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O poder da metamorfose feminina na dança de salão

Quem já não notou uma lagarta esquisita entrando pela porta da sala de aula de dança de salão, com calças largas, camisetões, óculos, rabo de cavalo, mantendo-se quietinha por dias e saindo transformada um tempo depois?

Uma das mais belas cenas que já pude assistir na natureza é a metamorfose de uma borboleta. Sim, uma pieguice para quem perdeu a rica dádiva de deslumbrar-se com o simples. De um ovo quase invisível, sai uma lagarta desajeitada, indesejada, com movimentos parecendo descoordenados, para muitos, feiosa, quase assexuada. Em dado momento, para de se alimentar, encolhe, e de seu revestimento externo sai um casulo, uma pupa, frequentemente ainda mais esquisita que a lagarta de minutos antes. Assim ela fica, quietinha por dias, operando uma transformação inacreditável e que até os dias de hoje guarda seus mistérios.

Algum tempo depois, uma casquinha se rompe e sai dali de dentro, com muito esforço, um corpo esquisito, com pernas trôpegas, asas enrugadas, amarfanhadas, que parecem uma aberração, uma falha fazendo movimentos aparentemente dolorosos. Ninguém pode ajudar neste processo, ao preço de causar uma deformidade permanente ou o fim. É um momento para se vencer sozinho, como tantos outros na vida. Em poucos minutos, exuberantes asas iniciam um desdobramento preciso, revelando-se um ser no apogeu de sua existência, seguro, com domínio total de si, parecendo sabedor da própria beleza. Um ser pronto para lubricidade, para dar continuidade ao ciclo espiralado da sequência de gerações. Um ser particularmente incrível, hábil ao voo, uma das capacidades mais desejadas pelo homem, que já suscitou das loucuras de Ícaro à realização de Dumont e dos modernos foguetes individuais.

Para o bom observador da vida no planeta, esta metamorfose é das cenas mais emocionantes, às vezes, estampada num ingênuo jardim. Mais uma vez, um paralelo da natureza com a dança de salão parece óbvio. A lagarta, na sala de aula, começa descobrindo-se em cada movimento tímido que, gradativamente, se amplifica tomando forma. Ouve-se a voz ganhando altura e textura. Cria-se a coragem de encarar o espelho, descobrir as próprias ondulações debaixo do esconderijo protegido dos panos largos, que a cada dia, descascam-se. Começa a dar-se nitidez às curvas sensuais e livres que tanto atraíram Niemeyer. No olhar de Álvares de Azevedo, curvas que gravam na roupa o “contorno eloquente”. Curvas ainda mais sinuosas e vivamente dinâmicas quando em dança. Nasce o espaço para saborear a combinação com outros corpos.

A mulher que entra desajeitada na sala de dança de salão tem toda a exuberância de uma fêmea em pleno vigor, escondida em algum lugar, guardada como uma joia preciosa que é dela mesma e de mais ninguém, que se compartilha, mas, não se divide. A dança de salão é a chave que abre o baú de encantos e coragens, é a chave da liberdade de ser quem se é.

E em algum momento, que mal sabemos precisar qual é, sai daquela porta a voluptuosidade dos cabelos sedosos, soltos à brisa, dos olhos brilhantes visíveis de longe, dos dentes mais brancos, da pele mais lisa, das lindas asas pintadas em saia, transbordando erotismo. Fica pronta para alçar voo, segura, vertendo na postura, nos movimentos exploradores de curvas e nas expressões, a mixagem da confiança com a nudez do êxtase. Esta metamorfose não se restringe à sala de aula ou ao salão. Inunda todos os meandros desta vida, a casa, o guarda-roupas, o chuveiro, as refeições, a atenção à saúde. Sem tratamento estético, há redução do cenho franzido e o desenfrear do sorriso que emoldura qualquer fala, fácil, provocativo, doce ou malicioso. Transforma as relações com outras pessoas e a produtividade profissional. Espanta o pó do estojo de maquiagem, acorda a paixão pelos saltos altos, pelas cores, justezas e brilhos, pelos frascos de perfumes. Cria a sede pelas novas descobertas. Devolve o sexo, para ser descoberto como se quer. E sempre há mais a desvendar nos mistérios ali enclausurados.

Este é um dos mais profundos e enigmáticos poderes que a dança de salão tem, libertar fêmeas que moram amarradas em certas mulheres. Como na metamorfose biológica da borboleta, a lagarta horrorosa, comumente cheia de espículas que impedem aproximação sem ferimento, contém informações dormentes sobre a verdade guardada na caixinha de música lacrada.

A dança de salão faz toda e qualquer mulher linda, independente de idade, peso, simetria, traços fora ou dentro de padrões midiáticos, simplesmente, porque ensina a potencializar ao máximo os dons nativos de fada e de bruxa. Licença Freud, a sua inveja não faz sentido para a mulher que se desvenda para si mesma. Para o bom observador do ser humano, esta metamorfose é das cenas mais emocionantes que se pode ver, às vezes, estampadas num ingênuo espelho.

Veja também:
A dança do albatroz

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

10 Comments

  1. Parabéns pelo belíssimo texto, você soube descrever com muita beleza, poesia e sensibilidade um momento tão único e singular da mulher na dança de salão. Me emocionei com seu texto, pois me vi nele.

  2. Parabéns Zamoner pelo texto. Venho acompanhando as publicações de Maristela Zomoner e, fico impressionado com sua capacidade de articular outras áreas de conhecimento com as danças de salão. Sua formação, também, na área de biologia tem contribuido para desvelar a gama de conhecimentos tácitos que as danças a dois possuem imbricados nessas questões da relação natureza/cultura.

    Jonas karlos
    Mestre em Dança

  3. Texto maravilhoso esse da Maristela Zamoner. Com certeza todas nós, mulheres que um dia deram o “primeiro passo” em direção à dança de salão e venceram os desafios naturais de tudo que é novo, se perceberam, como bem disse a Maristela, verdadeiras borboletas, capazes encantar a si mesmas e ao mundo. Aliás, essa força transformadora da dança de salão se opera em todos que passam a praticá-la, seja mulher ou homem.

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