Colunas, Dança & Saúde

Preparação física para dança de salão

Dançar é mesmo uma delícia! Seja qual for o motivo – poder sentir os benefícios de mover o corpo, o prazer de expressar-se pelo movimento, ou ter a dança como profissão – é indiscutível a satisfação que o ato de dançar nos proporciona. Mas será que o que treinamos em aulas ou ensaios é suficiente para nos aparelhar com todos os elementos que uma boa dança deve ter?

Dançar deve ser, em primeiro lugar, seguro. Para aqueles que aderem à dança como exercício físico, não seria nada bom se desenvolvessem lesões justamente na procura da saúde. Em segundo lugar, dançar deve ser um ato qualificado. Para os que elegem a dança como profissão, seja como professores ou como artistas, há uma responsabilidade ética de respeito ao aluno ou ao público. O aluno merece um bom referencial e o público merece o refinamento do artista, com movimentos corretos e harmônicos. E por fim, dançar deve ser para sempre! Os modernos conceitos em Medicina Esportiva e em Medicina da Dança incluem a longevidade artística do praticante, do artista e do professor. Isto significa usufruir dos benefícios da técnica, mas também saber proteger-se das lesões que decorrem da prática a longo prazo.

É aí que entra a preparação física: preparar o corpo para as exigências da dança. Sejamos bastante claros: apesar de todas as vantagens e prazeres da prática da dança, ela está longe de ser uma atividade completa. Por “completa” entenda-se uma atividade capaz de trabalhar todas as valências físicas de forma equilibrada e suficiente: capacidade aeróbica (“fôlego”), força (em suas diversas potências) e flexibilidade. Aliás, há muito já caiu por terra o mito do “esporte mais completo” ou “mais perfeito”; não há atividade alguma que consiga proporcionar tão variado estímulo e melhorar tantas valências físicas, e ainda prevenir as lesões próprias da modalidade. Ao optar por um tipo de exercício, deveríamos sempre buscar complementar as capacidades que ele, por si, não enfatiza.

Com a dança de salão não é diferente. Você já se perguntou como fica o alinhamento da sua coluna após dançar todo o baile na assimétrica posição do abraço social? E as panturrilhas das mulheres, que dançam por horas em saltos altos, sobrecarregando também a região lombar? E a coluna, após uma aula de zouk, com inúmeros “cambrés” (movimentos de extensão do eixo)? Pois bem: a resposta a estas perguntas envolve um tipo de trabalho físico não oferecido pela técnica da dança de salão. A dança de salão não se propõe a trabalhar, por exemplo, a simetria dos membros superiores, o alongamento das panturrilhas, nem o reforço abdominal, mas com absoluta certeza necessita destas capacidades para um movimento mais seguro e belo.

A dança clássica há muito já abordou esta questão. Há algumas décadas já se havia percebido que o estímulo oferecido ao fôlego nas aulas de balé clássico era muito menor que o exigido durante um espetáculo. Enquanto, nas aulas, o ritmo era lento e os exercícios intercalados com várias pausas, no espetáculo as músicas eram vibrantes, rápidas e contínuas. Não seria injusto exigir do bailarino uma valência para a qual não o preparamos?

Desde então, começou-se a identificar exercícios e técnicas que poderiam contribuir para que um bailarino dançasse melhor, evitasse lesões ou se recuperasse mais brevemente. Inúmeras técnicas como o Pilates, o Gyrotonic, a natação, a hidroterapia, a cinesioterapia, o Isostretching, a musculação, a corrida, as técnicas acrobáticas e tantas outras, têm sido incorporadas ao treinamento do bailarino. Elas estão presentes na rotina da maioria das companhias profissionais, seja qual for o estilo de dança.

Atividades como Natação, Gyrotonic, Pilates e Corrida são alternativas na preparação física para dança.

Logo abaixo estão algumas sugestões de preparação física em situações específicas da dança de salão:

  • Para os alunos iniciantes, que antes estavam sedentários e iniciaram a dança de salão por recomendação médica: lembre que aulas 2 ou 3 vezes por semana não são suficientes para não considerá-lo sedentário. As aulas de dança de salão deverão ser complementadas por atividades de estímulo aeróbico mais intenso, como caminhadas aceleradas, natação ou até corridas. Uma atividade de reforço muscular, como musculação ou Pilates, também seria recomendada. Converse com seu médico (clínico ou do esporte) e, em conjunto com o educador físico ou o fisioterapeuta, discutam um programa que seja adequado para você.
  • Para professores de dança de salão, com jornadas de trabalho contínuas de várias horas: é bastante comum haver horários ociosos de dia, e uma intensa atividade em horários concentrados, como à noite, período em que as aulas são mais procuradas. Um erro frequente é julgar que, pela atribulação da agenda, você também está se exercitando. Dar aulas não é o mesmo que exercitar o seu próprio corpo. Procure uma atividade complementar de reforço muscular, com bastante ênfase em alinhamento postural, e alongue-se sempre. Procure alguém para lhe supervisionar, não faça aula com você mesmo. Permita-se ser observado, corrigido, e desenvolver novas habilidades. Não esqueça como é importante manter-se com uma figura saudável; querendo ou não, você é um referencial de arte e de saúde para seus alunos.
  • Para profissionais de dança de salão cênica, que fazem shows, espetáculos e participam de competições: a preparação física é mandatória. A única forma de refinar sua dança, de melhorar aceleradamente a técnica e de não lesionar-se nas intensas jornadas de ensaios é fazendo preparação física. Não basta apenas coreografar e ensaiar: você precisará, por exemplo, correr, nadar, fazer musculação, treinamento funcional, Pilates, etc. É claro que pode-se optar por não fazer, mas os resultados são visíveis no corpo após algum tempo: a técnica que parece “estacionar”, os ombros que sobem quando outra parte do corpo precisa fazer força e está fraca, as dores localizadas, as tendinites, as lesões que não curam. Mesmo que um bailarino tenha “aptidões naturais” muito marcantes, evoluirá muito mais se fizer preparação física do que se continuar sempre executando os mesmos passos na sua zona de conforto. Além disto, algumas habilidades recrutadas para o trabalho cênico da dança de salão, como as portagens (“pegadas”), devem ser necessariamente suportadas por um trabalho de reforço muscular, pois não tem embasamento técnico na dança de salão e não são trabalhadas em suas aulas.

Estas sugestões não tem a pretensão de esgotar o assunto, até porque cada ritmo tem suas particularidades, e cada bailarino pode necessitar técnicas específicas, de acordo com suas condições prévias, biotipo, etc. Queremos apenas chamar a atenção para este “capricho”, este refinamento de trabalho físico que seu corpo merece, seja você um apreciador boêmio da dança de salão, um atarefado professor ou um profissional de competições. Dance mais, dance melhor, dance para sempre!

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta, Arquivo pessoal Izabela Gavioli e divulgação

LEITURA RECOMENDADA:

  • Abrão, E As relações entre arte e tecnologia: a dança híbrida do Cena 11. Pensar a Prática, v. 10, n. 2, 2007. Disponível em: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fef/article/view/1108/1670
  • Carroll TJ; Riek S; Carson RG Neural adaptations to resistance training: implications for movement control. Sports Med; 31(12): 829-40, 2001.
  • Ferraz, OL; Nunomura, M; Mattos, E; Teixeira, LR Pedagogia do movimento humano: pesquisa do ensino e da preparação profissional. Rev. paul. educ. fís; 18(n.esp): 111-122, ago. 2004.
  • Kawamori N; Haff GG The optimal training load for the development of muscular power. J Strength Cond Res; 18(3): 675-84, 2004 Aug.
  • Leal, MA Preparação física na dança, Rio de Janeiro, Sprint, 1998.
  • Nagrin, D How to Dance Forever; surviving against the odds. New York, Quill-William Morrow, 1988, 280 p.
  • Shell, CG The Dancer as Athlete; the 1984 Olympic Scientific Congress Proceedings. Champaign, IL, Human Kinetics, 1986, 237 p.
  • Tourinho, LL; Silva, EL Estudo do movimento e a preparação técnica e artística do intérprete de dança contemporânea. Artefilosofia, Ouro Preto, n.1, p. 125-133, julho 2006. Disponível em: http://www.raf.ifac.ufop.br/pdf/artefilosofia_01/artefilosofia_01_03_teatro_03_ligia_losada_tourinho.pdf
  • Valdées C, Hiram M Treinamento desportivo e psicologia do esporte/ Sports training and sports psychology Rev. bras. ciênc. mov; 8(4): 37-44, set. 2000.
  • Watkins, A; Clarkson, PM Dancing Longer Dancing Stronger; A Dancer’s Guide to Improving Technique and Preventing Injury. Princeton Book Company, 1994, 296 p.

 

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

5 Comments

  1. Olá, Ana Carla; que bom que você gostou da Dança Em Pauta (site do qual sou apenas colaboradora).
    As aulas de dança para adultos iniciantes não são novidade, mas nos últimos anos tem sido mais procuradas, muito em função da difusão da dança como exercício, da maior divulgação desta arte, e da procura de uma alternativa às formas convencionais de condicionamento. Hoje há uma demanda por divertir-se durante o exercício, e não apenas mover-se. O desenvolvimento da andragogia (ciência que estuda o processo de aprendizado nos adultos) também fez com que as aulas para adultos se tornassem bem mais do que uma simples adaptações das aulas juvenis. É importante saber se seu professor está sensibilizado para este tipo de público e se tem formação para ensinar dança (licenciatura).
    A protrusão discal na coluna lombo-sacra quase sempre significa que houve um importante desalinhamento postural por longo tempo em sua vida. As causas devem ser detectadas e corrigidas, o que envolve mudança de hábitos posturais. O reforço abdominal é indispensável. Só inicie as aulas de dança com liberação médica e fisioterapêutica. Ainda assim, deverá sempre manter acompanhamento e pode haver alguma restrição durante as aulas (como movimentos de cambré ou saltos). O professor deverá estar disposto seguir as recomendações de sua equipe de saúde.
    Saudações!

  2. Boa tarde, Izabella. Gostei muito do seu site.
    Gostaria de saber sua opinião sobre aulas de dança, no caso balé ou jazz, para adultos iniciantes que tiveram uma protusão na cluna lombo-sacra e que receberam alta temporária (por seis meses) da fisioterapia (que foi feita na modalidade ginástica holística).
    Obrigada.
    Abraços

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