Colunas, Dança & Saúde

Prepare-se para o verão dançando a dois!

O calor se aproxima e é comum ouvirmos as pessoas dizerem que pretendem “entrar em forma para o verão”. Ainda que o nosso país de dimensões continentais exiba vários climas e, em algumas regiões, a exposição corporal seja permanente, sempre há uma expectativa de “preparar o corpo” para a estação quente. E a dança de salão está cada vez mais convidada a participar deste processo, aumentando a auto-estima do aluno, trabalhando valências físicas e gastando calorias.

Então, aí vão os “10 mandamentos da dança de salão para o verão”:

1. OLHAR-SE NO ESPELHO: Aproveite a aula de dança para observar sua imagem ao espelho. Não como um comportamento narcisista, mas para, com tranquilidade e clareza, construir uma imagem realista e atual sobre si mesmo, e ver o que pode ser corrigido. Vários estudos na área do comportamento humano demonstram que, ao executar uma atividade que propicie ao indivíduo olhar sua própria imagem refletida no espelho, ele tende a aprimorar a auto-imagem. Pessoas não habituadas a enxergarem-se refletidas de corpo inteiro acabam negligenciando a imagem corporal ou não se conscientizando do quanto podem estar mudando dia a dia. A dança de salão, assim como outras modalidades de dança praticadas em salas espelhadas, serve para fornecer não apenas referenciais técnicos, mas também corporais ao aluno. Percebendo sua imagem, ele decide se gosta ou não gosta do que vê, e pode agir para modificar o que deseja.

2. AUMENTAR O GASTO CALÓRICO: A energia gasta em cada atividade depende do quanto conseguimos aumentar a frequência cardíaca na execução das mesmas. Isto está relacionado ao condicionamento físico de cada indivíduo. Pessoas bem treinadas atingem frequências cardíacas mais altas mais rapidamente, e conseguem mantê-la por mais tempo durante o exercício. Por isto é tão importante complementar o programa de aulas de dança de salão com outro exercício “aeróbico”, que tenha como principal objetivo acelerar os batimentos cardíacos e que seja mantido por 20 a 60 minutos, aproximadamente. Não devemos esquecer que para não ser considerado sedentário, hoje em dia, deve-se praticar exercícios físicos pelo menos 5 dias por semana. Então, se o aluno frequenta as aulas de dança de salão 2 ou 3 vezes por semana, deve complementar o programa com caminhadas, corrida, natação, hidroginástica, etc. Enfim, botar o coração para trabalhar!

3. DIMINUIR O CONSUMO CALÓRICO: De nada adianta otimizarmos nosso programa de “gasto de combustível” se continuamos “enchendo o tanque” mais que o necessário. O gasto energético, alavancado pela vontade de melhorar a auto-imagem, deve ser acrescido de uma reeducação alimentar. Nada de dietas radicais nem perda rápida de peso, pois desta forma, antes do outono chegar, o peso perdido terá sido recuperado. Para ganhar saúde, pense em todos os verões, e não apenas no próximo. Mude de uma vez os hábitos que estão errados.

4. MÚSCULOS AJUDAM: O tecido muscular é um material muito “caro” à bioquímica do nosso organismo, é como um carro que gasta muito combustível. Por isto é importante melhorar também nossa massa magra, o tecido muscular que está à nossa disposição. Mesmo parado, o músculo gasta mais energia que outros tecidos corporais para manter-se vivo, o que por si só já facilita o controle do peso. Além deste convincente motivo, a dança de salão ainda exige uma boa musculatura em várias regiões do corpo: ombros, peitoral e dorsal para um bom abraço, abdome e eretores da espinha para uma boa postura, coxas para proteção dos joelhos, panturrilhas e glúteos para aguentar o salto alto. Tudo deve estar fortalecido para se dançar bem. As modalidades de musculação, pilates, gyrotonic ou treinamento funcional são ótimas sugestões como método complementar.

5. ESCOLHER O RITMO CERTO PARA O SEU OBJETIVO: Se a sua meta é apenas se divertir e sociabilizar, qualquer ritmo está valendo. Porém, se pretende perder peso, os ritmos mais acelerados, que movimentam mais segmentos corporais, obrigarão o seu corpo a um maior gasto calórico. A salsa e o zouk, por exemplo, trabalham com o abraço aberto e movimentam bastante braços, pernas e tronco, assim, terão um gasto energético alto. O bolero ou o tango, que mantém os braços pouco móveis no abraço e geralmente são dançados ao som de músicas mais lentas, acelerarão menos a frequência cardíaca e terão um gasto energético menor. Vale lembrar que qualquer ritmo executado em nível avançado, ou com intuito profissional (em apresentações, com grande carga de ensaio) terá um gasto energético maior.

6. ESCOLHER O RITMO CERTO PARA A SUA PERSONALIDADE: combinar o exercício pretendido com nossa personalidade é fundamental, uma vez que uma atividade que não gostamos não terá continuidade. E a chave para o sucesso em qualquer modalidade de atividade física é a regularidade e a repetição. Valências como fôlego (condicionamento cardiorrespiratório) e força resistente só são atingidas e melhoradas com grande constância às aulas. De nada adianta escolhermos uma academia ótima, ou estarmos matriculados em uma escola maravilhosa se o conteúdo da aula não nos agrada. Será motivo para faltar muito. Por isto evitamos considerar um esporte ou um ritmo mais “perfeito” que outro, cada modalidade pode ser “perfeita” para algumas pessoas, e não para outras. Ritmos como o soltinho, o forró, o samba e a salsa tem marcado caráter lúdico e ótimo estímulo cardiovascular. Já o bolero, o tango e alguns estilos de zouk podem ser mais introspectivos, favorecendo a concentração e dando maior tempo à execução correta dos movimentos.

7. NÃO CONFUNDIR AUTO-ESTIMA COM CONFORMISMO: muito se fala em aceitarmo-nos como somos, com a imagem real de nossos corpos e sem exigências estéticas absurdas. É um pensamento muito adequado para evitar darmos atenção exagerada a metas irreais. Contudo, nesta esteira, vem um grande número de praticantes que apresentam fatores de risco para várias doenças graves e mesmo assim estão “se gostando”. Por exemplo, pessoas que estão acima do peso ideal sofrem grande risco de doenças cardiovasculares, diabetes e vários tipos de tumores. Elas podem, sim, ter prazer em dançar, mas devem ser estimuladas por seus orientadores a buscar um estilo de vida mais saudável e reduzir seus fatores de risco.

8. TER PACIÊNCIA PARA ALCANÇAR OS OBJETIVOS: as metas alcançadas mais lentamente são as mais fundamentadas e as que têm mais chance de manter os resultados. Isto é especialmente verdade quando se trata de emagrecimento. Emagrecer rápido (“para o verão”) fará com que o organismo entenda esta mudança brusca como uma agressão ou um período de privação, e tente “se defender” metabolicamente. Assim, ao retornar para o padrão anterior de alimentação, os quilos perdidos (e até outros mais!) serão recuperados rapidamente. Tenha paciência e lembre-se de que, se seus hábitos estavam errados há muitos anos, não é justo exigir de seu organismo que ele se corrija em poucas semanas. Mude suas convicções e aguarde, os resultados aparecerão quando seu corpo também estiver convicto.

9. TER PACIÊNCIA PARA MANTER OS OBJETIVOS: Uma vez alcançado um objetivo dietético, como perder peso, nosso aparato bioquímico leva cerca de 10 a 18 meses para entender que aquele é seu novo padrão de funcionamento, e não apenas um período de privação. Use e abuse da dança neste período; ela servirá para confirmar o quanto valeu a pena o esforço e estimulá-lo a persistir nos bons hábitos. Você será um parceiro mais ágil e provavelmente sua técnica de dança melhorará. Suas articulações e coração agradecerão, e ganhará muitos elogios, o que, sejamos francos, é muito importante para seres sociais e gregários como nós, humanos!

10. NADA DE DEIXAR PARA A ÚLTIMA HORA! Pois bem, agora esqueça esta história de “se preparar para o verão” e entenda sua saúde como um patrimônio permanente! Certo, use o verão como motivação, mas entenda que esta montanha-russa metabólica deixa sua bioquímica totalmente confusa. Nem você atinge os resultados estéticos que pretende, nem sua saúde está protegida. Costumo dizer que quem começar a “se preparar para o verão” agora, “estará pronto” para o verão de 2021! Brincadeiras à parte, conscientize-se de que seu corpo não tira férias, não conhece festa, nem usa calendário de folhinha. Ele tem um ritmo próprio e não espera as vontades do seu intelecto. A cada dia perdido no cuidado à saúde os danos se acumulam, mesmo que não estejamos vendo. O preço, muitas vezes, é pago anos depois. Então, que tal começar a dançar e não parar nunca mais? Aí sim, os resultados a colher serão anos de saúde, alegria e diversão!

 

Veja também:
Fugir do sedentarismo, emagrecer ou aprender a dançar?


LEITURAS RECOMENDADAS:

  • AKTAS, G; OGCE, F. Dance as a therapy for cancer prevention. Asian Pacific Journal for Cancer Prevention; 6(3); 408-11, jul-sep 2005.
  • BECK, J; PEREIRA, M.O. The Beck diet solution: train your brain to think like a thin person. Rev Psiquiatr RS; 30 (2); 159-160, 2008.
  • BETONI, F, et al. Avaliação de utilização de dietas da moda por pacientes de um ambulatório de especialidades em nutrição e suas implicações no metabolismo. ConScientiae Saúde; 9 (3), 2010.
  • MULKENS, S; JANSEN, A. Mirror gazing increases attractiveness in satisfied, but not in dissatisfied women: a model for body dysmorphic disorder? J Behav Ther Exp Psychiatry; 40(2): 211-8, 2009 Jun.
  • MURROCK, C. G.; HIGGINS, P. A.; KILLION, C. Dance and peer support to improve diabetes outcomes in African American women. Diabetes Educ; 35(6); 995-1003, nov-dec 2009.
Previous ArticleNext Article
Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

2 Comments

  1. Matéria super importante, pois na maioria das vezes as pessoas querem chegar a um objetivo, para ontem…vamos repassar aos nossos alunos…abraços dançantessss

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *