Colunas, Dança & Educação, Danças de Salão

Será que eu consigo aprender a dançar?

Diferente do que faço normalmente, hoje, escreverei com o foco voltado para o praticante de dança de salão e não para o professor. Tal decisão veio por conta de um pedido de uma praticante que, um pouco inquieta com suas questões relacionadas à aprendizagem, veio falar comigo e, como me identifiquei com tudo que ela disse, acreditei que seria um bom tema para escrever o artigo deste mês.

Acredito que quase todos nós, praticantes de dança de salão, se não a totalidade, em algum momento de nossas trajetórias pelos caminhos do aprendizado pensamos assim: Nossa como estou dançando mal, acho que não sirvo pra isso! Comumente recebo pedidos de alunos para falar comigo no final das aulas, e o que os mesmos querem saber é se o seu desempenho pessoal esta de acordo com o esperado, perguntam se não estão atrapalhando a turma ou coisas do gênero.

Vou relatar algo pessoal, que era uma estratégia que eu utilizava para dar uma melhorada no meu ego, na época em que eu tinha poucos meses freqüentando as aulas de dança de salão, na Academia Marques Dale, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Quando me sentia com desempenho ruim na dança, pedia para meu professor na época, o Zezinho, para ajudá-lo em outra turma que não era a minha, visto que naquela escola era comum ter mais damas do que cavalheiros nas classes. Porém, esta turma tinha que ser mais iniciante que meu nível, caso contrário minha estratégia não funcionava.

A trama consistia em dançar com uma dama que estivesse com um pouco de dificuldade, e minha missão era fazer com que ela tivesse uma aula boa e proveitosa. Para isso, bastava ser cordial, um pouco paciente e usar da minha maior experiência em dançar a dois. Ao final da aula era só esperar e ouvir: “Nossa como você dança bem!”, “Você virá mais vezes nesta turma!”, “Ah! Adorei fazer aula com você, hoje dancei bem”. Digo a vocês que era infalível, minha auto estima agradecia o estímulo e estava renovado. Isso se repetiu tantas vezes que acabei virando bolsista da escola e, hoje, estou eu aqui, profissional desta área.

Aqui vai uma opinião pessoal, de um professor que já trabalha dando aulas de dança de salão há mais de 17 anos: é super normal tal sensação de não estar bem em determinada época do aprendizado da dança de salão.

Esta sensação não escolhe níveis ou tempo de prática da atividade. Digo por mim e por outros profissionais que relatam a mesma coisa, até nós nos sentimos com dificuldades em determinada época. A diferença é que para o profissional é difícil parar de dançar, então ele procura cursos e daqui um pouco a confiança e satisfação com a performance se restabelecem. Já alguns alunos acabam desistindo na primeira dificuldade.

Abaixo vou elencar algumas dicas que podem fazer com que os incômodos com nosso desempenho na dança de salão sejam diminuídos e durem menos tempo:

  • Faça aulas numa turma regular e seja paciente: devagar se vai ao longe. A progressão do seu aprendizado será mais adequada e gradual se você se organizar para freqüentar sempre o mesmo grupo de estudo;
  • Seja freqüente e evite faltar suas aulas: levanta, sacuda a poeira e dê a volta por cima! É comum bater uma preguiça na hora de irmos para a aula. Nada disso, vá dançar e se divertir. A endorfina que você produzirá te fará um bem danado!
  • Faça aulas mais que uma vez na semana: a periodicidade quando se trata de aprendizado e desenvolvimento, muitas vezes, é bem melhor do que a quantidade. De uma forma geral, o desempenho dos alunos de uma turma de duas vezes por semana, tende a ser melhor do que os alunos de uma turma de uma vez somente.
  • Procure, também, fazer aulas de um nível inferior ao seu: além de ser bom para o ego, como descrevi acima em meu relato pessoal, a revisão dos conceitos básicos ajudam muito na manutenção da técnica dos fundamentos, o que colabora bastante na hora de aprendermos conteúdos mais desafiadores;
  • Dance com diversos pares: a diversidade é o segredo do sucesso. Quanto mais as damas conseguem responder a estímulos diversos, melhores são. Quanto mais os cavalheiros conseguem se comunicar e se fazerem entender por várias damas, estão conduzindo melhor. Além disso, não é muito bom aumentar o círculo de amizades?
  • Vá aos bailes, jogo é jogo e treino é treino! É fundamental praticarmos os aprendizados das aulas nos bailes. Afinal de contas, dança de salão tem um lado social muito importante no seu contexto, marque com sua turma e saia pra dançar!

Digo que é papel do professor tirar seus alunos da “zona de conforto”, pois somente desta forma o mesmo vai se desenvolver. Então, numa aula boa sempre nos sentiremos desafiados. Use isso a seu favor e vença as dificuldades, quando o desânimo aparecer, persevere. Quando o incômodo estiver grande, fale com seu professor, ele adorará te escutar e com certeza fará de tudo para te atender.

E por fim, te digo que você precisa dançar, ou estará mexendo na ordem natural das coisas.

Como diz o meu grande mestre Jaime Arôxa: primeiro rolamos, ainda deitados em nossos berços; depois, engatinhamos, descobrindo a autonomia do ir e vir; em seguida, andamos, experimentando sermos bípedes; depois, corremos vivenciando como somos ágeis e velozes; por fim, dançamos pra sermos felizes.

Então, te encontro nos bailes da vida!

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

10 Comments

  1. Desisti, porque na turma tinha mais meninas do que meninos e quando a professora disse para eles tirarem as damas para dançar foi notório na cara do rapaz que ele não queria dançar comigo porque eu não era uma das mais bonitas e assim foi se sucedendo ao longo da aula. Todos vinham com uma cara de “caraca só sobrou essa.”
    Fiquei tão desconcertada que com todos os rapazes que dancei, pisei no pé deles. Me sintia um lixo, acabei até perdendo a noção dos passos mais básicos.
    Desacreditei, e olha que antes da aula eu estava super animada.
    Enfim, nunca mais coloquei os pés lá. 🙁
    Não me orgulho disso, mas entre ser humilhada e dançar do meu modo, prefiro a última opção.

  2. Eu acho que estou passando por este momento, agora! Às vezes bate uma angústia e pergunta pra um, pergunta pra outro, mas parecem que não te levam a sério…
    Mas o bom é que a dança sempre está lá te esperando… é muito bom… e eu amooooooo

    Parabéns pelo artigo… muito muito muito pertinente!

  3. Tem um fragmento de um livro sobre psicologia da dança que eu acho lindo, e leio sempre que estou num desses momentos “difíceis”, pelos quais todos nós passamos. Aí vai em 2 versões (vale a pena o original, é poético…!):

    “IF YOU FIND YOURSELF NOT MAKING ANY PROGRESS FOR A WHILE, DON’T DESPAIR…BECOMING WORRIED AND FRANTIC WON’T HELP EITHER. SIMPLY RECOGNIZE THAT YOU’VE RUN INTO AN OBSTACLE …THEN DEVELOP A PLAN TO HELP YOURSELF AROUND IT…KEEP CALM AS YOU FOLLOW YOUR PLAN…STAY ATTUNED TO YOUR BODILY SENSATIONS, INVITE ENCOURAGEMENT OF FRIENDS AND CONTINUE TO MAINTAIN RESPECT FOR YOURSELF AS A DANCER AND A PERSON.”

    “SE POR UM MOMENTO VOCÊ ACHAR QUE NÃO ESTÁ PROGREDINDO, NÃO SE DESESPERE…PREOCUPAR-SE FRENETICAMENTE NÃO VAI AJUDAR. SIMPLESMENTE RECONHEÇA QUE VOCÊ ENCONTROU UM OBSTÁCULO…DESENVOLVA UM PLANO PARA AJUDAR-SE…PERMANEÇA CALMO À MEDIDA QUE SEGUE SEU PLANO…FIQUE ATENTO A SUAS SENSAÇÕES CORPORAIS, ACEITE O ENCORAJAMENTO DE AMIGOS E, ACIMA DE TUDO, MANTENHA SEMPRE O RESPEITO POR VOCÊ MESMO, COMO BAILARINO E COMO PESSOA.”

    (Loren, 1978, pp 195-196, em Psychology of Dance, Jim & Ceci Taylor, 1995)

    Abraços a todos, espero que desfrutem!

  4. É muito louco tudo isto, pois me sinto desta forma mesmo.Quando acho que esta bom eu me perco em passos tão simples.Isto me deixa pe da vida comigo mesmo.
    Materia perfeita

  5. ZACARIAS MOTTA

    Será que eu consigo dançar?

    sempre achei a dança uma magia, sempre quis dançar, mas a timidez sempre atrapalhou, só depois dos 40 tive coragem de procurar uma escola. dai minha surpresa não é tão dificil como imaginamos, claro a prática nos deixa mais a vontade e confiante.
    hoje ja fiz três cursos e estou no quarto curso e não pretendo parar
    e lembre-se as vezes aparecera um desconforto com a(o) parceira(o) mas tenha paciencia e leve na descontração, afinal a dança é uma diversão. fica mais bonito se realizada com amor e dedicação.

    um abço…

  6. Será que eu consigo aprender a dançar?!!! Claro que sim! Passei (e ainda passo) por esses “estágios” que você falou ao iniciar minhas aulas de dança de salão. Mas não desisti. Hoje, já com uns nove meses numa academia de dança, sinto-me plenamente feliz e realizada. Cada aula é um novo desafio, mas tudo feito à base de muito humor, alegria e descontração.Nem acreditei quando, ontem, “abri” um baile tradicional aqui na minha cidade dançando bolero com meu professor. Adorei seu blog. Virei fã de carteirinha. Um abraço. Clá.

  7. Sempre tratando de temas pertinentes e com muita exatidão, Parabéns professor!

    “…enquanto houver dança, haverá esperança.”

    um grande abraço

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