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O diálogo dançante da dama contemporânea

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Cada dança, cada aula que fazemos, coloca nosso corpo em novas discussões e pontos de vista. O contato com outras pessoas, sejam elas profissionais ou alunos, influi em nossa trajetória, colaborando para uma busca corporal individual e única. Tornar-me uma dama na dança de salão tem sido um trabalho árduo e ser bailarina de outras modalidades nunca representou um atalho para este fim.

Tudo começou quando, de repente, na época de faculdade, deixei de sair para dançar sem compromisso com os amigos da dança de salão e passei a trabalhar dentro de uma escola especializada nesta técnica.

Então, começa minha trajetória da Dama estágio 1:

Entender e aceitar que outra pessoa iria escolher e planejar meu movimento. Mas depois de tanto tempo organizando minhas intenções, escolhendo e decidindo meus caminhos e sensações, como fazer isso?

Foi um longo caminho até permitir e entregar minhas possibilidades corporais para que a ideia de outra pessoa se realizasse. Mas então, quando comecei a me acostumar com esta realidade, veio o novo desafio: tornei-me professora de dança de salão e passei a dar aulas com um grande e experiente cavalheiro, Cristovão Christianis. Além de atender às movimentações solicitadas por ele, o que já era bem difícil, deveria ser uma dama charmosa e fazer muitos enfeites durante o tempo em que realizava os passos.

E nasce a Dama estágio 2:

Mas quando realizar o enfeite? Que enfeite combina mais com cada ritmo? E se eu bater nele? E se atrapalhar?

Minha saída foi buscar referências para os tais enfeites de braços que me eram pedidos. Porém, infelizmente, para estar prontamente à disposição do cavalheiro, a maioria das damas não usava tantos enfeites. Então, o caminho foi juntar algumas informações aqui e ali e uni-las à experiência corporal que eu trazia de outras técnicas.

Eu estava encantada com esta nova possibilidade! Podia finalmente me expressar, nem que fosse só com parte do meu corpo, realizando aquilo que eu realmente tinha vontade. Então, quando vi esta possibilidade, saí feito louca, aproveitando todos os momentos como se fosse a última dança da minha vida, usando todos os enfeites de uma só vez.

Neste momento, apareceu uma dama importante em minha vida: Alexandra Kirinus. Ela era uma referência de dama experiente e charmosa, além de linda, e todos os cavalheiros gostavam de dançar com ela. Mas não era minha professora e nos conhecíamos apenas dos congressos e encontros de dança. Em uma aula no curso de professores do Jaime Arôxa, ela me viu dançando e me disse uma das frases mais importantes para o estágio 2:

“Você já é naturalmente bonita dançando, não precisa enfeitar tanto assim!”.

Nossa, como eu precisava daquele conselho! Então entendi um dos conceitos que uso até hoje em minhas aulas: escolha bem o enfeite para que ele realmente seja visto.

Desperta a Dama Estágio 3:

As descobertas foram continuando até mais uma pessoa entrar em minha vida para despertar outro estágio: meu parceiro Jall Martins.

Ele é um cavalheiro criativo e que gosta muito de ver a dama dançando. Por conta disso, passou a gerar mais espaço para que eu pudesse finalizar um passo e aproveitar melhor determinada parte da música. Entre uma movimentação e outra, gerava um “silêncio” na condução que retornava assim que eu comunicasse a finalização da minha ideia. Esta forma de nos relacionar foi ampliando as possibilidades para a utilização de diferentes partes do meu corpo e, assim, passei a expressar o que sentia e ouvia de forma mais criativa.

Mas isso ainda não era o bastante. Em vários momentos, principalmente quando estava com muito contato com o cavalheiro ou durante determinada movimentação, eu sentia uma vontade incontrolável de dizer ao cavalheiro: “calma! Espere só mais um pouquinho que vou terminar ou prolongar este movimento e então você pode continuar!”. Ou então: “tive uma ideia, posso voltar girando ou em outra posição em relação a você depois deste movimento!”.

A partir da intimidade que fomos criando ao dançarmos juntos e também contando com minha experiência em conduzir (sim, pois como professora, temos que dominar os dois papéis na dança), comecei a pedir este espaço corporalmente ao meu cavalheiro. Ele, muito atento ao que eu vinha fazendo, começou a entender e reaproveitar as posições geradas por mim.

Se instala a Dama estágio 4:

Os movimentos com meu parceiro foram se transformando em um diálogo dançante, onde eu podia me expressar, além de sentir. Um novo estágio havia se instalado em minha dança!

Nossa dança se tornou mais completa e também mais sensitiva. Menos organizada a partir dos passos e mais estimulada pelo que estávamos sentindo da música, do corpo do outro, do próprio corpo. Porém, minha felicidade durou pouco. Comecei a viajar para ministrar aulas e, ao dançar com outros cavalheiros, descobri que conseguia no máximo ser uma dama 2 e, muitas vezes, apenas a dama 1. Foi muito frustrante e quase pensei que estava tendo com meu parceiro um diálogo dançante que era apenas possível para nós dois.

Foi aí que encontrei dois grandes cavalheiros que, há algum tempo, não se contentavam mais com damas que atendiam a tudo o que eles pediam, tecnicamente perfeitas, até com um bom repertório de enfeites, porém sem gerar desafio a sua dança. Lucas Bittencourt e Fábio Reis me encontraram nessa fase e com eles passei a questionar se isso tudo era realmente possível.

Para explicar a eles o que já vinha fazendo com meu parceiro, tive que organizar esta ideia de forma mais clara e didática e surgiram então, e por enquanto, os 4 estágios de relação com o par:

  • Estágio 1
    Cavalheiro: conduz todas as movimentações para a dama sem variações.
    Dama: executa o que o cavalheiro sugerir, sem enfeites.
  • Estágio 2
    Cavalheiro: conduz, criando variações (modificações nos contatos, direções e/ou dinâmicas).
    Dama: executa a movimentação proposta pelo cavalheiro, enfeitando com as partes do corpo que estiverem disponíveis, sem modificar o tempo sugerido.
  • Estágio 3
    Cavalheiro: em determinadas movimentações, pode gerar mais tempo para os caminhos e enfeites da dama. Este tempo proposto pelo cavalheiro se dá através de um “silêncio de condução”, para que ela tenha liberdade de executar a sua ideia.
    Dama: identifica o início deste “silêncio” de condução, aproveita o tempo proposto, ampliando suas possibilidades de enfeites, e responde ao retorno de condução do cavalheiro.
  • Estágio 4
    Dama: interfere na ideia do cavalheiro, pedindo mais tempo e/ou modificando o caminho proposto inicialmente. Deve deixar claro o momento em que finaliza sua ideia, retornando a comunicação para ele.
    Cavalheiro: percebe e atende as solicitações da dama, retomando a condução ao final da ideia dela. Deve estar preparado para adaptar e modificar sua ideia inicial, aproveitando a movimentação sugerida pela dama.

Esta visão de comunicação durante a dança tem sido aplicada em todas as aulas que venho ministrando. Alunos de diferentes níveis, de turmas regulares ou workshops, têm experimentado e discutido estes conceitos, acrescentando suas vivências e experiências corporais ao trabalho.

É importante ressaltar que esta separação é apenas para fins didáticos, pois durante a dança, estes estágios acontecem de maneira natural, sem seguir uma ordem definida e de acordo com a experiência e troca do casal.

Não tenho a pretensão de dizer que criei algo novo. Algumas técnicas como o West Coast Swing e o Tango já utilizam conceitos que levam a uma forma mais interativa de condução e resposta. Também tenho encontrado profissionais que dividem as mesmas inquietudes em outras cidades e escolas. O fato é que, muitas danças e questionamentos depois, estou cada dia mais certa de que isso é possível a todos e que é esta forma de dançar que mais me completa.

Acredito que estamos caminhando na construção de um diferente diálogo dançante, com o início da conversa ainda proposto pelo cavalheiro. Porém, a dama atual, com toda sua beleza e sensibilidade, participa desta conversa muito mais ativamente, não apenas respondendo. Essa dama também tem muito a dizer sobre ela mesma, sobre ele e sobre os dois, seja através dos seus enfeites, da sua forma de ouvir a música ou de toda a expressividade do seu corpo!

*Por Sheila Santos
É graduada em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná; especialista em Danças de Salão pela FAMEC; proprietária e professora da Oito Tempos Dança de Salão – Unidade Curitiba, e coreógrafa do grupo de dança da escola. Desenvolve trabalho com foco em Técnicas para Damas, área em que já ministrou workshops no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais, além do Cruzeiro Tango e Milonga, da Costa Cruzeiros.

Fotos: Daniel Tortora

Veja também:
E se as damas conduzissem?

 

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18 Comments

  1. Dança de Salão: O último bastião machista (ou submisso)?

    Não precisamos ir longe no tempo, algumas décadas atrás a relação homem x mulher era de domínio e obediência (fatores de natureza cultural, social, econômica e política). Naquele tipo de relação cabia ao homem decidir (pensar) e a mulher apenas obedecer.
    Estas supostas “diferenças” entre homem e mulher, diminuiram muito após a segunda onda do feminismo, que começou no inicio dos anos de 1960.
    Hoje a mulher participa ativamente das atividades sociais, políticas (temos uma presidente da república), culturais e econômincas, dividindo com o homem direitos, deveres e responsabilidades. Aquilo que era monólogo transformou-se em diálogo.
    Na dança de salão ainda vivemos naqueles tempos em que a mulher era submissa, basta ver o que é disseminado nas academias de dança (com raras e honrosas exceções): O cavalheiro conduz e cabe a dama obedecer.
    Tive a sorte de ter um excelente professor da dança, cujo princípio era: O cavalheiro (ou a dama) propõe, cabe ao outro aceitar ou não, caso não, apresentar uma contraproposta, e assim por diante … Para que isso seja possível ambos tem que “ouvir” o “falar” do outro.
    Sendo a dança de salão uma atividade social, ela não deveria refletir os aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos atuais? Quando a dança de salão deixará de ser um monólogo e passará a ser um diálogo?

  2. Obrigada Mychelle…também acredito que precisamos repensar nossa forma de ensinar para gerar cavalheiros e damas que realmente se comunicam dançando. Homens e mulheres abertos às novas experiencias corporais que esta prática, bem estruturada, pode trazer às suas vidas. Penso que a dança de salão e seus profissionais estão passando por um momento importante de reflexão e reformulação e em breve colheremos os frutos disso. Parabéns pelo seu artigo e estou a disposição para trocar idéias e descobertas. Grande abraço

  3. Seu texto é divino. O curioso é que “vendemos” isso aos alunos, quando dizemos que a dança a dois é um diálogo, o cavalheiro fala e a dama responde a pergunta com o corpo (aprendi/ensino assim), mas na hora de dançar com quem tenho intimidade sou Dama 4. Na verdade falamos aos alunos uma coisa, mas na prática ensinamos outra, pedimos criatividade e na verdade ensinamos perguntas com respostas pré determinadas. Por mais que sempre estamos mostrando ligações diferentes, falamos de respostas da dama pré determinadas…escrevi um pouco sobre a autonomia do aluno em artigo de conclusão de Curso de Extensão. http://dancasalaojoinville.com/blog/2012/04/novas-metodologias-no-ensino-da-danca-de-salao/

  4. Obrigada Sabrina!!! Lindo seu comentário…. Estamos semeando aos pouquinhos e acredito de verdade nesta relação de harmonia e prazer na dança!!! Renata é uma das minhas inspirações como dama….Conto com vc, experimentando e compartilhando suas descobertas tambem! Grande beijo

  5. Grande Sheila! …..filosofando sobre a dança. Seus estágios é pura filosofia sobre como nós damas nos sentimos em relação a dança e ao par. Seria maravilhoso semear estes conceitos para termos cada vez mais cavalheiros e damas interagindo assim. Me identifiquei muito com muitas vezes ficarmos limitadas ao estágio 1 ou 2, mesmo tendo uma possibilidade técnica muito mais criativa. A Renata Peçanha neste último Baila Costão fez este exercício durante a aula, das tais pausas, foi maravilhoso! Tomara que este movimento cresça cada vez mais, parabéns!

  6. Muito legal Sheila!!! A dança é muito mais prazerosa enquanto diálogo! A interação com o par faz com que cada dança seja nova, gerando mais espaço e a liberdade de expressão. Enquanto a dama está ‘interferindo’ na comunicação ela gera uma reação e um estímulo ao cavalheiro e este por consequência devolve para a dama e ambos passam a criar assim a história daquela dança! Quanto mais espaço de expressão a dança a dois permitir, menos mecânica e mais viva ela se apresenta!
    Sucesso! bjo.

  7. Este texto traduziu fielmente o que venho sentindo quando danço. Estou precisando encontrar um parceiro de dança mais sensível e atento aos anseios de uma dama em busca de um algo mais. Gostaria muito de conhecer seu trabalho. Obrigada.

  8. Ah Izabela! Muito Obrigada! É um retorno especial, vindo de uma experiente profissional e também pensadora da dança!!
    Acredito que as experiencias corporais com as técnicas de Contato Improvisação, que recebi na graduação, contribuíram muito para este pensamento e corpo atual.
    Precisamos nos encontrar e conversar mais!
    Grande beijo!

  9. Lindo texto, Sheila! Encorajador! Claro e de leitura prazerosa.
    Você descreve com perfeição as etapas deste processo vivenciado, que tem muito em comum com a técnica de Contato Improvisação. Ela já é considerada uma dança social e está baseada no toque e na expansão das percepções. O ponto fundamental é a qualidade da parceria, a entrega e a escuta corporal.
    Muito interessante o seu processo de descoberta deste caminho. Felicitações!

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