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O abraço saudável na dança de salão

Muitas informações são transmitidas através da postura enquanto dançamos. O alinhamento corporal fala sobre o quanto estamos à vontade para realizar aquele movimento, se acumulamos tensões ou lesões, se queremos transmitir alguma mensagem sobre o caráter daquela dança (alegria, sofrimento, introspecção, sensualidade, etc), e tantas outras informações. Na dança de salão, pela particularidade de dançarmos aos pares, nossa postura transforma e é transformada pela postura do outro, informando ao observador sobre nossa harmonia com o par.

É sabido que dançar é um excelente exercício. Mas cuidado: as aulas de dança de salão, a priori, não trabalham especificamente a postura correta. Um aluno que já chegar ao programa com erros de postura e não receber uma atenção especial do professor pode permanecer no erro, e pode até mesmo desenvolver-se tecnicamente com a postura errada. Ou seja, pode aprender os passos e até chegar a conduzir ou ser conduzido relativamente bem, sem corrigir seus erros posturais prévios. Com o tempo, este aluno apresenta maior risco de problemas musculoesqueléticos (contraturas musculares, tendinites, bursites, dores compensatórias, lesões por esforço repetitivo, etc) e pode ter dificuldades para continuar a evoluir tecnicamente.

Um dos maiores desafios posturais em dança de salão é adaptar-se à altura de diferentes parceiros. A prática da dança de salão proporciona um saudável exercício de sociabilidade ao estimular a troca de condução entre damas e cavalheiros em situação de aulas ou bailes.

Como, então, manter uma dança saudável, com uma bela postura e uma técnica correta, adaptando-se a parceiros de altura diferente da nossa?

Escolhemos algumas situações ilustrativas para fazer uma breve análise:


Quando o homem é bem mais alto que a mulher:

Há uma tendência natural de o homem curvar-se, e da mulher “subir os ombros” (aproximar os ombros das orelhas, tensionando os músculos dos ombros e pescoço). É uma tentativa de aproximar o abraço, mas pode gerar um erro de colocação de centro de gravidade, principalmente do homem. A mulher por sua vez, fica mais propensa a contraturas de musculatura de ombros e cervical que, se não corrigidas, podem levar a dores, problemas compressivos e limitação de movimentos num futuro próximo. O homem, ao curvar-se, bloqueia a correta projeção do tórax, o que pode levar a dificuldades de compreensão à dama, sobretudo em ritmos em que o movimento do tronco do cavalheiro determina a condução (como no tango, por exemplo). O desejável, quando o cavalheiro é bem mais alto que a dama, é que ele permaneça com a postura correta, sem curvar-se. Ela, por sua vez, não buscará a escápula (parte de trás do ombro) do parceiro com a mão esquerda, mas permitirá que seu braço esquerdo deslize pelo braço direito do cavalheiro, acomodando o ombro na posição correta e confortável. Já as mãos do lado aberto do abraço (esquerda do homem, direita da mulher) devem ficar posicionadas na altura máxima do ombro da mulher. Para estas adaptações, é bem provável que o homem deverá baixar seu braço esquerdo, e modificar a tomada do braço direito, não chegando até o meio das costas da mulher. A foto número 1 ao lado ilustra uma boa postura do casal, seguindo estas observações. O braço esquerdo do homem poderia ainda estar um pouco mais abaixo, na altura do ombro da mulher, para maior conforto. Já na foto 2, o mesmo casal, em um momento de movimentação mais aberta, exibe uma discreta curvatura dorsal no homem (que chamamos de hipercifose), e uma discreta elevação de ombros na mulher. Deslizar os braços, flexibilizando e adaptando o abraço, seria uma boa opção corretiva neste caso.

“Subir os ombros”, em qualquer estilo de dança, é por si só um indicativo de problemas técnicos. Quando não temos tônus suficiente em algum segmento corporal requisitado, imediatamente os ombros aproximam-se das orelhas, deixando clara esta deficiência. É uma reação corporal muscular inconsciente. Esteticamente, vê-se uma dança de fluxo truncado, e o pescoço e o colo perdem sua força de projeção da imagem do bailarino. Com o tempo, este enrijecimento dos músculos e o mau alinhamento das vértebras cervicais (região do pescoço) podem levar a um problema chamado cervicobraquialgia. Nesta condição, os nervos que saem dos intervalos entre uma vértebra cervical e outra ficam comprimidos, gerando sintomas de dor no pescoço, formigamento e perda de força nos braços (e até nas mãos, às vezes). Este problema tem correção, e ela passa pelo fortalecimento de diversos grupos musculares e pela reeducação postural.

Quando a mulher é mais alta que o homem:

Esta condição pode acontecer naturalmente, ou pelo uso de sapatos de salto. Uma parceira que na aula era mais baixa, ou da mesma altura do homem, ultrapassa a altura do parceiro ao optar por calçar saltos. Isto não é um problema, nem é obrigatório às mulheres altas abrirem mão dos saltos, como se vê frequentemente em bailes. Mas algumas regras de postura devem ser obervadas pelo par.

Quando a dama é apenas ligeiramente mais alta que o cavalheiro temos, na realidade, uma das situações mais confortáveis para o posicionamento do casal. O ombro dela fica bem colocado, os troncos de ambos ficam próximos e bem conectados para a condução, e o lado aberto do abraço não necessita grandes adaptações. Veja as fotos abaixo (com evidente satisfação dos pares!):

Quando a mulher é muito mais alta que o homem, corre-se o risco de perder a conexão do abraço. Cabe lembrar que, nestes casos, a proximidade do rosto do cavalheiro à região do busto da dama pode representar algum constrangimento, o que faz com que imediatamente o casal abra o abraço, mesmo sem perceber. Isto não é, por si só, um problema, uma vez que dançar com o abraço aberto pode também ser uma opção de estilo ou de momento (no aprendizado, é comum manter-se o abraço mais aberto até o desenvolvimento de uma técnica mais harmônica entre o par). Assim, mesmo optando-se por um abraço mais aberto, os braços do lado fechado devem manter-se conectados e tônicos, como se o braço do cavalheiro fosse um “trilho” para o braço da mulher. Desta forma, não se perde esta importante estrutura de condução. E quando a mulher mais alta e seu parceiro optam pelo abraço fechado, o braço esquerdo da mulher poderá avançar mais sobre o dorso de seu cavalheiro, alcançando até mesmo o ombro esquerdo dele.

Lembramos que as fotos dos casais de alturas diferentes analisadas neste artigo foram obtidas com a autorização dos dançarinos, numa situação real de baile, não foram simulações, nem idealizações. E as observações feitas no texto tem enfoque biomecânico, de caráter educativo e ilustrativo, não crítico. Cabe lembrar também que, num baile ou mesmo na aula de dança, podemos ter momentos de boa postura e momentos em que “esquecemos” ou priorizamos outros aspectos da aprendizagem motora. A atenção deve ser constante, e os bons hábitos posturais e técnicos incrustam-se lentamente em nossos corpos. Paciência e preparação física também ajudam muito.

Guardadas as particularidades de cada ritmo (técnica, caráter, estilo), um bom abraço deve:

  • permitir uma boa condução e resposta;
  • evitar posturas viciosas que possam ocasionar danos à saúde;
  • ser confortável;
  • mostrar uma “tranquilidade corporal”, desenvoltura e elegância;
  • mostrar um estado de harmonia musculoesquelética do dançarino com ele mesmo e com seu par.

Dentro disto, muitas adaptações são possíveis. Afinal, como dizem os maiores mestres em dança, não há verdades absolutas, sempre estamos nos descobrindo, nos adaptando e melhorando nossa dança. Convide seu par, encontre o melhor abraço entre vocês e divirtam-se!

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta

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LEITURA RECOMENDADA:

  • ARÃO, J. J. S. ALTERAÇÕES POSTURAIS E ALGIAS DA COLUNA VERTEBRAL EM INGRESSANTES NA PRÁTICA ESPORTIVA. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Saúde, Universidade Católica de Goiás. Goiânia, 2007.
  • FONSECA, C. C. ESQUEMA CORPORAL, IMAGEM CORPORAL E ASPECTOS MOTIVACIONAIS NA DANÇA DE SALÃO. Dissertação de Mestrado em Educação Física. Área de Concentração: Bases Biodinâmicas da Atividade Física. Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, 2008.
  • GIRÓN, E. C. et al. EFFECTS OF KINESTHETIC VERSUS VISUAL IMAGERY PRACTICE ON TWO TECHNICAL DANCE MOVEMENTS: A PILOT STUDY. J Dance Med Sci; 16(1): 36-8, 2012 Mar.
  • KRASNOW, D. et al. BIOMECHANICAL RESEARCH IN DANCE: A LITERATURE REVIEW. Med Probl Perform Art:26(1): 3-23, 2011 Mar.
  • SILVEIRA, R. R. DANÇA DE SALÃO EM UMA VISÃO METODOLÓGICA EM RELAÇÃO À ATIVIDADE FÍSICA E A COMUNICAÇÃO DO CORPO. Revista Factu Ciência, ano 7, nº 12, p. 51-60. Janeiro/Julho 2007. Unaí, MG.
  • VIEIRA, M. S. EM QUE O TANGO PODE SER BOM PARA TUDO? Revista Poiesis, nº 14, p. 68-79. Dezembro 2009. Universidade Federal Fluminense.
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

6 Comments

  1. Obrigada, Paulo Cesar; toda a Equipe Dança em Pauta agradece! Fique à vontade para enviar suas sugestões de tópicos, comentários ou dúvidas. Abraço!

  2. Feliz Ano Novo e obrigada pelos comentários, Marcio, João Batista, Rose, e leitores da Dança em Pauta!
    Caso haja algum aspecto particular do artigo ou uma dúvida que gostariam de ver mais aprofundada, por favor, nos informem. Suas colocações serão muito bem-vindas. Gostaríamos de abordar assuntos de real interesse dos leitores e praticantes de dança de salão, buscando uma especificidade que, por vezes, é difícil encontrar na literatura científica. Creio que dialogando encontraremos as respostas que procuramos e faremos a dança de salão evoluir tanto quanto merece!
    Abraços a todos, e aguardo sugestões/solicitações para os próximos artigos.

  3. Parabéns Isabela pelo artigo. Infelizmente na nossa arte ainda há “profissionais” que ignoram ou não focam em suas aulas, principalmente para iniciantes, as questões relacionadas com postura, equilíbrio, transferência de peso, linhas do corpo, uso dos pés (formas de pisar) etc…
    Espero que este seu artigo, excelente como sempre, possa provocar reflexões e mudança de atitude em nossas aulas de Dança de Salão.

    Forte abraço!

    João Batista, Rio de Janeiro.

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