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Música, cavalheiro, dama e autoconhecimento

Vejo a essência da Dança de Salão na comunhão musicada que se estabelece improvisadamente entre uma dama e um cavalheiro, sejam quem forem os indivíduos que desempenhem estas funções. Muitas pessoas precisam dançar formando um par para atrair algo externo a ele ou ter aprovação, outras apenas para comprazerem-se com a sociabilização do salão. São finalidades válidas, viáveis até por uma prática quase taxidermizada que dispensa o improviso. E algumas pessoas raras, amam a Dança de Salão porque sabem que ela é uma das formas mais profundas de conhecer e enfrentar as essências de si mesmas e de seus pares. Isto acontece porque dama e cavalheiro precisam experimentar a cumplicidade nua e sem palavras. Sobre este imenso universo discutimos, em artigos anteriores, história e concepções sobre condução.

Em um recorte mais aprofundado, proponho neste momento a discussão sobre duas diferentes experimentações em condução.

A primeira delas diz respeito a uma forma específica de introduzir na dança a interpretação musical temporal da dama. Nesta experiência, mesmo atendendo precisamente à determinada condução, quem assume a posição de dama solicita corporalmente a quem está no papel de cavalheiro que modifique o tempo de execução do movimento. Por exemplo, apenas demorando leve e propositadamente na resposta à certa condução, a dama “pede” a transferência da leitura do ritmo para a melodia da voz do cantor. O alcance deste pedido corporal fica limitado pela própria arquitetura de condução do cavalheiro, ou seja, é perceptível, porém, a intensidade é insuficiente para mudar a proposta original. Não sendo “ouvido”, este pedido da dama não atrapalha a pretensão inicial do cavalheiro. Sendo “ouvido” o pedido, e acolhido pelo cavalheiro, a percepção musical da dama é introduzida na composição da dança. Assim, cada um em uma esfera diferente, mesmo que por alguns momentos, elabora simultânea e conjuntamente a criação tridimensional da dança, tendo a música ativando as invenções de cavalheiro e dama.

Certamente, muitas damas tomam iniciativas desta natureza para participar da criação improvisada da dança, e, por regra, acredito que não sejam “ouvidas”. Este tipo de vivência é factível para cavalheiros de sensibilidade aguçada ou que admitem, como sua, a função de satisfazer a dama no salão. É um tipo de condução partilhada sobre a qual não encontrei referências bibliográficas claras, e a prática é uma raridade nos salões. De qualquer forma, esta experiência de condução é especialmente interessante uma vez que depende do entendimento cortês e equilibrado entre cavalheiro e dama. Por outro lado esta prática pode ser fonte de atrito ou frustração, conforme a concepção sobre condução de cada um dos indivíduos formadores do par.

A segunda experiência em pauta aqui é um desafio muito maior, embora plenamente viável. Precisa ser vivida no ambiente sonoro que conhecemos vulgarmente como silêncio. É o exercício do cavalheiro criar uma música desprovida de ondas sonoras, em improviso, e executá-la de forma exclusivamente cinesiológica, por meio da condução. Dá-se, portanto, sem nenhum instrumento musical sendo literalmente reverberado, sem a produção voluntária de uma onda sonora sequer, porém, com a música presente, sendo iniciada em improviso na mente do cavalheiro. Neste escopo, quem está no papel de dama recebe esta criação e participa dela “ouvindo” e executando a música através dos movimentos propostos pelo cavalheiro. A vontade da dama, de conduzir tempos, motivada por sua interpretação da música, não ocorre como no primeiro experimento aqui descrito, pois o estímulo musical não vem de ondas sonoras e sim das propostas de movimento do cavalheiro. Esta ousada experiência é, pelo menos de início, mais facilmente desfrutável por parcerias com algum grau de vivência conjunta visceral. As possibilidades são grandiosas, entre elas, está a criação, por parte do cavalheiro, de uma música desenhada para representar sua própria auto concepção.

Outra possibilidade mais desafiadora é inspirar-se na essência da dama. É um privilégio, ganhar de um parceiro, pelo menos uma vez na vida, a preciosidade única da composição de uma música cinesiológica que brota da alma. A participação da dama aqui é muito diferente, absolutamente receptiva já que tratamos de uma forma mágica de “ouvir” a si mesma pela ótica do cavalheiro. Fica possível, a uma dama, sentir suas próprias virtudes, grandezas, angústias, dores, prazeres, desejos, feiuras e belezas, simplesmente “ouvindo”, sem seus ouvidos, e executando uma obra inspirada nela mesma, criada por seu cavalheiro para ser experimentada por todo seu corpo. Cada verdadeira dama mereceria ganhar uma joia como esta, “ouvir” a si mesma pela obra musical-corporal criada por seu parceiro. É um presente assustadoramente belo.

São duas experiências deliciosas que exigem conexão sofisticada e podem enriquecer a dança de maneira transformadora. A primeira, praticável em quase qualquer tipo de salão, é capaz de aprimorar significativamente a conexão do par. A segunda, mais profunda, demanda um ambiente diferenciado, sem música captável pelos ouvidos. Criar músicas que se expressam em movimento pode ser estratégia para explorar uma diversidade de domínios, especialmente de autoconhecimento. Talvez seja das vivências mais intensas, profundas e reveladoras que a experimentação em condução pode oportunizar.

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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