Colunas, Dança a dois em cena

Princípios Estéticos na Criação de uma Coreografia

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Vamos fazer uma experiência?

Pense qual é a camisa mais bonita que você tem no armário. Esquecendo a escolha anterior, pegue a calça que você mais goste. Em seguida, também de forma independente, busque aquele par de meias que você considere mais interessante. E por último, o par de sapatos mais impactante. Agora vista tudo junto e verifique o resultado no espelho. Muito provavelmente não foi nada bom. Ou, melhor dizendo, as chances da combinação não ter ficado harmônica são muito grandes.

Coreografia +Cenografia +Iluminação +Trilha Sonora +Figurino =Espetáculo

Quando criamos uma coreografia, é importante pensarmos em harmonia desde a montagem de pequenas sequências de movimentos, até o espetáculo como um todo, incluindo todas as vozes que o compõem: figurino, cenografia, iluminação, trilha sonora e coreografia. Em outras palavras, a receita para uma boa criação não é buscar a música mais bonita, juntar os passos de dança mais “legais” que você descobriu no Youtube, vestir o melhor figurino, utilizar aquele efeito de luz mais impactante e ainda somar a isto um cenário ou elementos cênicos surpreendentes. O resultado provavelmente será desastroso, assim como pequenos desastres são cometidos em menor escala, por exemplo, ao não se harmonizar a interpretação com a coreografia, ou a coreografia com o tema proposto.

A harmonia é apenas um dos chamados princípios estéticos, que são utilizados para analisar uma obra de arte, seja ela uma pintura, fotografia, música, espetáculo teatral, obra arquitetônica ou, claro, uma coreografia de dança.

Um coreógrafo deve ter em conta tais princípios todo o tempo durante a criação. Pode utilizá-los ou não na sua composição, mas de forma consciente. São eles:

  • Unidade
  • Variedade
  • Repetição
  • Contraste
  • Transições
  • Sequência > Ritmo
  • Clímax
  • Proporção
  • Equilíbrio (X Tensão)
  • Harmonia

Que tal assistir um espetáculo de dança ou mesmo uma coreografia curta e identificar onde cada um desses princípios estão ou não presentes?

Vamos a alguns exemplos. Até hoje, faz-se a confusão entre o que é uma colagem de números de danças de salão e um espetáculo de danças de salão. De maneira bem básica, o que vai diferenciar um do outro são os princípios da unidade e das transições.

E aquele coreógrafo que busca sempre passos diferentes ao criar o seu trabalho, não podendo nunca repetir um movimento? Com certeza você conhece algum. Ou você mesmo é daqueles que se sentem “pouco criativos” quando repetem um “passo”? Então façamos uma analogia com a escrita de um texto, uma redação nos moldes das que aprendemos no colégio. Nos é dado um tema e devemos dissertar sobre o mesmo. Ora, é óbvio que existirão palavras chave, totalmente relacionadas ao tema central, que se repetirão várias vezes ao longo do texto. Não somente as mesmas palavras, como também muitos sinônimos delas. Afinal, é daquele assunto que estaremos falando. As formas como abordaremos o tema irão variar, mas a repetição de palavras ou sinônimos estarão sempre presentes. Estão aí os princípios da variedade e da repetição.

Numa coreografia é igual, existem movimentos que expressam o que queremos “dizer”, o tema do qual estamos “falando”. Ainda que na dança a compreensão por parte do público não se dará de forma racional, mas sim sensorial, temos que lembrar que algo está sendo “dito”. Portanto a repetição de alguns movimentos principais, bem como variações dos mesmos, são elementos importantes na composição.

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Mimulus Cia de Dança – espetáculo Dolores | Foto: Daniel Tortora/Dança em Pauta

Um criador deve ter em conta e sob seu controle, o ritmo do resultado final do seu trabalho. Num nível micro, ou seja, o ritmo de pequenas sequências coreográficas, bem como o ritmo do espetáculo, num nível macro. A não ser que o seu objetivo seja testar o quanto o sono do seu espectador resiste à monotonia de uma coreografia, é importante saber lidar de forma inteligente com suas diferentes emoções. Há o momento para fazer o público rir, contemplar, deixá-lo quase entediado para então surpreendê-lo com algo impactante; criar pontos de tensão que irão se resolver em diferentes emoções, sejam estas agradáveis, tristes, inquietantes, fazê-lo chorar… Enfim, normalmente um bom espetáculo deve ser como um gráfico cheio de altos e baixos. Como um eletrocardiograma de uma pessoa nada saudável, com taquicardias, paradas cardíacas, mas também momentos de normalidade.

Vocês percebem quão rico pode ser analisar ou criar uma coreografia sob a ótica desses princípios estéticos? Conseguem fazer o exercício de descobrir de que outras formas os mesmos princípios ou outros que não chegamos a exemplificar estão presentes numa coreografia?

O contraste, por exemplo, eu consideraria um dos mais importantes. Trataremos dele em um dos próximos artigos.

* Fica a dica para assistir a 2ª temporada da série “Coreografia, o desenho da dança no Brasil”, no Canal Arte 1. Mais informações, na matéria aqui no Dança em Pauta:
Estreia da 2ª temporada da série “Coreografia, o desenho da dança no Brasil”, no Canal Arte1

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Professor, coreógrafo e bailarino, dirige a Associação Cultural Mimulus, a Mimulus Cia. de Dança e a Mimulus Escola de Dança desde 1990, desenvolvendo extenso trabalho de pesquisa das danças a dois em seus países de origem. Criando uma linguagem própria e inovadora, que se renova a cada espetáculo, alcançou prêmios e críticas favoráveis em todo o mundo. Desenvolve também trabalhos como professor e coreógrafo de outros grupos profissionais de dança e teatro, destacando-se: São Paulo Companhia de Dança, Balé Teatro Castro Alves, G2 do Teatro Guaíra, Grupo Galpão, Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi, Cia. Burlantins, Cia. Sociedade Masculina e Cia. de Dança de Minas Gerais.

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