Colunas, Flamenco em Pauta

O Romantismo e o surgimento do fenômeno cultural chamado Flamenco

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Como mencionei na coluna anterior, um dos temas que considero palpitantes na história do flamenco é a sua intersecção com o romantismo.

Tal fato não é novidade, porque sendo o flamenco um fenômeno social e cultural, é natural que seja influenciado e influencie o seu entorno.

O ano de 2017 está chegando ao fim e nessa época muitas escolas e grupos de dança se preparam para fazer uma apresentação, assim como o grupo que participo, Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano “Perlita” e Jony Gonçalves. Estou muito feliz e ansiosa para celebrar o começo de um novo ciclo com o espetáculo que apresentaremos “De Sur a Sur”. Refletindo nos ensaios, não paro de achar paralelismos entre lá e aqui.

Pintura de Manuel Cabral Aguado Bejarano (1850), acervo do Museu do Romantismo de Madri.
‘La Copla’: pintura de Manuel Cabral Aguado Bejarano (1850-1890), acervo do Museu do Romantismo de Madri.

Pensando nesse paralelismo do “sur” de lá com o sul daqui, podemos dizer de forma superficial que enquanto tivemos o índio como personagem central do romantismo, lá o gitano (cigano) foi um dos destaques e isso está intimamente ligado com a consolidação do flamenco.

Para além da questão da contribuição das diversas culturas que formaram o flamenco, entre elas a presença dos ciganos, o personagem gitano, ideário e mítico, teve influência fundamental na solidificação do flamenco, ou será que justamente pelo flamenco estar se firmando nesta fase do romantismo espanhol foi que o personagem gitano foi exaltado? A resposta não é o mais importante, pelo menos não neste pequeno texto, e sim refletir sobre a influência e contextualizar o momento de consolidação do flamenco como arte autônoma.

A origem do flamenco remonta ao século XVIII e sua consolidação ao século XIX, o que não significa que antes do século XVIII não houvesse algo de flamenco, nem que após o século XIX ele não siga sendo construído e (re)inventado. De acordo com as últimas pesquisas, a primeira vez que se utilizou a palavra flamenco foi em 1847, antes, acreditavam que teria aparecido pela primeira vez em 1871.

“O flamenco, concretamente, é um complexo cultural composto por uma multiplicidade de elementos, a maioria dos quais, vistos isoladamente, deveriam ser definidos como tradicionais, e que, no entanto, constitui um fenômeno cultural moderno: consolidado no final do século XVIII e durante o século XIX”.
Isidoro Moreno Navarro, catedrático em Antropologia Social e Cultural da Universidade de Sevilla.

O flamencólogo Alfredo Arrebola lembra que o artista flamenco também se identifica com o poeta romântico porque está disposto a expressar seus sentimentos, intimidades e inquietações, algo totalmente contrário ao homem neoclássico do século anterior.

Majo e Maja bailando, obra de Andrés Cortés Aguilar.
‘Majo e Maja bailando’, obra de Andrés Cortés Aguilar (1812-1979).

Assim, podemos observar que o contexto social e cultural em que o flamenco começa a se consolidar foi o romantismo e com ele a peculiar admiração por personagens livres, com valores exóticos, de caráter orgulhoso e forte, o conhecido “buen salvaje”. Enquanto no Brasil tivemos o personagem índio, na Espanha e parte da Europa o grande personagem do romantismo foi o gitano, assim como também tiveram destaque o toureiro, o bandoleiro, entre outros.

Parafraseando Jose Luis Ortiz Nuevo, na sua origem, o flamenco nada mais era que gritos de dor, de raiva, lamentos profundos para romper os silêncios, mas também eram as celebrações, as festas, a arte que conquistava toda Europa e América com seu exotismo e seu grande personagem romântico: o gitano.

Os gitanos aparecem como personagem central e sujeitos ativos, participando tanto de festas próprias, privadas, como em festas organizadas por pessoas de classe superior e em grandes teatros e óperas, ultrapassando até mesmo o âmbito do flamenco. Como exemplos da presença do elemento gitano tanto no teatro popular como erudito não só espanhol, podemos citar ‘El trovador’ (1836), de Antonio García Gutiérrez; a lírica italiana ‘Il Trovatore’ (1853), de Giuseppe Verdi; ‘La Traviata’ (1853), também de Giuseppe Verdi; ‘Carmen’ (1875), de Georges Bizet; ‘El barón gitano’ (1885), de Johan Strauss.

No entanto, esse “agitanamento social” parece ter tido maior profusão e extensão nas pautas de comportamento e na estética do sul da Espanha, onde a tendência cultural e social ganhou o adjetivo de Majismo. Podemos descrever o Majismo, de forma bastante simplificada, como um movimento social que mostra a reação de classes não aristocráticas contra o afrancesamento na moda e nas relações sociais.

Duquesa de Alba (1797), obra de Franscisco de Goya. Acervo da Galeria Nacional de Londres.
Duquesa de Alba (1797), obra de Franscisco de Goya. Acervo da Galeria Nacional de Londres.

Na região de Madri, o movimento ganhou o adjetivo de Goyesco, pois Goya pintou muitos Majas e Majos. Ali a moda estava mais ligada à nobreza, que mesclou a forma de vestir típica das pessoas humildes com os tecidos e adornos mais luxuosos. Goya pintou a Duquesa de Alba em 1797 com mantilha e traje típico do “majismo”.

O estudioso Steingress defende que o agitanamento da cultura andaluza foi o resultado de uma busca por uma identidade coletiva, que de simples moda, passou a formar parte integral da identidade de grandes setores sociais. Sua aceitação, principalmente ao meio burguês, se deve a representação de um mundo aparentemente divertido, gracioso, ainda que cheio de momentos trágicos. Segundo o sociólogo, isso gerou também um reforço mútuo de preconceitos sociais e estereótipos, como reflexo da caótica situação social e cultural que vivia o país.

Dessas reflexões, é possível extrair algumas conclusões, entre elas que o flamenco é um fenômeno urbano, moderno e começou a conquistar autonomia no bojo do romantismo, é como se o romantismo fosse o terreno fértil propício para a consolidação desta arte. Também é possível encontrar mais uma das chaves para a universalidade do gênero flamenco no fato de que, do século 18 (ou até antes) aos dias atuais, do sul da Espanha ao sul do Brasil, além do tempo e do espaço, o flamenco sempre está intrinsecamente ligado aos sentimentos humanos, às penas e glórias sociais e culturais e se inter-relaciona diretamente com o contexto social, cultural, econômico e político, não só local, mas mundial, a exemplo do contexto do romantismo.

Na próxima coluna, vamos refletir um pouco sobre a relação entre o flamenco e política. Hasta pronto, Majos y Majas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • NAVARRO, Isidoro Moreno. El flamenco en la cultura andaluza. In: ROLDAN, Cristina Cruces (org). El Flamenco: Identidades Sociales, Ritual y Patrimonio Cultural. Centro Andaluz de Flamenco: Sevilla, 1996, p. 21.
  • NUEVO, Jose Luis Ortiz. Pensamiento politico en el cante flamenco. Biblioteca de la Cultura Andaluza, 1985. P. 18
  • Steingress, Gerhard y Baltanás, Enrique. (Junio de 1995 y 1997): Flamenco y nacionalismo: aportaciones para una sociología política del flamenco: actas del I y II Seminario Teórico sobre arte, mentalidad e identidad colectiva. Fundación Machado, Sevilla., p. 34
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Integrante do Grupo Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano (Perlita) e Jony Gonçalves, adora ouvir e contar histórias, seja com palavras, com a dança ou com imagens. Jornalista, formada pela UFPR e bacharel em Direito pela Unicuritiba, pós-graduada em Estética e Filosofia da Arte pela UFPR. Cursou mestrado em Sevilha, onde se perdeu muito pelas ruas, tirou fotos com famosos e mergulhou na cultura flamenca.

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