Colunas, Dança Afro

O que é Dança Afro?

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Quando recebi o convite para escrever esta coluna, uma grande profissional da área e amiga do coração me deu uma dica sobre o que poderia ser o primeiro tema desta coluna. Ela disse: “Por que você não escreve sobre o que é Dança Afro?”. No início pensei que seria uma ideia meio óbvia, mas refletindo melhor achei depois a ideia incrível, pois de óbvio só existe o fato de que é extremamente importante um espaço em que possamos falar sobre o que é nosso e sobre nossas raízes. Esta coluna no portal Dança em Pauta será um espaço onde iremos conversar sobre inúmeros temas pertinentes ao universo da Dança Afro. Falaremos de conhecimentos técnicos, da relação do som dos tambores em nosso cérebro, tipos de danças Afro, como ela é importante para outras áreas do movimento, nossa história e a Africanidade, o Afro com crianças e a lei, e assuntos que talvez você nem imaginaria que fazem parte deste contexto e que vão te surpreender.

Pode ser que os primeiros pensamentos que vieram em sua mente sobre o que é Dança Afro foram algumas danças que fazem parte dos rituais religiosos da cultura negra ou a dança dos guerreiros Masai na África. Sim, esses movimentos fazem parte também, mas aqueles que são apaixonados pela Dança Afro como eu, sabe que estamos falando de algo muito maior. Comecei com a dança e a música quando ainda era criança, mas em 1990 foi que descobri minha verdadeira paixão dentre as artes: a Dança Afro.

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Balé Folclórico da Bahia | Foto: divulgação

O fato é que a maioria das pessoas tem um conhecimento superficial sobre o que é esta dança e muito disso se deve a situações históricas. Por exemplo: uma estratégia para subjugar ou dominar um povo, assim como fizeram os colonizadores, e desconstruir a identidade cultural e as raízes desse povo. Em minha opinião, estes mesmos colonizadores identificaram imediatamente o poder da cultura negra e que, estes costumes que envolviam grandes valores humanos, crenças e inúmeras artes, poderiam ser fatores de risco para o domínio e controle, pois eles possibilitavam muito poder pessoal, conexão com a natureza, com a família, inteligência emocional e uma força vital incontestável. Atualmente, em meio as mazelas históricas no subconsciente de muitos, ainda permanece um conceito equivocado e preconceituoso sobre a cultura negra, que foi implantado propositalmente para que poucos tivessem o poder sobre muitos. Este fato impacta muito na história e identidade brasileira. Este é um processo que ainda vamos falar mais em outro momento, mas acredito que uma nação cresce e prospera quando tem orgulho de suas raízes e conhece sua identidade.

Então pergunto: Quem somos nós brasileiros? Qual nossa identidade e como o mundo nos vê?

Mesmo as histórias que buscam justificar a escravidão ou a hierarquia de raças, até hoje não eliminaram o óbvio: a força e a influência da essência negra nos indivíduos e no mundo. Quem dança afro compreende melhor a que me refiro, sente em seu corpo e em suas emoções o que esta dança possibilita, além é claro, da preparação corporal incrível que esta prática propicia aos bailarinos de qualquer linguagem na dança.

Agora vamos abrir ainda mais o ‘leque’: Dança Afro é uma ferramenta para a transformação, crescimento e evolução do ser humano.

O autoconhecimento que o movimento afro proporciona denota no indivíduo a habilidade de responder apropriadamente a uma situação, ajudando-o a sentir ou a entrar em contato com seu corpo, proporcionando ao praticante, o conhecimento da sua cultura e tradições. A Dança Afro, no contexto das Danças Primitivas ou no contexto da Dança Afro Brasileira, tem suas raízes no continente Africano, berço da humanidade. Hoje, sabemos que o registro mais antigo da nossa história foi encontrado na África. Portanto, ela é patrimônio histórico que representa não só o continente negro mais sim a nossa identidade como povo e nação. É uma forma de arte que expressa emoções sentimentos e significados. Alguns desses significados simbolizam a essência da natureza e de seus movimentos. Esta forma de comunicação e/ou linguagem se traduz para o entendimento de todos os povos.

Com base em minha experiência, vejo que estes significados propiciam ao praticante conhecimentos sobre nossas origens. São informações que parecem estar gravadas em nosso DNA e que se conectam com nosso inconsciente e subconsciente quando realizamos esses movimentos ancestrais. De alguma maneira parece que acionamos estas memórias através destes movimentos e ritmos.

Andrea Soares e a Dança Afro em cena
Andrea Soares e a Dança Afro em cena

Se olharmos para a essência da Dança Afro, podemos dizer que ela é uma ferramenta poderosa para despertar através do corpo e do movimento uma consciência sobre a importância da natureza, da família, da nossa existência, da nossa força e nosso lugar no mundo. Você pode praticar o Afro Ancestral ou o Afro Contemporâneo, a Dança dos Orixás, a Dança Afro Brasileira, ou um batuque de tremer o chão…

Um desejo maior sobre quem fomos, somos e de quem podemos ser, se fará presente através do AXÉ, esta força vital que vibra em todos nós! E viva a mãe África !

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Fundadora e Diretora da Companhia de Dança TRIBAH (Tributo e Resgate da Identidade Brasileira e Afro com Honra) é coreógrafa há mais de 25 anos, com experiência internacional em países como EUA, México, Chile, Perú, Argentina e Europa. Professora universitária de graduação e pós-graduação nas disciplinas de Dança Afro e Corporeidade, trabalha com consultoria e capacitação de professores na lei 10.639/03, tendo vasta experiência como empreendedora em escolas, academias e na TV. Possui reconhecimento público na Assembleia Legislativa do Paraná pelo Consulado do Senegal no Brasil.

1 Comment

  1. Eu gostei do artigo mas quero entender melhor, ao fazer movimentos da dança afro, a pessoa estará adorando algum orixá, alguma divindade, qual o significado dos passos.

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