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Inês Bogéa: a história da bailarina contadora de histórias das “Figuras da Dança”

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Era uma vez…

Uma bailarina contadora de histórias. Quando criança, em sua cidade natal, Vitória-ES, todas as noites os pais reuniam ela, suas três irmãs e um irmão, para contar histórias. Já a paixão pelo movimento, que a levaria para a dança, ela começou de cabeça para baixo. Entre estrelas, pontes e paradas de mão acabou entrando para ginástica artística e, aos 11 anos, foi campeã brasileira na categoria juvenil.

Poderia ter seguido como ginasta, não quis. Como os pais, desde muito cedo, incentivavam os filhos a fazerem suas próprias escolhas, foi jogar capoeira com a irmã. Tempos depois, em uma aula, a pequenina foi arremessada longe durante o treino e saiu desacorçoada. Chegou em casa e deitou no colo do pai, que estava assistindo O Lago dos Cisnes na TV. Aquela visão da apresentação era o que bastava para desabrochar a alma bailarina dentro dela. Por muitos anos ela contou suas histórias no palco através da linguagem corporal e, mais tarde, seguiu contando histórias e dançando através das palavras.

Inês Bogéa, a mulher a frente da direção artística da consagrada São Paulo Cia de Dança (SPCD), é esta bailarina contadora de histórias. O conto acima traz um pouquinho de suas memórias de infância e seu início na dança, com base em entrevista, concedida por ela ao portal Dança em Pauta, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, sede da SPCD na capital paulista. A história de sua vida já foi registrada por ela mesma em seu segundo livro, uma obra para crianças chamada “O Livro da Dança”, lançada em 2002.

Hoje, Inês carrega em seu currículo 13 livros e mais de 40 documentários sobre dança que formam um acervo histórico importantíssimo para a história da dança. Mas a profissional que se especializou em contar as histórias dos colegas de profissão também tem uma linda trajetória a ser contada. Então, nada melhor do que estrear a seção Perfil aqui do Portal com ela, uma bailarina, documentarista, escritora, doutora em Artes e… uma “Figura da Dança” com muita história pra contar.

Nos bastidores da vida de Inês Bogéa

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Foto: Wilian Aguiar

Ginástica artística era uma diversão para a menina cheia de energia que morava em uma chácara com a família. “Adorava girar nas barras paralelas que pareciam os galhos das árvores da minha casa”, recorda. Na sequência, foi a vez da capoeira e, dois anos depois, o grande encontro com a dança aconteceu. “Vi aquele mundo branco, mágico, das bailarinas flutuando e também queria flutuar como elas”, conta sobre a apresentação na TV de O Lago dos Cisnes que a levou, aos 13 anos, para as aulas de balé clássico na tradicional escola capixaba de Lenira Borges.

Inês aos 16 anos em solo de Copélia. | Foto: arquivo pessoal
Inês aos 16 anos em solo de Copélia. | Foto: arquivo pessoal

Lá se formou pelo método da Royal Academy of Dance, participou do grupo de dança da escola, viajando pelo interior do estado, e se tornou professora de balé. Paralelo a isso começou uma faculdade de Biologia, que acabou tendo que deixar, e teve seu filho, Felipe. Fez aulas com renomados bailarinos, entre eles Bettina Bellomo, que a incentivou a fazer uma audição para a Cia de Dança do Palácio das Artes, em Belo Horizonte-MG. “Tinha uns 20 anos na época e nem sabia direito o que era uma audição. Na hora de dançar o solo, não tinha levado uma música, então dancei no silêncio. E passei”, relata.

Ainda na capital mineira, integrou a Compasso Cia de Dança em 1988, trabalhando ao lado de Tíndaro Silvano, até entrar no renomado Grupo Corpo, no qual atuou de 1989 a 2001, participando de cerca de 900 apresentações, no Brasil, França, Inglaterra, Áustria, Alemanha, Suíça, Finlândia, Espanha, Portugal, Itália, Israel, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina e Chile. “Foram anos maravilhosos em que pude ter papéis criados para mim pelo Rodrigo Pederneiras. Tive uma carreira muito linda, com muitas viagens, ficávamos mais ou menos nove meses por ano fora. Aprendi com o Paulo Pederneiras o rigor, o cuidado com os detalhes e com todos os passos até o trabalho ficar pronto. Eles são uma grande referência pra mim em termos de qualidade artística e uma grande escola, um aprendizado de vida”, ressalta.

Nos 12 anos atuando no Grupo Corpo, apesar da correria entre ensaios e viagens, Inês começava a delinear os próximos passos de sua carreira. Coletava vídeos e livros sobre dança durante as viagens da Cia e formou um grupo de estudos com alguns colegas, que se reuniam em sua casa.

Novos caminhos

Inês Bogéa se despediu dos palcos em 2001, em uma apresentação do Grupo Corpo em Paris. “Só eu sabia que era uma despedida, mas acredito que o Rodrigo e o Paulo desconfiavam”, comenta. De volta ao Brasil, comunicou sua decisão aos irmãos Pederneiras, algo que ela vinha planejando um ano antes.

A bailarina em cena do espetáculo Parabelo, do Grupo Corpo (1997). | Foto: arquivo pessoal
A bailarina em cena do espetáculo Parabelo, do Grupo Corpo (1997). | Foto: arquivo pessoal

Em 2000, aos 35 anos, ela não sentia o mesmo rendimento em suas performances e buscou auxílio em atividades como o pilates. “Comecei a notar que, por mais esforço que fizesse, existia um pequeno delay entre o meu movimento e o de pessoas mais jovens do grupo. Desde o início de minha carreira, tinha muito claro que queria viver tudo intensamente, mas parar na hora certa. Não é fácil parar, mas tomei a decisão e comecei a olhar pra mim mesma e para as possibilidades à frente”, diz.

No mesmo ano, chegou a fazer um curso de culinária, pensando em trabalhar na área, mas a dança não pretendia abrir mão da bailarina. O grupo de estudos resultou em um primeiro artigo, encaminhado por um amigo a Folha de São Paulo e publicado ainda em 2000, que lhe rendeu um convite para ser colaboradora do jornal.

A transição para a nova fase, em 2001, foi marcada pelo lançamento de seu primeiro livro, ‘Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo’. No mesmo ano, mudou-se para São Paulo, iniciou a faculdade de filosofia e foi convidada a integrar a equipe de críticos de arte que a Folha de São Paulo estava formando. Deu continuidade ao grupo de estudos em São Paulo que começou em sua casa e depois foi levado para a Escola de Comunicação e Artes da USP, onde três anos depois ela receberia o convite para ser professora do curso de especialização em dança.

Dançando com as palavras: Inês em noite de autógrafos do livro Caminhos Cruzados. Foto: Michelle Molina
Dançando com as palavras: Inês em noite de autógrafos do livro Caminhos Cruzados. | Foto: Michelle Molina

A vida continuava agitada após deixar os palcos e o contato com a dança ainda era intenso, mas ela queria mais, e deu início a sua carreira como documentarista. “O melhor jeito de estudar a dança era conversar com as pessoas e transformar este material em algo que pudéssemos ter como referência. Fazer documentários pra mim é uma espécie de coreografia. Tem um olhar, uma edição, organização das ideias.”, explica.

Coroando tanto estudo e dedicação a dança, em 2007, ela recebeu o convite para assumir a direção artística de uma nova cia, a ser mantida pelo Governo do Estado de São Paulo. E assim, em 2008, nascia a São Paulo Cia de Dança (SPCD), que já foi assistida por mais de 600 mil pessoas, em 19 países. Além da produção e circulação de espetáculos, a SPCD realiza programas artísticos e de formação de plateia e desenvolve um trabalho de registro e memória da dança, contando atualmente com 34 documentários da série “Figuras da Dança”, cinco documentários sobre a cia e seis livros.

Inês e os bailarinos da SPCD, Paula Alves e Mozart Mizuyama. | Foto: Wilian Aguiar
Inês e os bailarinos da SPCD, Paula Alves e Mozart Mizuyama. | Foto: Wilian Aguiar

“Dançar é a maneira que escolhi para me relacionar com o mundo em que vivo. Não sei viver sem a dança, então vou encontrando mil maneiras de dançar. Tudo que eu faço é ligado a dança. Quando você escolhe ser bailarino, ser artista, escolhe uma maneira de olhar pro mundo que nos torna cada dia mais humanos”, comenta.

Com uma rotina agitada, pergunto a ela do que mais sente falta dos tempos de atuação nos palcos. A resposta vem sem pensar duas vezes. “Você poder se revelar intensamente e encontrar no olho do outro quem você é. Bailarino é uma profissão muito feliz. Você visita o mundo todo, tem uma vida muito rica, com muito aprendizado e o trabalho em grupo que permite uma troca constante, muitos amigos em volta, o prazer da descoberta de limites e potenciais corporais, é tudo muito intenso”, declara com um brilho nos olhos que parece revelar um flashback de toda sua carreira voltando a memória.

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

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