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O legado cultural de Dominguinhos

Há pouco tempo, o Brasil perdeu um dos seus mais geniais músicos, José Domingos de Moraes, o Dominguinhos. Ele não era apenas considerado o maior sanfoneiro da história do país, mas um dos mais importantes músicos que formaram o legado de nossa cultura. Dono de uma linda e característica voz, autor de melodias que encantavam os mais diversos e importantes intérpretes da música brasileira e parceiro de outros gênios como Gilberto Gil, Chico Buarque e Djavan, Dominguinhos fez a ponte entre o forró rural do nordeste e a MPB urbana do sudeste.

Dominguinhos em apresentação com Gilberto Gil

Embora se assumisse como nordestino e se autoproclamasse um cabeça chata, Dominguinhos, através da sua música e, principalmente, abusando de seu instrumento, fez com que o forró passasse a ser visto e tocado entre outros diversos gêneros musicais do Brasil. Sua música ultrapassou barreiras que pareciam intransponíveis e, até hoje, alguns de seus baiões, xotes, arrasta-pés e forrós ousam entrar na programação das mais preconceituosas mídias contra o gênero. Muita gente gosta de suas músicas sem saber que lá está o ritmo nordestino em natura. Músicas como “Eu Só Quero Um Xodó” e “De Volta Pro Aconchego” são cantadas pelo país todo e são baiões autênticos, daqueles que Luiz Gonzaga teria adorado assinar em baixo e, mesmo assim, são executados em qualquer rádio do país.

Para a dança de salão, Dominguinhos é ou deveria ser presença constante, pois apesar de suas harmonias e melodias serem sofisticadas, sempre foram marcadas para dançar, para rodopiar pelo salão, dentro da simplicidade com que ele enxergava sua vida, sua obra e sua imagem, pois o que gostava mesmo era daquilo que aprendeu com seu grande mestre o Rei do Baião, Gonzaga. Dominguinhos podia tocar com músicos de jazz, rock, com uma orquestra sinfônica, ou apenas só, e onde quer que fosse lá estava a marcação pra levantar e dançar.

Além disso, para quem não sabe, Dominguinhos era um emérito dançarino. Ele dançava todos os ritmos nordestinos com a leveza de um verdadeiro pé de valsa, no caso pé de forró, pé de baião, pé de coco, pé de xote e pé de arrasta-pé e, principalmente, pé de xaxado, como na verdadeira aula que ele e Gonzaga dão neste vídeo:

Dominguinhos tocava nas mais badaladas arenas do Brasil e só não tocava nas do mundo todo, porque morria de medo de andar de avião. Aqui, em terras tupiniquins, passou pelos teatros e casas de shows mais disputadas e concorridas, mas o que ele gostava mesmo, independente do lugar que fosse, era colocar seu chapéu de couro e abrir o fole para fazer dançar com seus forrós. Podia ser no carnaval, em festa de São João ou festival de jazz, o que ele gostava era de fazer o povo dançar.

Como o artigo é para Dança em Pauta, fica aqui a sugestão: sempre que o tema for um dos ritmos nordestinos escolham ao menos uma música deste que sempre fez o povo dançar, com músicas lindas, dançantes, letras bonitas e levadas variadas, sempre com aquela alegria contagiante de quem era gênio músico e gênio como ser humano.

 

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Empresário e produtor no meio cultural, envolvido com o forró desde 1991, proprietário do Canto da Ema, uma das principais casas de forró de São Paulo. Criador do Dia Nacional do Forró (13 de dezembro). É apresentador e produtor do programa “Vira e Mexe”, na Rádio USP 93,7 FM, direcionado ao ritmo nordestino. O cantor Dominguinhos era seu parceiro na apresentação do programa.

1 Comment

  1. Realmente, um grande músico responsável por uma parcela importante do nosso legado cultural. Muito importante se fazer esta referência e reverência a este grande mestre neste site dedicado a dança. Acredito que o conhecimento musical – e aqui digo não apenas de saber ouvir uma melodia, mas saber das origens de determinada música ou ritmo – pode incrementar em muito a performance de um dançarino, pois nos permite compreender melhor o sentimento implícito em cada nota.

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