica como contemporânea, moderna ou de projeção, só porque um mesmo bailarino (que talvez não devesse se intitular assim), com seu mesmo corpo (que nem é da dança de salão ou seu mesmo), com os mesmo movimentos (que nem são de seu próprio corpo ou de sua verdade e vontade), passou a dançar descalço e misturar estilos, ou pela falta de ajuda ou visão ou percepção deixou de buscar o estudo da dança a dois ou de salão para estudar outros estilos, se tornando distante de entender até mesmo as mais simples e antigas reflexões, como eu, o outro, o a dois…

    Dividir a dança de salão no fundo é fechar a mente à evolução humana, do universo, tendência humana clássica e dominante, necessidade completamente desnecessária… é abrir portas para a preguiça com relação à mudanças, querer achar um fim e um ponto final, sem nunca ter desfrutado um meio, o meio…
    A dança de salão nunca desfrutou o meio… é aí que para mim nasce a dança de salão contemporânea se assim quiserem chama-la, mas que bom se isso só em um dia bem longínquo… ela ainda precisa passar de seus primeiros segundos de nascimento… triste quando vemos que ela é tratada como algo tão grande e que ainda precisa ser dividida se nem nasceu, e dividida por que precisa ir para o palco ou para o salão ou para onde quiser, mas não seria essa a questão… em um universo de bilhões e bilhões de anos, alguns segundos existências tornam essa questão tão ampla e tão aberta, mas no fundo é sempre mais rico e da mais dinheiro e poder dizer que já está pronto… massss, porque se dança a dois, o que se dança a dois, porque os mesmos caminhos para corpos infinitamente diferentes, porque o domínio masculino, porque técnica, porque passos, regras, isso não é refletido e isso pode levar uma mesma dança para a aula e para o palco…

    A dança de salão ir para o palco tem a ver com se estudar ela e querer passar algo através dela, sentir o universo através dela, ou pelo menos poderia ser assim… é onde há, no meu ver, dificuldade entre professor e coreógrafo, mas no fundo uma dificuldade que é oriunda de um vazio como qualquer outro vazio humano, uma dança sem pesquisa ou referência que por outros busca o igual, baseada no corpo do outro e na busca de padrão, estereótipo, gesto mecânico, estético e técnico, que não desfruta o meio e ao ir para o palco torna o bailarino incapaz ao ver do público e de si mesmo… mas não é só pelo passo, mas é isso que ele faz, talvez o problema seja o dia a dia de sua relação que deveria ser contemporânea consigo, seu aluno e seu público… e não o fato de ir para o palco, e muito longe mesmo o fato de precisar de outros estilos para tapar um furo que está dentro de cada um, no fundo, e não é o fim, mas é livre, ou deveria, e poderia ser um dia dança de salão simples e pura, e recheada de influencias, mas não de estilos…

    Um forte abraço, boa reflexão a todos nós…
    Quem sabe possamos nos ver na estreia do espetáculo da nossa Cia Grão, dia 16 de março em Florianópolis-SC… e continuar o papo!

    Rodolfo Lorandi

    https://www.facebook.com/CiaGrao
    https://www.facebook.com/claudiaerodolfo

  4. Muito bem abordada sua pesquisa, é um conceito fundamental para os profissionais em Dança entenderem essa diferença, e tentar buscar um maior aprimoramento para sua real função e habilidade.

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