Eu danço

Jovens bailarinos de Gaspar representam um Brasil de talentos que sofre com a falta de apoio

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São inúmeras as histórias de superação em busca de realização profissional na dança. Os relatos de muitos bailarinos que conquistaram o reconhecimento de seu talento enfrentando problemas financeiros, pessoais e sociais, servem de incentivo para tantos outros em busca do mesmo sonho. Mas será que em um país com tantos problemas sociais e econômicos não nos habituamos a tal “superação” e deixamos de lutar por condições mínimas para que um jovem possa optar pela dança como profissão sem enfrentar uma batalha diária? Será que a superação não é supervalorizada? Quantos talentos não são perdidos neste processo?

Este ano, durante o 34º Festival de Dança de Joinville, passei uma tarde com um grupo de 15 crianças e adolescentes de 13 a 17 anos do Grupo de Dança do Departamento de Cultura de Gaspar, cidade no interior de Santa Catarina. Eles se preparavam para a apresentação a noite no palco deste que é o maior festival de dança do mundo. Em 2015, o grupo conquistou o 1º lugar na categoria Danças Populares Junior no festival, garantindo sua vaga para a competição em 2016.

Na sala de aula de uma escola de Joinville, cedida ao grupo, enquanto vestiam o figurino e se maquiavam, o clima era de descontração e a alegria dos meninos e meninas em estar participando do evento era evidente. Mas já no ônibus, a caminho da apresentação, no Centreventos Cau Hansen, o professor Marco Aurélio Souza, coreógrafo do grupo, alertou que a partir dali acabava a brincadeira e começava a concentração para uma atuação comprometida com o trabalho. Assistindo da plateia, presenciei aquela garotada risonha com quem passei a tarde virar “gente grande”, profissionais de dança comprometidos com sua performance.

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Foto: Nilson Bastian/Festival de Joinville

O resultado este ano, foi o 3º lugar na categoria Danças Populares Junior e o 1º na categoria Danças Populares Solo Feminino Junior para uma das integrantes do grupo, Yasmin Tavares, 16 anos. Para outra professora do grupo, Giovana Hostert, o 3º lugar teve sabor de primeiro, considerando as dificuldades enfrentadas. A vitória em 2015 não facilitou as coisas para eles e a “superação” foi novamente ressaltada nesta trajetória.

Em uma história que se repete em grupos e cias de dança pelo país, sobra talento, mas falta apoio para estes jovens bailarinos de Gaspar. A verba da prefeitura que garantia o trabalho com o grupo foi cortada e, a poucos dias do evento, a participação deles ainda era incerta, pois mesmo com realização de financiamento coletivo na internet e rifas, faltava verba para transporte e alimentação, conseguida um dia antes da viagem. “São crianças muito talentosas e empenhadas, que conquistam vitórias nas competições de dança mesmo enfrentando seus problemas pessoais e a falta de verba para o grupo. Temos dois alunos que foram do projeto, o Daran e o Eduardo, que hoje são bolsistas na Escola do Bolshoi em Joinville. Tenho certeza que, como eles, outros podem se destacar se tivermos apoio”, relata o professor Marco.

Alunos e professores da Associação Amigos da Dança no Festival de Joinville.
Alunos e professores da Associação Amigos da Dança no Festival de Joinville.

Há três anos, Marco e Giovana coordenam a Associação Amigos da Dança (ASSAD), uma instituição sem fins lucrativos criada para dar suporte ao Grupo de Dança de Gaspar. A proposta é oferecer formação em dança às crianças das escolas municipais sem condições financeiras, porém, sem a verba da prefeitura, para pagar o aluguel do espaço, entre outros, eles tiveram que passar a cobrar uma mensalidade de R$ 50,00 por aluno, o que fez com que cerca de 20 das 50 crianças, deixassem o grupo este ano. “Temos crianças no grupo que vivem uma situação de extrema pobreza. Algumas não têm o dinheiro para a passagem de ônibus, outras nem para comer”, ressalta Marco.

Neste contexto, eles tiveram que criar algumas alternativas para não desperdiçar os talentos juvenis. No caso de Yasmin, para brilhar em seu figurino dourado como a rainha Oxum, que lhe deu a vitória no Festival de Joinville este ano, ela se reveza com outra integrante do grupo na limpeza da ASSAD para obter alguma renda. Yasmin começou o balé aos dois anos na Fundação Cultural de Blumenau e há seis anos participa do Grupo de Gaspar. “Com a dança consigo representar o que sinto, a qualquer momento falo através dela. Não consigo viver sem dança”, diz a jovem bailarina.

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Foto: Nilson Bastian/Festival de Joinville

Outro integrante do grupo de dança para quem também foi preciso buscar uma alternativa de continuidade das aulas foi Lucas Moreira, 14 anos, que passou a trabalhar na recepção da associação. “A dança pra mim é tudo! Existem dois períodos em minha vida, antes e depois da dança. Antes é o Lucas ‘Zé Ninguém’, depois é o que achou seu lugar no mundo. Descobri que onde eu devo estar é no palco, na sala de aula, vivendo a dança, esta arte que me toca e me faz feliz”, afirma ele.

Enquanto o apoio do governo não chega, os professores Marco e Giovana vão fazendo o possível para dar continuidade ao trabalho. Para complementar a verba e poder manter o espaço de ensaios do grupo, são oferecidas ao público aulas de baby class, balé clássico, jazz dance, danças urbanas e dança contemporânea na sede da ASSAD, por uma mensalidade de R$ 85,00. “Precisamos de patrocínio para manter o grupo, mas na verdade nos preocupamos muito com a questão social destas crianças também. A dança é algo transformador na vida delas”, conclui Marco.

O professor Marco ao centro, com os alunos Lucas e Yasmin.
O professor e coreógrafo Marco Aurélio, ao centro, com os jovens bailarinos Lucas e Yasmin.

Quem quiser mais informações pode acessar a fanpage da ASSAD no Facebook: www.facebook.com/assadgaspar

Doações também podem ser feitas na conta:
Banco Viacred – Agência 01 – Conta 672746-8

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

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