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Histórias pra gente dançar

Desde que assumi a coluna Dança e Educação, aqui na Dança em Pauta, venho selecionando alguns temas interessantes e pertinentes para a escrita dos artigos. Este que abordaremos hoje, já estava no rol dos escolhidos, porém com o advento do convite para a escrita de um capítulo no livro “200 anos de Dança de Salão”, organizado por Marco Antônio Perna, e a pesquisa que foi necessária para isso, o tema se tornou muito forte em minha cabeça, então pensei: “Tá na hora de colocar essa idéia na coluna!”

Aqui teremos a oportunidade de discutir, de que maneira o conhecimento e uso das histórias das danças e de seus povos, podem contribuir com o processo de ensino e aprendizado das mesmas, junto aos praticantes de dança de salão. Não imaginando uma palestra sobre história dada aos alunos num dia de aula, mas com o formato de curiosidades e fatos interessantes para alicerçar o conteúdo a se trabalhar.

Começarei apresentando essa idéia, falando de uma experiência pessoal e fora do contexto da dança. Tive a necessidade de cursar por duas vezes a disciplina de Metodologia Científica, matéria bastante teórica e que, como me foi apresentada pela primeira vez, não se mostrou motivadora. Porém, na minha segunda experiência com a disciplina, tive o prazer de ter um professor que transmitiu as informações de sua matéria relacionando-as a contos mitológicos e tornando a aula imensamente melhor. Fiquei encantado com a abordagem histórica das questões, que deixou tudo mais colorido e menos cinza. Muito mais motivador, em minha percepção!

É fato que, por abordarmos bailes populares em nosso contexto, as culturas dos povos que os dançam, influenciam diretamente nas movimentações feitas quando os mesmos bailam seus ritmos regionais. Exemplificando fica mais fácil compreender por que e como determinados movimentos, que se realizam em Salsa, são feitos. Se tivermos a informação e até mesmo um pouco de prática de Rumba, estilo Guaguancó, algumas coisas se esclarecem. Nesta maneira de dançarmos Rumba existe a “Vacunada” (Vacinar, em espanhol) gesto com o qual o dançarino tenta, com um lenço ou parte do corpo, acertar as partes íntimas de sua dama, que responde a esse gesto, normalmente com a proteção de tais partes.

Tal situação, que funciona como um flerte mais ousado, gera uma movimentação particular dos braços, fato necessário para execução da situação descrita acima. Essa movimentação dos braços é feita em alguns momentos quando dançamos Salsa, porém não estamos no contexto de executar a “Vacunada”, pois não estamos bailando Rumba, fica então o questionamento: Será que não seria apropriado e rico, trabalhar um pouco de tal técnica dentro da Salsa, resgatando um ritmo que historicamente a originou?

Seria riquíssimo, em minha opinião, trazer alguns lenços para aula e realizar o gesto da “Vacunada” real. Fazer com que as meninas praticassem sua “defesa”, então depois, registrar a percepção que os alunos tiveram de fazer os movimentos originais, seguindo com a retirada dos lenços, assim deixarmos de “brincar” de dançar Rumba e fazermos a transposição do gesto para a Salsa.

Provavelmente seria uma dinâmica interessante, divertida, instigadora e rica culturalmente, baseando a prática atual em algo que historicamente colabora com a construção da dança Salsa. Em conversa com a professora Fernanda Giuzio, da Cia. paulista Conexión Caribe, uma das mais importantes no ensino e fomento das danças latinas no Brasil, a mesma afirmou utilizar práticas semelhantes às descritas acima, para balizar o ensino da Salsa em suas turmas, “os alunos adoram”, comentou Fernanda.

Saindo um pouco da questão da construção de movimentos, vamos para o lado da história musical. Usando o fato do 1º samba gravado, ser a música “Pelo Telefone” da dupla Donga e Mauro de Almeida, em 1917, Gilberto Gil homenageia tal feito, quando 80 anos depois, em 1997, grava “Pela Internet” e faz clara alusão em sua composição ao nosso 1º samba, quando no refrão muda algumas palavras, deixando a modernização de nossa época transparecer, abaixo mostro parte dos refrões das músicas ”Pelo telefone” e “Pela internet”:

“O chefe da polícia pelo telefone, manda me avisar,
Que na carioca tem uma roleta, para se jogar…”

Trecho de “Pelo Telefone”

 

“O chefe da polícia carioca avisa pelo celular,
Que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar…”
Trecho de “Pela Internet”

Imagino que seria muito interessante, um dia, durante uma aula de Samba de Gafieira, por exemplo, trazer as duas músicas, mostrá-las e colocar os alunos pra dançá-las. Seria riquíssimo trazer esse fato histórico para a aula, fazendo até uma ponte para o professor falar um pouco sobre as origens do samba, como música.

Agora traremos para a pauta o assunto nomenclaturas. Um dos movimentos mais básicos do atual West Coast Swing é o Sugar Push (Push Break), essa nomenclatura vem do termo “Give me a sugar”, que é uma gíria californiana, que significa “Me dá um beijo”. Então como o tal passo tem uma aproximação acentuada da dama do seu cavalheiro e posteriormente uma separação, fez-se a composição da gíria com o movimento, chegando-se ao nome Sugar (hora da aproximação = o beijo) e Push (hora da separação, pois na tradução da palavra para o Português, o significado é empurrar). Acredito que é muito mais interessante gravar nomes de movimentos em outra língua, quando se entende o significado da expressão. Olha a história ajudando novamente o professor em sua aula. Obtive essa informação com Guilherme Abilhôa, renomado professor brasileiro de West Coast Swing. Adorei quando ele me contou, me divirto até hoje com minha esposa, fingindo um beijinho quando realizo o passo.

Diego Borges e Jessica Pacheco em apresentação de West Coast Swing executando o "sugar push"

Ainda na pauta nomenclaturas, hoje em dia é bem fácil entender o porquê do famoso passo de samba de gafieira se chamar Romário, afinal de contas a alusão ao recente ídolo do futebol brasileiro, relacionada aos “chutes” que realizamos durante o passo, é clara. Essa relação é tranqüila de se estabelecer nos dias de hoje, porém daqui a alguns anos, quando o jogador Romário, não estiver mais tão forte em nossas memórias, a referência não será tão óbvia, e pode até cair no esquecimento, fazendo com que o passo tenha esse nome, sem mesmo saberem o motivo. Em minha opinião, cabe aos que trabalham com a arte da dança de salão, perpetuar esse fato histórico, concordam?

Então, conseguimos sugerir que é interessante usarmos um pouco da história em nossas aulas, apoiando nosso ensino. Gostaria de terminar esse texto diferente dos outros escritos nesta coluna, trago agora uma provocação: Quem tem uma história boa de contar em aula, que a escreva em um comentário! Está lançado o desafio…

Fotos: Las que Son Son, One Voice Music, arquivo pessoal Diego Borges

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

6 Comments

  1. Acho muito bom a contextualização do conteúdo ensinado em uma aula de dança de salão, quando é exposta recheada de argumentos históricos e fatos, proporcionam uma maior e melhor aprendizado.

  2. Sou professora de dança e de história. Acho muito enriquecedor para a aula de dança o uso da história para o melhor entendimento do movimento pelos alunos. Afinal de contas a dança começa na nossa mente.

  3. Também tive experiencias muito positivas com a história das danças e dos movimentos, embora o foco da aula não fosse este.
    Considero importante para o aluno saber onde se fundamentam determinados movimentos, pois acabam os executando de uma maneira mais natural e consciente.
    Como a maioria dos movimentos se fundamentam na cultura do povo que dança, o aluno acaba introgetando esta cultura em seus proprios movimentos.
    Pude perceber isso nitidamente em meus alunos, aos quais, unicamente contei a história.

  4. Gostei da ideia do autor e vou participar =D

    Ainda no Samba de Gafieira, o movimento conhecido como “facão”, origina-se da maneira em que se corta a cana.

    Historia contada pelos professores do curso de qualificação para instrutores de dança de salão Stelinha e Bruno Barros.

    Parabéns e obrigado pelo texto mais uma vez!

  5. Linda matéria! A contextualização é justamente o que coloca a dança (de qualquer estilo) no âmbito da arte; caso contrário, seria apenas um conjunto de gestos mecânicos.
    Bem, não sei se tenho exatamente histórias para contar, mas vou “pensar alto”…Cheguei à dança de salão através da dança folclórica, que me fez ver (após grande período de imersão na dança clássica russa), o quanto as danças populares são apaixonantes. E no folclore os movimentos são pura história; é impossível dançar sem conhecer o porquê dos gestos. Um dos ritmos que eu mais gostava era o carimbó, da região norte, que se dança sempre em roda. A moça tenta envolver o rapaz com sua saia rodada, e ele tenta fugir; se for tocado pela saia, sai da roda. Este enredo é de grande sensualidade, com a moça deixando as pernas à mostra, e o jogo de fuga originando movimentos serpentiginosos. Vejo um pouco disto em todas as danças em que o movimento da saia da dama serve para compor uma interpretação, como no samba, na salsa, no zouk e em tantos outros. Pode ser uma sugestão de aula para exercitar a sensualidade (na justa medida) das damas mas tímidas: movimentar uma saia rodada com os braços, sentindo o balançar do tecido motivando o gesto, e aos poucos soltar a saia e pegar-se ao parceiro.
    Lembrei de mais uma, esta de linguagem: quando comecei a dançar casino, não sabia o porquê do termo guapea. Os demais passos, alusivos a brincadeiras ou temas mais “picantes”, pareciam óbvios: “exhíbela”, “paséala”, “yogurt”, etc…Mas não encontrava guapea em dicionário algum. Até que no Larousse de espanhol moderno encontrei: “GUAPEAR: ostentar mucho ánimo; hacer alarde de buen gusto; fanfarronear”. Faz todo o sentido, considerando que o GUAPEA inicia e liga os passos da rueda, aproxima os dançarinos e faz com que se olhem.
    Bem, vai ser uma delícia ouvir outras histórias!

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