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Lindy Hop: o nascimento das swing dances

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O Lindy Hop, primeiro estilo de Swing Dance, surgiu nos salões de baile do Harlem, em Nova Iorque, no final da década de 1920. Era a época das grandes orquestras, as “big bands”, que durante as décadas seguintes dominariam os salões de dança do país e de outras partes do mundo com o Swing Jazz de Count Basie, Duke Ellington, Chick Webb, Benny Goodman, entre muitos outros.

Duke Ellington e sua “big band”

O Harlem é um bairro de afro-americanos, logo, o Lindy Hop tem suas raízes nas danças africanas, incluindo a postura angular. Seus movimentos são resultado de uma fusão de muitas danças, especialmente jazz, sapateado e Charleston.

Ilustração: Jacqui Oakley / http://jacquioakley.com

Com a abertura do Savoy, o primeiro salão a integrar brancos e negros no país, o Lindy Hop ganhou seu nome, cresceu e se tornou conhecido. Lá tocavam as melhores “big bands” da época. As competições semanais favoreciam o aparecimento de passos novos a todo momento e de grandes dançarinos.

O nome “Lindy Hop” foi uma referência ao vôo de Charles Lindbergh, cujo apelido era “Lucky Lindy”. Ele foi o primeiro a cruzar o Atlântico em um vôo solitário, sem escalas,  em 1927. Nos anos seguintes, surge em cena Frankie Manning, dançarino da nova geração, inspirado pelos dançarinos da primeira geração, porém criando seu próprio estilo. Durante uma competição no Savoy em 1935, Frankie venceu Shorty George, o maior dançarino da primeira geração, ao fazer o primeiro passo aéreo no Swing. O público “enlouqueceu” e a dança estourou de vez.

Ilustração: Jacqui Oakley / http://jacquioakley.com

Frankie Manning junto com o grupo Whitey’s Lindy Hoppers, do qual era integrante e coreógrafo, popularizou o Lindy Hop em muitos países durante as turnês de shows pelo mundo. O Brasil também recebeu o grupo, em 1941. Sabe-se que eles passaram pelas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, São Vicente e também pelo estado da Bahia, mas Frankie não especifica as cidades em sua biografia. Inicialmente os Whitey’s foram contratados para se apresentar no Brasil por seis semanas, mas a viagem de volta aos EUA se mostrou inviável. A vinda do grupo ocorreu durante a Segunda Guerra mundial e, ao fim da temporada deles por aqui, os alemães estavam afundando navios americanos no trajeto entre América do Sul e EUA, o que acabou prolongando a estadia do grupo que, no total, permaneceu no Brasil por dez meses.

Whitey’s Lindy Hoppers, o lendário grupo que se apresentou no Brasil em 1941

O grupo ficou famoso e fez cenas de dança em filmes de Hollywood, como o Hellzapoppin, cuja apresentação inspira os dançarinos de todo o mundo até hoje e é considerada a melhor cena de Swing Dance filmada na história.

Após o término da Segunda Guerra Mundial, principalmente em função das mudanças na música, o Lindy Hop foi perdendo a popularidade, pois o Swing Jazz perdia seu status de música favorita da cultura popular norte-americana e as big bands perdiam seu espaço. Além disso surgia o Be-Bop, estilo de jazz com tempos mais rápidos, harmonias e melodias complexas, que impossibilitavam dançar Swing. Segundo Frankie Manning, foi uma mudança “de bandas que tocavam músicas para dançar, para bandas que tocavam música para escutar”.

Com o passar dos anos, a música foi ganhando novas expressões, como o Rythym and Blues, o Rock’n roll, a Disco Music, e também surgiam várias outras formas de dança, incluindo os novos estilos de Swing, como o West Coast.

O Lindy Hop não desapareceu completamente, continuava a ser dançado em alguns salões, porém não tinha mais a popularidade que teve em escala nacional como anos atrás. Com o passar dos anos, ficava restrito a grupos menores de pessoas.

Dançarinos no período áureo do lindy hop

No início da década de 80, alguns acontecimentos iniciaram o que é chamado o “revival” (renascimento) do Lindy Hop. Dançarinos da Califórnia e da Europa, inspirados por filmes e clipes, foram a Nova Iorque em busca de dançarinos da época do Swing no Savoy.

“Não estou interessado em fama ou glória, só quero que todos saibam o que é uma dança feliz”, Frankie Manning.

A popularização do videocassete neste período possibilitou que muitas pessoas conhecessem esses clips de época, entre eles a famosa cena de dança do Hellzapoppin (1941), que teve um papel muito forte no “revival” do Lindy Hop. Além disso, no final da década de 80, a música também ganharia novas influências, como o movimento do Neo Swing, que inspirou os jovens a escutar e dançar novamente a música de 1930/40.

Steven Mitchell e Erin Stevens, dançarinos da Califórnia que vinham fazendo pesquisas sobre Lindy Hop há alguns anos, procuraram por Frankie Manning em 1986. O encontraram trabalhando nos Correios, onde estava desde 1955, quando se aposentou da dança. A partir deste contato, começaram a ter aulas com o dançarino em visitas regulares a Nova Iorque e, mais tarde, levaram o Lindy Hop para a Califórnia.

Em 1987, Frankie Manning foi à Suécia para ensinar Lindy Hop à companhia sueca de dança Rhythm Hot Shots. Entusiasmados com o resultado, esta companhia o convidou para ser o instrutor principal do evento anual Herrang Dance Camp, em 1989, na Suécia. Este fato chamou a atenção de outros países da Europa e o evento passou a receber cada vez mais pessoas de todo o mundo. Atualmente, Herrang é um dos maiores eventos de Swing Dance do mundo, recebendo anualmente cerca de três mil pessoas de mais de 40 nacionalidades diferentes. Assim, o maior dançarino da história do Lindy Hop volta de sua aposentadoria na dança para ensinar jovens em todo o mundo.

Frankie Manning em aula no Herrang Dance Camp, na Suécia

Atualmente, há uma comunidade internacional de Lindy Hop muito grande e especialmente forte na Europa e nos Estados Unidos. Mas não devemos nos surpreender ao encontrar 15 mil dançarinos de Lindy Hop na Coréia do Sul. Já na América do Sul, há uma forte comunidade de dançarinos na Argentina, enquanto no Brasil o Lindy começou há poucos anos e vem crescendo bastante.

Norma Miller, única integrante viva dos Whitey’s Lindy Hoppers, com Frankie Manning.

Frankie Manning, o grande personagem desta história, faleceu em 2009, um mês antes de completar 95 anos. Sua dança e seu amor por ela continuam inspirando os dançarinos em todo o mundo.

Segundo Norma Miller, única integrante viva dos Whitey’s Lindy Hoppers, Frankie continua vivo: “vejo-o todos os dias na dança de vocês”. Em palestras aos dançarinos da geração atual Norma comenta: “É maravilhoso ver que o que criamos há tantos anos ainda é feito hoje”..
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* Por Denise Serpa

Dançarina profissional de lindy hop desde 2009, atualmente, ministra aulas do ritmo na Casa de Dança Carlinhos de Jesus, no Rio de Janeiro, com seu parceiro Luiz Cláudio Martins. Integra o grupo de embaixadores internacionais da Fundação Frankie Manning, cuja missão é divulgar o ritmo pelo mundo.

* Imagens:

 

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8 Comments

  1. Toda vez que quero que alguém conheça sobre o Lindy hop, mando o link dessa matéria!

    Denise Serpa explicou super bem a história da dança e como ela está super viva aqui no Brasil!

    Parabéns!

  2. Denise, parabéns pela excelente matéria, muito rica em detalhes para que as pessoas que ainda não conhecem o Lindy Hop passem a ter uma noção do que é.

    abraço,
    Airton

  3. Parabéns Denise, pela excelente matéria!!!

    Realmente, o Lindy Hop é um estilo de dança que encanta todas as pessoas de todas as idades em qualquer lugar do Planeta!!!

    Agradecemos a revista Dança em pauta pelo espaço, justamente neste momento auspicioso para o Lindy Hop da América do Sul, em que o Brasil, no mês de Dezembro, receberá a Sra. Norma Miller, última integrante viva do grupo Whitey’s Lindy Hoppers.

    É uma lenda viva!!!!!

    Vai comemorar seus 92 anos aqui no Rio de Janeiro e quem ganha o presente somos nós!!!!!

    Que a Vossa Majestade do Swing Dance seja Bem-vinda novamente !!!!!!

    Abraços,
    Cesar Munhoz

  4. Muito bom, Denise. Conteúdo rico, muito instrutivo, texto elegante e objetivo. Não esperava nada diferente da amiga, mas mesmo assim meus parabéns, obrigado e um beijão. Gui.

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