Colunas, Dança a dois em cena

O Corpo do Salão e o Corpo do Palco

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Quando ministro cursos de criação ou composição coreográfica, costumo propor o seguinte exercício para os alunos. Coloco um xote para tocar e peço que dancem imaginando que estão em um forró bem tradicional e escurinho. Em seguida, durante a mesma música, digo que foram “teletransportados” para o palco de um grande teatro e estão sendo vistos por uma plateia lotada em que a última fila está a uns 50 metros de distância. O xote é só uma escolha, por nos dar chance de observar com mais clareza alguns pontos, mas poderia ser outro gênero como samba, bolero, tango… não é isto que importa.

Antes de continuar lendo, peço que você também faça o exercício de imaginar o que mudaria de uma situação para a outra… na sua dança, no seu corpo, no seu olhar, na sua relação com o par.

A grande maioria dos dançarinos costuma modificar de forma bem clara alguns aspectos. A dança, que antes se mantinha quase todo o tempo num abraço bem fechado, num “teatro” passa a ser executada com a maior parte dos passos em posição aberta. E, quando o abraço se mantém, torna-se bastante aberto, distante do par. O tamanho dos passos aumenta consideravelmente. A postura, que no início era até mesmo um pouco curvada, naquele estilo “funga cangote”, no segundo momento passa a ser totalmente ereta. Os alunos se justificam dizendo que precisam fazer movimentos maiores, com mais volume, para serem melhor vistos pelo público.

Precisam mesmo? Essa seria a melhor forma, a melhor solução?

Outro ponto que chama bastante a atenção é a direção do olhar. Não somente o “olhar dos olhos”, mas também o “olhar do torso”, a intenção dos gestos. Se no “forró”, os movimentos eram todos voltados para o par, no “palco” eles se voltam para um terceiro que se intromete naquela relação: o público. A cumplicidade e o aconchego do casal são perdidos em razão de um desejo de se exibirem para um terceiro. Em apresentações de dança de salão e, principalmente em competições, observam-se muitos momentos em que o olhar se volta para a plateia, ou para os jurados, normalmente após um movimento de efeito ou acrobático… E sempre com aquela expressão como que dizendo: “Viram como somos bons? Podem aplaudir!”

Na linguagem teatral podemos chamar de “quebrar a quarta parede”, esses momentos em que o bailarino/ator se relaciona diretamente com o público. Nesse caso, com o olhar, mas poderia ser com a voz, ou mesmo interagindo fisicamente. Essa quarta parede imaginária seria o limite que separa o palco, a boca de cena e os expectadores.

Precisamos mesmo utilizar desse artifício? Ou: precisamos utilizá-lo tantas vezes?

Não temos respostas exatas para as perguntas que deixei no ar. Inclusive porque cada proposta coreográfica nos leverá a situações e conclusões diferentes umas das outras. No entanto, algumas certezas eu tenho, principalmente em se tratando de propostas artísticas.

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Mimulus Cia de Dança – espetáculo Dolores

Definitivamente, não precisamos sempre olhar para o público para arrancar os melhores aplausos. Se o casal consegue criar a ilusão para o expectador de que sequer sabem que estão sendo observados; se dançam um para o outro nesse nível de cumplicidade, poderão obter menos aplausos no decorrer da atuação, porém o resultado será bem melhor ao final. E, se durante a coreografia, encontram algum momento que, por alguma razão, justifica-se um olhar para o público, deixando-o “participar” daquela gostosa relação, essa quebra da quarta parede será muito mais impactante, por não ser algo banal, feito a todo momento. E o que esse olhar comunica, pode até mesmo ser outro tipo de mensagem, menos imbuída de arrogância: “Você nem imagina, como está gostoso aqui!”.

Quanto à mudança de postura, do tipo de abraço e à utilização de passos mais abertos e movimentos maiores, o que questiono é a perda da essência do salão. Transpor a linguagem coreográfica dos salões para o palco (me refiro ao palco como podendo ser o próprio salão onde acontece uma apresentação, ou qualquer outro espaço cênico) requer adaptações, algumas mudanças na forma de se dançar. No entanto, não podemos deixar que isso nos faça abandonar a essência daquela dança. Precisamos imprimir uma maior projeção de movimentos, postura e gestos com maior volume? Muitas vezes sim… porém o limite é o momento em que descaracterizamos a essência do salão, da nossa origem.

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Mimulus Cia de Dança – espetáculo Pretérito Imperfeito.

As danças de salão são danças populares, cujos passos preservam a naturalidade do gesto cotidiano. Os movimentos autênticos e que caracterizam a dança nascem ou são criados por pessoas comuns durante os bailes; e não por bailarinos profissionais. Se esse corpo que dança uma coreografia de dança de salão, se aproxima muito mais do corpo de um bailarino clássico, por exemplo, algum equívoco foi cometido durante o processo. Os movimentos da dança clássica, em oposição ao que estamos dizendo, são pensados desde a primeira aula, para serem bem vistos pela plateia considerando-se projeção e direção. Na dança de salão isso não existe… os movimentos mais autênticos surgem e são intrínsecos àquela relação a dois, jamais pensando em um terceiro. A técnica para a boa execução advém da satisfação de ambos que compõem o casal e do respeito à dinâmica do baile. Nunca pensando em um espectador.

Nesse ponto reside a grande dificuldade em criar coreografias com a dança de salão; e em formar bailarinos para executar essa técnica… Como ser bem visto até mesmo pela última fila da plateia de um teatro, sem perder a naturalidade e a essência das nossas origens? Esse corpo e essa interpretação estariam num lugar intermediário entre dois extremos: o do bailarino clássico e o do dançarino de salão. Mas como chegar à medida ideal?

Fotos: Guto Muniz/divulgação

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Professor, coreógrafo e bailarino, dirige a Associação Cultural Mimulus, a Mimulus Cia. de Dança e a Mimulus Escola de Dança desde 1990, desenvolvendo extenso trabalho de pesquisa das danças a dois em seus países de origem. Criando uma linguagem própria e inovadora, que se renova a cada espetáculo, alcançou prêmios e críticas favoráveis em todo o mundo. Desenvolve também trabalhos como professor e coreógrafo de outros grupos profissionais de dança e teatro, destacando-se: São Paulo Companhia de Dança, Balé Teatro Castro Alves, G2 do Teatro Guaíra, Grupo Galpão, Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi, Cia. Burlantins, Cia. Sociedade Masculina e Cia. de Dança de Minas Gerais.

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