Artigos, Dança & Comportamento

O mundo de uma dança…

Cada um de nós busca algo ao dançar…

Alguns querem a distração, a fuga, a sensação de viver uma realidade diferente, alternativa, como uma vida paralela que permite esquecer, por uma fração de tempo, as dores das quais não temos muitas formas de nos livrar.

Outros buscam introspecção, meditação, sentimentos que fazem o cenho franzir e, mesmo assim, trazem uma satisfação especial. Alguns dançam para se sentir mais maduros, outros para lembrar a imaturidade. Há aqueles que só querem experimentar o pairar de um momento romântico, sem muito compromisso, uma flutuação compartilhada com o parceiro. Para alguns, dançar com o outro é um meio e não um fim. Vemos no salão quem dança para afirmar seu poder de seduzir, ao outro, aos outros e a si mesmo. Tem quem quer sentir só uma euforia e quem se encontra consigo apenas dançando.

Uma parte dos dançarinos está na pista se autodesafiando, medindo, treinando e desenvolvendo as próprias capacidades físicas, intelectuais, sociais e até morais, que acabam em uso noutros mundos. Há quem obtenha da dança o mesmo que um boxeador parece obter de uma luta, independente de ganhar ou perder a disputa. Certas pessoas dançam porque querem ficar alegres para si, se divertir, só rir, rir muito, e outras, buscam explorar uma dramaticidade que torna coparticipe quem está fora do par.

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Há quem queira simplesmente passar aquele tempo de existência em um deslize quase narcótico, ou sentir outro corpo dedicado ao seu por poucos minutos, aplacando carências.

Poucos cavalheiros dançam apenas para satisfazer sua dama e o inverso é verdadeiro. Dança-se até por dinheiro ou pela sensação de pertencer a algo maior, e tudo bem. Mas são raros os que conseguem construir, do acervo de danças vividas, uma coleção de experiências múltiplas, eventualmente até simultâneas, pautadas pela ciência e pelo controle do estado emocional de cada momento e da necessidade psicológica que está na vez de ser atendida.

E a dança de salão é sim um mundo de possibilidades para os mais variados e plurais objetivos.

Cada dança nos dá algo ao ser dançada…

dance-couple-wordsAs diferentes danças oportunizam, cada uma a seu modo, a exploração de incontáveis sensações e chances de atingir metas distintas.

Algumas danças não são compatíveis com os olhos nos olhos, outras fazem a energia se retroalimentar justamente pelo contato visual. Tem dança que alguns dançam mais com pés, mais com mãos, sem dúvida também tem aquelas em que se metem pés por mãos… aquelas em que a cada segundo a força verte por uma parte diferente do corpo… Tem dança que não acontece sem toda compleição ser ativada ao mesmo tempo…

A dança que provoca um efeito num dançarino, noutro provoca o inverso ou não causa nada. Tem dança que parece de gesso ou de vidro, faz dos dançarinos bonecos rígidos e frágeis, mas mantém acesa a chama do passado, trazendo em sua estética séculos de uma história que teima em sobreviver.

Tem dança que desmonta tudo por dentro e por fora, que parece ser impossível desfrutar de verdade sem genitais. Tem dança invasiva, possessiva, de espírito siamês, que exige dama e cavalheiro grudados, amarrados, presos por uma parte do corpo todo o tempo, com troca de olhares impedida, dando espaço para vazão ao gosto pela dependência quieta que acalma alguns.

mundo-de-uma-danca_intensoE tem dança que é puro tributo à liberdade e por isto assusta, a conexão entre cavalheiro e dama é fluida, circula intensa extrapolando extremos e ligando olhos com raios, cada um tem espaço para ser o que é e, bem por isto, é a dança a dois que magicamente homenageia a individualidade em dose dupla.

Parece que cada dança tem sua natureza construída, seja culturalmente ou particularmente, para permitir que determinadas vontades privadas sejam realizadas, por regra, em público, e é aí que mora a aventura imponderável, a exploração do imaginário, a fantasia que vira verdade.

A combinação de cavalheiro, dama e da complexidade espacial é que faz o prodígio de tornar possível a plena realização de desejos escondidos, basta coragem para se entregar, a si mesmo, ao outro, ao ambiente e a música, sem perder o controle daquele finito tempo com gosto denso de eternidade

 

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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