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O Personal Dancer na Dança de Salão

O assunto é polêmico e discutido com freqüência nos mais diversos ambientes, desde uma conversa informal de amigos em um baile, até em publicações que falam sobre o universo da dança de salão. Agora, é nossa vez de abordar a figura do personal dancer, tentando entender melhor o papel desse personagem, que é mais que realidade na dança a dois em nosso tempo.

Para base de nossa escrita, usaremos como motivadores o pequeno texto “O personal facilita. E elas não aprendem”, de Milton Saldanha, editor do jornal Dance, uma das mais importantes publicações para dança de salão nacional, com mais de 17 anos, e o livro “Empreendendo em qualidade de vida: O profissional personal dance”, dos autores Chames Gariba, Glaycon Michels, Ana Maria Franzoni e Édis Lapoli, da editora Pandion.

Também é importante esclarecermos que, o que estaremos considerando um Personal Dancer é o profissional de dança de salão que presta o serviço remunerado de dançar com seus clientes, num baile ou qualquer outro ambiente social de dança a dois.

Resumindo brevemente, Milton Saldanha enxerga o personal dancer como profissional da área, visto que recebe por seus serviços e o mesmo acaba tirando o público que utiliza seus trabalhos das aulas de dança de salão, pois facilita o fim desejado por sua clientela, que é dançar. Apresentado esse quadro, o autor chega à conclusão de que tal cenário faz com que aqueles ou aquelas que se utilizam de um personal dancer acabam por dançar mal, pois lhes faltam o desenvolvimento técnico e o conteúdo que, num ambiente de baile, não é adequado para ser trabalhado. É importante colocar que Milton não generaliza o fato e destaca várias damas que tem seu personal, porém são exímias dançarinas.

Já o livro citado sobre o assunto, que é de 2007, traz uma pesquisa feita na cidade de Florianópolis que visa entender se haveria um mercado consumidor dos serviços de um personal dancer na região, traçar o perfil desejado para este profissional e os aspectos importantes a serem trabalhados por ele. Ao final do livro, são apresentadas conclusões como a de que a atuação do personal deverá ser de forma a desenvolver as relações interpessoais, mas sem esquecer as especificidades e o caráter de lazer da proposta, que tem como um dos principais objetivos o alívio do stress. Os dados do perfil desse profissional, que aparecem como destaques na pesquisa do livro são: liderança, dinamismo, sensibilidade, coerência e organização sendo que as características conhecimento/experiência e criatividade/inovação são as mais esperadas pelos futuros consumidores do serviço de um personal.

Fazendo uma análise crítica do livro, pude perceber que o que a publicação propõe é um pouco diferente da forma de atuação deste profissional no mercado atualmente. Me pareceu que o livro descreve o papel do personal dancer mais semelhante ao de um professor de dança que ministraria aulas individuais, do que exatamente um profissional, que dançaria com clientes em um ambiente social. Mesmo assim, vale a pena à análise da leitura por seu caráter de pesquisa acadêmica, com o rigor e imparcialidade que a mesma é realizada.

Concordo com Milton Saldanha quando o mesmo coloca que não é produtivo discutir se a figura do Personal Dancer deveria ou não existir, ela já está consolidada no mercado e, em algumas cidades que são referências para a dança de salão nacional, como Rio de Janeiro e São Paulo, alguns profissionais têm como única fonte de renda seus serviços de personal, atuando de cinco a seis vezes por semana, com agenda cheia e clientela fixa.

Também é importante lembrar que pagar alguém para dançar é muito antigo. Os bailes do picote ou os bailes de ficha já existem há algumas décadas e a diferença para o personal é que, neste bailes, era o estabelecimento que provia os dançarinos e não o cliente que o leva.

É fato de fácil constatação a diferença na quantidade de homens e mulheres frequentadores de bailes de dança de salão, assim como nas aulas, salvas as exceções, e é comum vermos um número significativamente maior de mulheres frequentando esses ambientes. Com isso, ficou propícia a propagação do personal dancer no mercado, afinal, ninguém gosta de investir em aulas, se arrumar para ir ao baile, e não dançar nenhuma música. Desta forma, as pessoas que têm condições de pagar, começaram a lançar mão do serviço do personal e parecem estar satisfeitas, pois alguns profissionais relatam que estão tendo que negar novos ou novas clientes.

Acredito que o principal foco da discussão deveria ser a manutenção das pessoas que usam os serviços dos personais dancers nas aulas, tema ressaltado por Milton Saldanha em seu artigo: “Senhoras, mantenham seus Personais, porém procurem com urgência uma academia, quem vai agradecer é seu Personal, cansado desse tédio”. Tal colocação vem da análise de um dos pontos mais discutidos quando abordamos a questão do pagar para dançar, que é o prazer. Não sejamos hipócritas de achar que o personal fará seu serviço com igual satisfação quer o cliente dance bem ou não.

Finalizando essa exposição sobre o tema, tenho a opinião de que o personal dancer veio pra ficar e não adianta ficarmos lamentando sua existência, vários deles estão desempenhando muito bem seu papel, profissionalizando-se e colaborando para que pessoas possam desfrutar do prazer de dançar nos bailes. Porém, tal fato não deveria fazer com que os clientes desse serviço se afastassem das aulas de dança. Pelo contrário, o próprio personal deve ser um incentivador junto a seus clientes, para que praticantes possam encontrar numa academia de dança um meio de interação social e de melhorar sua performance, ajudando assim até o próprio personal a desempenhar melhor seu papel.

E pra agitar a discussão, deixo uma questão: o que vocês pensam desse personal dancer também atuar como professor particular de seu cliente? Aguardo os comentários!

 

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

14 Comments

  1. Suas postagens são perfeitas, estou sempre passando por aqui para ver suas matérias… eu sou blogueiro segui a sua idéia que vi aqui e apliquei em outro nicho, parabéns pelo trabalho! Tenho um blog da área de Coreografias de Musicas e Coreografia de Dança.

  2. Olá,
    Quero falar que sou professor de dança de salão, também faço trabalho de personal e também atuo como promotor de bailes.
    A minha opinião é que: O personal virou um mal necessário.
    Ele foi criado em cima de um preconceito. Não existe formação, não existe seleção e nem fiscalização. Hoje qualquer pessoa pode atuar como personal, se ela tem 3 meses ou 33 anos na dança. E o que leva as pessoas a serem personais, é simplesmente o dinheiro.
    Hoje vejo alguns bailes a presença de personais femininas. E eu me pergunto porque? Gosto de uma frase do Jomar Mesquita: ” O profissional de dança de salão é que estragou o mercado de dança de salão.””

  3. Olá, eu estava querendo aprender a dançar Bachata (começando do zero), Depois de 47 anos resolvi tentar aprender, pois, até hoje só dancei valsa e mal…. rs, Vocês conhecem alguém disponível para dar aula particular? Obrigado.

    1. Oi Tom! Lançamos o Guia Dança em Pauta em abril exatamente para atender ao público que, como você, procura escolas, professores e demais serviços e produtos de dança. Estamos começando a reunir as empresas de dança lá, acesse e veja se já temos algum professor indicado em sua cidade http://guia.dancaempauta.com.br/

  4. Bacana todo o conteúdo do texto e principalmente os comentários. Todos com razão sobre. Porém, penso que, assim como nas escolas o número de mulheres é desproporcional, nos bailes (salvo o de casais), também é.

    Então, as que podem levar um par e/ou um personal, fazem para não ficar muito tempo sem dançar. Quem gosta de dançar, sabe disso. Todos aqui sabem.

    É crescente a quantidade de escolas de dança de salão… assim como os bares com dança durante a semana.

    Boa dança a todas!

  5. É uma opção de mercado. Mas existem “profissionais” que desvirtuam a mesma e se prostituem em nome da Dança de Salão, e isso é mais notório principalmente em bailes de Terceira Idade e de Cruzeiros Marítimos, onde além de Personal Dancer o “indivíduo” serve pra tudo, e daí generaliza a situação. Isso eu vi, ninguém me contou. Acredito que para ser um bom Personal Dancer a pessoa no mínimo deva ter um pouco de profissionalismo, conhecimento técnico, ética e bom senso, porque na atual situação o que vemos é uma banalização total, e não generalizando. Esse é um dos pontos onde à Dança de Salão é criticada e vulgarizada infelizmente…Paralelo a isso e até um pouco atrelado ao assunto, vemos hoje em dia aquele indivíduo que faz um workshop de final de semana com um grande profissional ou não, e na semana seguinte abre uma academia se intitulando “professor” , ou se convertendo num Personal Dancer, cobrando “merrecas” pelos seus “serviços”, desvalorizando assim o trabalho dos verdadeiros profissionais que estudam, ralam, correm atrás, investem em conhecimentos e não são devidamente reconhecidos na maioria dos casos. Mudanças são cabíveis para que que às Danças de Salão sejam reconhecidas e respeitadas no mundo das artes, e que leis sejam criadas em benefício de todos os verdadeiros profissionais devidamente responsáveis e até conhecidos no mercado…

  6. Olá, concordo com os colegas acima, eu sou assistente em dança de salão e por vezes faço trabalho de Personal, normalmente pelo menos comigo a procura vem das próprias alunas da academia, que querem é praticar o que estão aprendendo, mas sair na noite para dançar mesmo que se tenha um personal contratado não é o mesmo que estar num bailinho da academia onde alí se está no mundo da dança, lá fora a situação é outra, até mesmo as músicas e rítmos são muito diversificados e é aí que entra o conhecimento e principalemente a sensibilidade do personal, que deve fazer fluir a dança com prazer e descompromissado com a técnica das aulas, mas aplicando descontraidamente os passos estudados, livrando assim a partner da tensão natural de estar dançando com um profissional.

    O trabalho do personal é tornar prazerosa a dança e o divertimento, que é isso que todos procuram na dança.

    Particularmente não sou a favor de personal dar aulas particulares, a menos que ele professor , pois uma aula não é só ensinar passos, e dar aulas simplesmente por dar ou pelo dinheiro, particularmente acho até anti-ético, pois se a pessoa é uma aluna da academia por exemplo, a aluna deve ser da academia, que normalmente tem seus professores contratados para este fim.

    Finalizando, o trabalho do personal deve ser sim reconhecido, mas deve-se ter um cuidado para não banalizar, porque para se chegar a personal, tem que se ter muito estudo, prática e dedicação com a Dança.

    E viva a Dança, viva a Dança de Salão.

    Wagner Chapéu-BH

  7. Gostei do texto Leandro.
    Mas, “venhamos e convenhamos” que, se uma aluna de um escola de dança passa a fazer aula particular com um personal dancer “não apito” a dar aulas, é pq tem algo de errado com a escola de dança(professor). Já fui personal dancer em SP e o que eu mais escutei das contratantes era a falta de interesse de seus professores sobre o interesse delas… Divertir,aprender,dançar,exercitar e conhecer pessoas… Ai o professor quer enche-la de tecnicas que para elas, naquele momento não interessa. E por isso acabam contratando pessoas que façam exatamente o que elas querem e pronto.

  8. Mais um artigo para servir de reflexão…
    Vejo muita coerência em vários pontos citados nos comentários anteriores.
    Entendo que pode haver uma facilitação ou uma máscara para aquelas mulheres que dançam apenas com o Personal Dancer, pois este provavelmente irá facilitar sua vida no baile, tendo em vista que não é um local apropriado para o ensino e para que a festa seja o mais agradável possível.
    Acho também que nem todo Personal está apto a dar aulas, mesmo as individuais, assim como nem todo exímio Dançarino é um exímio Professor.
    Para aqueles que estão aptos a dar aulas, entendo que esses devem ser os maiores incentivadores para que suas alunas façam aulas em grupo é não só individuais, assim como dançar com pessoas diferentes(conforme relatado pela Carmen), pois o âmbito social da Dança de salão é parte primordial para melhoria da dança(auto estima, desenvoltura e etc).
    Acho também que além da parte técnica, tem que ser considerado o objetivo de cada aluna, se o objetivo é somente diversão e alivio do Stress e etc, este profissional irá cumprir dignamente seu papel durante as festas…
    Além de concordar com a afirmativa que este profissional veio para ficar, acredito que o mesmo deve FICAR, pois o que pode prejudicar a dança de salão em si, são os “Profissionais” que não tem uma boa personalidade e de respeito com a dança.

  9. O texto sobre personal dancer aqui exposto é bom. Mas tenho algumas ressalvas. Eu como professor de educação física e de dança de salão, com posgraduação em dança e ainda atuando como personal dancer gosto da idéia que o Personal Dancer pode tanto ser o dançarino como o professor particular. Mas saliento que o texto de Milton tende a ser errôneo quando qualifica que mulher que tenha personal dancer dance com menos técnica. É notorio o numero maior de mulheres nas aulas de dança e as que procuram esse serviço tem como preocupação inicial o aprimoramente do que foi aprendido nas aulas conjuntamente com o lazer. Agora querer que essas vão ao baile só quando sua dança estiver omais correta possivel é querer um show ou uma apresentação e não um baile para diversão.
    São tantos pontos que eu poderia escrever outro artigo por aqui. E é isso que farei no meu blog, motivado pela matéria.
    Quem quiser é só chegar lá…

  10. Carmen Silva 03/11/2011

    Concordo plenamente com a Sonia,infelismente alguns alunos tornan-se professores com muita facilidade e até alguns bailarinos acabam monopolizando a dança de salão que é muito mais prazerosa quando realizada em grupo.Penso que em algumas situações se faz necessário um pouco mais de privacidade como no caso de noivos em preparação para o casamento mas muitas vezes o que se ve são pessoas extremamente timidas com dificuldade em se socializar e que procuram estes profissionais.No dia em que estas pessoas descobrirem o prazer de dançar em grupo vão se arrepender por terem se escondido por tanto tempo.

  11. Cristovão, tenho uma opinião sobre essa questão, acho que vai além de só dançar, uma das coisa que sinto é que os bailes perderam a funçao de socialização, de conhecer novos amigos,além de deixar o baile “engessado” com pares fixos o tempo todo.Sou dançarina , dei aula de dança 13 anos e na minha opinião para nós mulheres, a troca de pares é muito importante para o desenvolvimento.da nossa dança,pares constantes tendem afazer sempre a mesma coisa, perdem a critaividade tão saudável e que fazem a beleza dos passos.
    Masss.. como já foi falado em prosa e verso..k esse profissional veio para ficar e quanto a atuação de professor particular, na minha opinião, só ser dançarino não faz de ninguem professor.A tecnica, linguagem,conhecer os movimentos do corpo, musculos etc. é que fazem a diferença.

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