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Música, cérebro e dança de salão: equação de emoções

A maneira como sentimos, entendemos e traduzimos a música em movimentos é um dos mais belos desafios da dança de salão. A música pode mudar nosso humor na aula, pode facilitar ou dificultar o aprendizado, pode nos fazer apreciar ou rechaçar um espetáculo coreográfico. Como isto se processa em nosso corpo orgânico? O que já descobrimos sobre isto?

A motivação para este tema surgiu na aula do Curso de Capacitação em Dança de Salão, ministrado pelos professores Cristovão Christianis (também colunista da Dança em Pauta) e Katiusca Dickow, quando estudamos um fragmento do texto “Emoções Musicais”, de Sandrine Vieillard (Revista Viver Mente & Cérebro, edição 149, junho de 2005). Ana Maria Caliman Filadelfi também já discorreu sobre o assunto em artigo da Dança em Pauta (setembro 2011, “O diálogo entre a Música e a Dança de Salão”), com enfoque mais docente. Desta vez vamos buscar o enfoque da neurologia, ou o que as ciências da saúde já conseguiram desvendar sobre o tema. Há achados bem objetivos que nos ajudam a entender como se processam nossas emoções em relação à música e à dança.

A música pode tanto representar emoções quanto induzi-las. Krumhansl, pesquisador da área da psicologia, já propôs, em 1997, duas posturas com relação à música: a cognitivista, que diz que a música expressa emoções que as pessoas reconhecem; e a postura emotivista, que afirma que a música pode induzir emoções.

Quando ouvimos uma música, ela é processada de diversas maneiras em nosso cérebro. Até o início da década de 1990, quando as imagens de mapeamento cerebral se tornaram possíveis, pouco entendíamos sobre isto. Observe, comparando as figuras abaixo, os locais em nosso cérebro onde a mensagem musical é computada:

As emoções induzidas pela música geram mudanças psicofisiológicas muito palpáveis:

  • Alterações na resposta galvânica da pele, ou seja, na eletricidade perceptível na superfície do nosso corpo (do mesmo tipo que se mede em um eletrocardiograma, por exemplo);
  • Alterações da frequência cardíaca e respiratória (velocidade com que nosso coração bate e respiramos, respectivamente);
  • Aumento da liberação de vários hormônios;
  • Ativação do cérebro em áreas relacionadas à emoção, que chamamos amígdala cerebral, córtex pré-frontal e núcleo acumbens (figura ao lado);
  • Alterações na expressão facial, na sudorese, na temperatura, na pressão arterial, e tantas outras.

Em 2006, os pesquisadores Nater e colegas expuseram os participantes de seu estudo a música heavy metal e a música renascentista, em dias diferentes. Mediram, então, o ritmo cardíaco, a temperatura da pele, a atividade eletrodérmica (ou resposta galvânica da pele) e o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) na saliva. Encontraram maior agitação/excitação dos participantes quando ouviram música heavy metal, que foi qualificada como “rápida e desagradável”, e menor agitação dos participantes com música renascentista, dita “lenta e relaxante”. Em outro estudo, em 2007, os autores Gomez e Danuser investigaram a contribuição de diversas características musicais (como tempo, timbre, modo, articulação rítmica) sobre as respostas psicofisiológicas, e encontraram relações tanto com o nível de agitação/excitação dos indivíduos estudados como com seus conceitos de “bom ou ruim”.

Parece haver também uma relação destes resultados com a personalidade dos indivíduos. Os extrovertidos demonstraram preferência por peças musicais que provocaram mais agitação, e que apresentaram tempo musical mais acelerado, entre 200-220 bmpm (batimentos musicais por minuto). Já os introvertidos teriam tendência a apreciar músicas mais calmas, com tempo entre 58-78 bmpm (lento) ou 112-132 bmpm (médio).

Como podemos, então, aproveitar este conhecimento na prática da dança de salão?

Em primeiro lugar, reconhecendo que as emoções provocadas ou destacadas pela música produzem respostas muito objetivas em nosso corpo, que não podem ser menosprezadas. O corpo é a ferramenta do artista que se move, do praticante, do professor, de todos que desejam desfrutar da dança. A seguir, algumas reflexões sobre a valorização da música nos diversos contextos da dança de salão:

  • Para o professor, escolher a música mais “adequada” para cada aula pode fazer o aluno sentir-se melhor e evoluir mais rapidamente. Já foi demonstrado que músicas conhecidas do ouvinte proporcionam uma maior correspondência emocional. Aquele aluno “resistente”, por exemplo, que acha que nunca conseguirá aprender a dançar e tem uma tendência a abandonar as aulas precocemente, pode ser cativado por músicas do seu gosto, que fazem parte do seu universo, e sentir-se mais à vontade e encorajado para continuar. O professor também pode escolher músicas irregulares ou aceleradas para desafiar uma turma mais avançada e propor exercícios de musicalidade quando o processo inicial de aprendizado dos passos já está dominado. E na hora de organizar o bailinho, a boa escolha das músicas pode garantir a pista cheia e manejar as oscilações de vitalidade próprias do momento do baile.
  • Para o aluno, entender que algumas músicas o sensibilizam mais que outras pode melhorar seu aproveitamento em aula, estando mais atento às marcações de tempo e ritmo destacadas pelo professor. Alunos com dificuldade rítmica tendem a acelerar o movimento corporal em relação ao ritmo musical, e isto está frequentemente relacionado à ansiedade e ao temor do erro. Um ambiente tranquilo e colaborativo em aula é fundamental para trabalhar este aspecto.
  • O coreógrafo de dança de salão deve sempre lembrar que a música escolhida interferirá na interpretação dos bailarinos e na aceitação da obra pela plateia. Em ocasiões festivas, em apresentações de alunos iniciantes e em situações de formação de público, talvez seja mais interessante utilizar músicas conhecidas, melódicas, não aceleradas, que proporcionem uma boa experiência de execução aos dançarinos e uma prazerosa recepção à plateia. Músicas irregulares, minimalistas ou “alternativas” podem gerar uma compreensão mais restrita da obra.
  • O bailarino, buscando ser um artista cênico completo, deve interpretar a coreografia para além dos gestos físicos, incorporando a comunicação dramática à peça coreográfica. A música está estreitamente relacionada a esta habilidade; o ritmo, o andamento, a variabilidade melódica, os instrumentos musicais utilizados, permitirão a imersão emocional do bailarino, destacando o caráter da dança e diferenciando-a da mera execução motora dos passos.

A discussão deste tema é extensa, e está sendo muito enriquecida pelas descobertas da neurociência. Entregar-se à música deixa marcas inegáveis em nossos corpos. Na dança de salão, esta marca visível é a alegria de uma salsa, a sensualidade de um zouk, a melancolia de um tango, a vibração de um lindy hop, o despojamento de um samba, ou tantos outros sentimentos de um rico repertório emocional.

Ouça, sinta, dance, e não resista!

LEITURA RECOMENDADA:

  • DE GELDER, B. Why bodies? Twelve reasons for including bodily expressions in affective neuroscience. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci; 364(1535): 3475-84, 2009 Dec 12.
  • DEUTSCH, S. Música e dança de saläo: interferências da audiçäo e da dança nos estados de ânimo/ Music and ballroom dance: interference of audition and dance on moods. Säo Paulo; s.n; 1997. 165 p. ilus, mapas, tab.
  • MENESES, C et al. Influencia del tempo de la música en las emociones/ Influence of music tempo on emotion. Rev. colomb. psicol; 19(1): 37-44, ene.-jun. 2010.
  • PEREIRA, CS, et al. Music and emotions in the brain: familiarity matters. PLoS One; 6(11): e27241, 2011.
  • PHILLIPS-SILVER, J; TRAINOR, LJ. Feeling the beat: movement influences infant rhythm perception. Science; 308(5727): 1430, 2005 Jun 3.
  • STOCK, VDJ et al.Instrumental music influences recognition of emotional body language. Brain Topogr; 21(3-4): 216-20, 2009 May.

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

3 Comments

  1. Izabella! Excelente artigo! Sou Psicóloga, atuo em Saúde Mental há sete anos e também, paralelamente, participo como parceira em aulas de dança de Salão com meu marido professor, percebendo as nuances nas emoções dos participantes, tanto a respeito da música e suas oscilações na fisionomia dos participantes e sua motivação em aula/bailes, quanto na dança em geral que promove alterações na auto estima e bem estar em grande parte dos casos de adesão em longo prazo. Fico grata especialmente pela sugestão bibliográfica.

  2. Bom dia…Parabéns pelo texto. Oportuno e interessante. Com certeza vem somar no conhecimento e aplicação da musica e dança na vida das pessoas… Grande abraço

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