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O diálogo entre música e dança de salão

Música e dança, embora sejam diferentes formas de expressão de idéias e sentimentos humanos, são duas modalidades artísticas cuja história tem inúmeras interfaces. Talvez porque, em vários momentos, possam comunicar os mesmos desejos e impressões de forma a reforçá-los ou, até mesmo, ampliá-los. As danças de salão, que datam da Idade Média, sofreram profundas variações na sua prática em relação a este início, assim como as músicas utilizadas para sua execução. Desta forma, considerando o contexto atual, em que a dança de salão vem ganhando espaço no meio acadêmico, acredito serem propícias algumas reflexões sobre o tema.

Devemos começar avaliando como música e dança de salão interagem. É de fato relevante que um dançarino de salão e um professor de dança de salão tenham algum conhecimento sobre música? Em caso afirmativo, quais aspectos do ensino musical poderiam contribuir para a formação destes profissionais e quais atividades seriam possíveis de se realizar? Estes conhecimentos musicais poderiam estender-se aos alunos que procuram a dança de salão por lazer?

De fato, estas questões têm permeado algumas discussões e iniciativas entre profissionais desta área, especialmente aqueles que preferem trabalhar com seus alunos uma prática dançante mais musical, ou seja, aquela em que a escolha de passos e de sua dinâmica de execução segue as variações rítmicas e melódicas da música que está sendo dançada, a qual deixa de ser somente um mero pano de fundo para a execução de uma sequência de passos e passa a ser de fato vivificada pela dança.

Separei aqui, frases de alguns autores que ressaltam a importância deste diálogo entre música e dança:

  • “A música busca a totalidade do corpo para expressar-se”, María Fux, no livro Dançaterapia, 1988.
  • “A dança é a música do corpo” e “Dança de salão é a arte de interpretar a música através de movimentos dos corpos de um casal, quando o cavalheiro atrai a dama para realizar esses movimentos”, Maristela Zamoner, no livro Dança de salão – a caminho da licenciatura.
  • “A música é um fenômeno corporal de grande receptividade, é muito grande a influência exercida pela música no ser humano, desde um bebê que ao mínimo som já se movimenta”, Érica Verderi, no artigo Música/Ritmo/Movimento.
  • “A educação musical deve ser considerada como uma contribuição sistemática ao processo de desenvolvimento integral (bio-psicossocial) do ser humano”, Violeta Hemsy de Gainza, no livro Estudos de psicopegadogia musical.

Já presenciei algumas discussões e iniciativas de profissionais de dança de salão sobre o tema e, por carregar uma bagagem de 13 anos de formação técnica-musical, considero importante estudarmos mais a fundo a relação entre a dança e a música. Tive a oportunidade de me aprofundar mais no assunto durante a realização de minha monografia com o tema “Música e dança de salão: caminhos, interfaces e perspectivas”, desenvolvida na primeira turma do curso de Pós-graduação em ‘Teoria e Movimento da Dança, com Ênfase em Danças de Salão’ da Faculdade Metropolitana de Curitiba (FAMEC).

O resultado dessa pesquisa de monografia, somado à vivência diária ensinando dança de salão e a realização de oficinas de ritmo e musicalidade com alunos e professores de dança de salão, sugere o exposto a seguir. Um certo grau de conhecimento sobre música, como saber o que é pulso ou tempo musical, compasso, tempo forte, andamento, frase musical, entre outros, podem melhor instrumentalizar o professor de dança de salão a trabalhar as questões de ritmo e musicalidade com seus alunos. A essência deste conhecimento pode ser, inclusive, repassada aos mesmos de maneira não excessivamente técnica ou maçante, mas permitindo que eles adquiram a habilidade de reconhecer alguns elementos importantes na música, embora sem necessariamente saber o nome técnico de cada um e o conceito mais específico ou abstrato que o caracteriza.

A título de exemplo da utilidade do conceito musical na dança, podemos citar a possibilidade de identificar o tempo forte no compasso musical. Isso possibilita que o professor ensine aos alunos a situar o passo básico a partir de uma dada relação com este tempo. Quando surge um passo de efeito, como uma pose de bolero, será fácil associar o “momento da foto da pose” com uma parada musical que, em grande parte das músicas, vai coincidir com o tempo forte. Além dos aspectos rítmicos já citados, o conhecimento do que é uma frase musical também pode embasar o aprendizado de uma prática dançante mais interpretativa da melodia da música.

Pequenas oficinas de ritmo e musicalidade podem incluir ainda interessantes descrições históricas dos ritmos a serem trabalhados em seu caráter, além de exercícios que trabalhem a sensibilidade auditiva dos alunos (ex.: reconhecer e fazer movimentos que identifiquem um som específico em uma música) ou que integrem, simultaneamente, ritmo, coordenação motora e musicalidade (ex.: caminhar no tempo forte e erguer os braços em dado aspecto melódico, alterar os movimentos solicitados utilizando-se diferentes partes do corpo, etc).

Não busco neste artigo responder e fechar todos os aspectos relativos ao tema proposto, mas sim expor alguns deles para suscitar a reflexão e a discussão, em busca de uma prática da dança de salão mais eficiente aos professores e, consciente e prazerosa aos alunos, na qual haja uma profunda e, talvez, poética integração entre essas duas incríveis formas de linguagem que são a música e a dança. Neste sentido coloco-me a disposição para eventuais dúvidas, esclarecimentos e informações que forem necessárias.

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* Por Ana Maria Caliman Filadelfi
Especialista em dança de salão pela FAMEC; técnica musical em piano; mestre e doutora em Biologia pela USP, é docente do Departamento de Fisiologia do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Praticante de dança de salão desde 1993, atualmente é professora na Oito Tempos Escola de Dança, em Curitiba.

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7 Comments

  1. Este belo artigo me lembra uma vez em intervalo de um baile, quando um dos presentes chegou até a mim perguntando se eu era músico, maravilhado por nos ver dançar assim tão dentro da música.
    Isso me fez pensar que o era para ser o básico, muitas vezes se torna excesão, o que chamo de dançar a música.

  2. Oi Ana parabéns pelo artigo você tocou em um ponto muito interessante que é aplicar conhecimento musical na dança
    ao meu ver todas as pessoas que dançam deveriam ter conhecimento musical!Agora gostaria de saber como fasso
    para obter conhecimento musical e como aplicar estes conhecimentos na minha dança,obrigado boa noite!!!!

  3. Oi Ana, super interesante sua matéria, sou da dança de salao e outros ritmos, mas para mim existe uma grande diferença entre fazer passos e dançar, dançar conforme a musica, para mim e dançar com o coração, e acredito piamente que só da para fazer isto tendo musicalidade, e disto que eu estou a procura, pena que vc nao mora em Sao Paulo, Valeu e Parabéns, muito obrigado pelo artigo.

  4. Oi Ana, muito interessante seu artigo. Não sou professor de dança de salão, mas como praticante dessa arte filio-me a corrente que defende o ensino da musica junto com os passos e técnicas da dança. A Dança sem uma boa compreensão musical não é dança é ginastica.

  5. Ao meu ver, essas duas artes (dança e música) não vivem separadas. Quando se escuta uma música, o corpo quer acompanhar… quando se quer dançar, coloca-se uma música.

    Este é um ótimo tema para discussão!

    Sou super a favor do uso da música na dança. A música mexe com os sentidos, relaxa, agita, trás alegrias e tristezas. Então porque não colocar essas emoções em nossa dança?!

    Dançar fazendo vários passos é maravilhoso, concordo. Mas dançar com a alma é prazeroso, liberta o nosso ser interior e nos leva a um mundo fascinante, o magnífico mundo da arte!!!

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