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O tempo da dança e a dança do tempo

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É fácil perceber que nosso corpo tem uma razoável organização espacial e funcional. Por exemplo, se olharmos o nosso tubo digestivo, ele começa na boca, que é contínua com a faringe, esta com o esôfago, este com o estômago, este com o intestino, etc. Quando os alimentos transitam nesse tubo, eles vão sofrendo as necessárias modificações, mecânicas e químicas, para que se decomponham em formas mais simples que possam ser utilizadas pelo corpo. Curiosamente, na linguagem popular, costuma-se usar a frase: “meu intestino é um relógio!”. Será que ela tem alguma base real? Ou seja, há também nesse corpo uma organização temporal, além das já mencionadas espacial e funcional? E a dança, teria alguma relação ou influência sobre ela?

De fato, em nosso corpo, diversos processos como o sono, a frequência respiratória e cardíaca, a secreção hormonal, a produção de impulsos nervosos, dentre outros, possuem ritmos já bastante estudados e estabelecidos, que se repetem em intervalos diferentes, porém, muitas vezes, relacionados. Esses processos são chamados ritmos biológicos. Nossas flutuações fisiológicas diárias são, ainda, bastante relacionadas entre si e mutuamente influenciadas, algo que é conhecido como ordem temporal interna.

Os ritmos biológicos são frequentemente regidos pelo relógio solar ou o ciclo claro-escuro diário de nosso planeta Terra, mas também, especialmente no caso da espécie humana, por fatores como o “relógio” social (horário de trabalho, de estudo, de alimentação, compromissos diversos, influência da mídia eletrônica, etc).

Por outro lado, os ritmos são, também, bastante individuais e, neste aspecto, há pessoas classificadas como matutinas (acordam e dormem cedo com facilidade, estão mental e fisicamente mais ativas pela manhã, etc), aquelas classificadas como vespertinas (tendem a acordar e dormir mais tarde; preferem exercer atividades intelectuais e a prática de atividade física no período da tarde ou noite, etc) e, até mesmo, aquelas classificadas como indiferentes (em resumo, têm reações mescladas às descritas para matutinas e vespertinas). Essa classificação define os chamados cronotipos.

Cultural e preconceituosamente, os vespertinos têm sido muitas vezes taxados de preguiçosos, o que pode ser facilmente verificado em frases e ditados populares como: “Deus ajuda a quem cedo madruga” ou “The early bird catches the worm”. Porém, cientificamente, isso tem sido desmistificado com achados como o fato do ritmo diário de temperatura nos vespertinos ser atrasado em relação aos matutinos, o que evidencia um fator biológico determinante e não simplesmente uma preferência comportamental deste cronotipo pelos horários mais tardios.

Relacionando esses conceitos com a dança de salão, dentre os fatores que podem interferir na regulação corporal dessa ritmicidade está o exercício físico. É sabido que o exercício pode atuar como um sincronizador (o mesmo papel exercido pela variação diária de luz e escuro e pela questão social humana de ajustar os ritmos) e, sendo assim, pode levar a um adiantamento ou a um atraso em nosso ritmo de dormir e acordar ou, mais precisamente, o ciclo sono-vigília. A prática de atividade física no período noturno, por exemplo, e aqui, podemos incluir a dança de salão, pode induzir um atraso em nosso horário de dormir e, neste caso, quanto mais aceleração for causada ao organismo, maior será esse atraso. Isso pode ser bastante útil, por exemplo, para um trabalhador noturno que saia da aula de dança de salão a noite e vá trabalhar ou estudar em seguida, uma vez que sentiria, então, menos sono durante estas atividades. Até mesmo porque a maior propensão ao sono costuma corresponder a nosso menor valor de temperatura média diária de noite ou de madrugada e, esse menor valor sendo retardado pela atividade física noturna, também poderia atrasar a sensação de sono.

Contudo, pode ser menos benéfico para a pessoa que sai da aula e precisa dormir logo, por ter que acordar muito cedo no próximo dia. Uma alternativa, neste segundo caso, seria fazer as primeiras aulas de dança de salão da noite (por exemplo, com início até às 19h), fazer aulas de ritmos mais lentos nos últimos horários das academias (entre 21 ou 22h) ou, ainda, se possível, que a luminosidade nas salas nos últimos horários destas fosse reduzida, pois, a somatória da luz intensa com a atividade física pode aumentar o efeito de atraso no horário de dormir.

Para os praticantes de dança de salão, então, pode ser bastante importante refletir sobre como é o seu ritmo de sono e quais são seus horários de trabalho e estudo para definir quais horários e ritmos ou gêneros (bolero, forró, samba) seriam mais adequados para suas aulas.

O conhecimento sobre o funcionamento de nosso próprio corpo é sempre relevante para que façamos melhores escolhas para a nossa saúde e bem-estar! Atividades que estejam de acordo com nossos ritmos biológicos e sociais, sem violentá-los, com certeza trarão maiores benefícios de bem-estar físico e psicológico.

Com relação aos professores e profissionais da área de dança de salão, o conhecimento desses processos temporais do corpo humano pode também ser bastante útil para definir a escolha da grade horária de suas escolas. Temos na dança de salão uma prática bastante salutar, pois ela congrega exercício físico com a questão lúdica, de sociabilização e sob a influência prazerosa da música. Assim, a atuação de profissionais conscientes pode potencializar, ao invés de até prejudicar, como descrito em alguns exemplos acima, o ganho de saúde que esta prática trás.

Considerando, portanto, a questão de nossos ritmos biológicos, sugerimos incluir também práticas que ajudem a resgatar nossa regularidade temporal já tão perturbada pelo imenso número de estímulos que a nossa própria sociedade gera diariamente. Por exemplo, o exercício com o relógio que citei no artigo A vida pede pressa, e a dança?”, ou as práticas de ritmo e musicalidade que já apresentei em outros artigos aqui na Dança em Pauta, pois estas trazem a música como o agente a harmonizar essa regularidade ou, simplesmente, um relaxamento com ritmos lentos e pouca luz ao final dos nossos últimos horários de aula à noite. Essas são apenas poucas sugestões, pois não entendemos que o assunto se encerra aqui, muito pelo contrário, diversas contribuições de prática com certeza podem ser somadas a este artigo!

Por fim, acredito na busca do resgate do ser humano em toda a sua essência, inclusive a temporal, para o qual a dança e as artes em geral são de fato essenciais. Afinal, há que buscarmos antídotos contra a impaciência já tão arraigada em nosso hoje, pois, como diz Lenine em sua canção Paciência:

“Enquanto o mundo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa. A vida é tão rara… O mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo (e o nosso corpo – da autora) espera de nós, um pouco mais de paciência…”.

* Por Ana Maria Caliman Filadelfi
Especialista em dança de salão pela FAMEC; técnica musical em piano; mestre e doutora em Biologia pela USP, é docente do Departamento de Fisiologia do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Praticante de dança de salão desde 1993, atualmente é professora na Oito Tempos Escola de Dança, em Curitiba.

Leitura recomendada:

  • Back, F.A.; Fortes, F.S.; Santos, E.H.R; Tambelli, R.; Menna-Barreto, L.S.; Louzada, F.M. Sincronização não fótica: o efeito do exercício físico aeróbico. Rev. Bras. Med. Esporte, v. 13, n. 2, 2007.
  • Editorial – Timing is everything. Nature, v. 425, n. 6961, 2003.
  • Escames, G.; Ozturk, G.; Baño-Otálora, B.; Pozo, M.J.; Madrid, J.A.; Reiter, R.J.; Serranol, E.; Concepción, M.; Castroviejo, D.A. Exercise and melatonin in humans: reciprocal benefits. J. Pineal Res., v. 52, 2012.
  • Marques, N.; Menna-Barreto, L.S. Cronobiologia: princípios e aplicações. EDUSP, 2003, 3ª. ed., 435pp.
  • Steiner, R. Antropologia meditativa, Editora Antroposófica, 1997, 79pp.

 

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