Colunas, Dança & Saúde

Hidratação e transpiração na dança

Em qualquer atividade física, a hidratação para reposição de líquidos eliminados através da transpiração é fundamental. Na dança de salão não é diferente, porém aqui existe ainda a preocupação com o bem-estar e a comodidade de nosso parceiro de baile. É a etiqueta do salão, um dos mais belos diferenciais de interação social deste estilo de dança que tanto apreciamos.

Por que transpiramos?

As alterações bioquímicas geradas pelo exercício aumentam a temperatura corporal. Para manter o equilíbrio térmico dos tecidos corporais e, consequentemente, garantir o bom desempenho físico, nosso organismo tem um mecanismo eficiente para resfriar a superfície corporal: a transpiração. Entretanto, esta perda de líquidos pode levar à desidratação, se não houver a adequada reposição. Com 1 a 2% de perda hídrica, temos uma desidratação de leve a moderada, podendo haver aumento da temperatura corporal em até 0,4 ºC. Com 3% de perda, já é possível sentir diferença no desempenho da atividade; com 4 a 6%, pode ocorrer incapacidade de autorregulação do organismo (“fadiga térmica”), e a partir de 6%, risco de coma e morte. Obviamente estas são situações raras em aulas ou bailes, mas devemos estar atentos e saber evitá-las.

A sede é um mecanismo de defesa eficiente para nos protegermos, mas no primeiro grau de desidratação ela pode não ser percebida. Não devemos esperar ter sede para beber líquidos; quando a sede chega, já estamos com desidratação moderada.

A desidratação afeta o desempenho aeróbio, e sabemos que a dança de salão, de modo geral, é classificada como uma atividade aeróbia de leve a moderada. Com a perda de líquidos, reduz-se também o volume de sangue bombeado pelo coração, e para manter a chegada de sangue e nutrientes em quantidade suficiente aos tecidos, o coração deve bombear mais rápido. Estas alterações são mais perceptíveis em climas quentes e úmidos. Podemos desconhecer todos estes mecanismos, mas na prática sabemos muito bem as suas conseqüências quando transpiramos numa sala de aula sem ventilação, em pleno verão.

É importante que sejam reconhecidos os sinais e sintomas da desidratação:

Leve a moderada: fadiga, perda de apetite e sede, pele vermelha, intolerância ao calor, tontura, urina em menor quantidade e de coloração mais forte.

Grave: dificuldade para engolir, pele seca e murcha, visão turva, ardência para urinar, “dormência” na ponta dos dedos e boca; em casos ainda mais graves, delírio e espasmos musculares.

Como repor as perdas líquidas?

Segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Medicina do esporte, devemos ingerir líquidos antes, durante e após o exercício. Para garantir que o indivíduo inicie o exercício bem hidratado, recomenda-se que beba de 250 a 500 ml de água duas horas antes do exercício. Durante o exercício, deve iniciar a ingestão já nos primeiros 15 minutos e continuar bebendo a cada 15 a 20 minutos. O volume a ser ingerido varia conforme a sudorese de cada pessoa, na faixa de 500 a 2000 ml/hora. Características individuais como o peso corporal, predisposição genética, aclimatação ao calor e eficiência metabólica (economia energética ao executar uma atividade) interferem diretamente no quanto um indivíduo transpira. Por exemplo, um aluno iniciante de dança de salão, com sobrepeso e não habituado a exercitar-se num ambiente com pouca ventilação pode transpirar grandes volumes. Entretanto, as perdas hídricas na dança de salão costumam ser menores que em outras modalidades esportivas (maratonas, esportes coletivos de grande gasto calórico como vôlei, basquete, etc.) ou de dança (street dance, afro, dança aeróbica ou aulas de ritmos).

Água, isotônico ou energético?

A água é uma ótima opção de reidratação por ser barata, disponível e permitir um rápido esvaziamento gástrico. Ou seja, não “pesa do estômago” porque é rapidamente absorvida e não exige trabalho enzimático para ser aproveitada pelo organismo. É perfeitamente adequada para atividades de até uma hora, como geralmente são as aulas de dança de salão.

Nas aulas de maior duração, ensaios prolongados e bailes, quando o dançarino pode perder maiores volumes de suor, pode ser necessário beber líquidos contendo sódio, que é um elemento químico eliminado na transpiração. Também nestas situações podem ser ingeridas bebidas com carboidratos, que retardam a fadiga e a sensação de fome, pois são absorvidas mais lentamente.

Há várias apresentações comerciais de bebidas denominadas isotônicas, contendo sódio e carboidratos, além de outros sais minerais. Estas preparações são assim chamadas porque tem uma concentração destes elementos muito parecida aos nossos fluidos corporais (na origem grega das palavras, iso significa igual, e tonico, harmonioso; refere-se à concentração dos elementos na solução). Por terem esta concentração “harmoniosa”, não demasiadamente concentrada, não “puxam” líquido do nosso meio interno, como outras bebidas muito doces poderiam fazer, e desta forma permitem a reposição dos líquidos perdidos.

MAS ATENÇÃO: este tipo de bebida pode ser ingerida em quantidades moderadas por indivíduos saudáveis, mas pode ser prejudicial a pessoas com doenças dos rins, coração, cálculos renais e outras. Portanto, prefira sempre a água de início, e mantenha sua revisão médica em dia. Pergunte ao seu clínico se você não tem contraindicações a beber isotônicos em situações de sudorese prolongada; neste caso, escolha uma marca com informações completas do fabricante no rótulo e, principalmente, beba em quantidades moderadas. Isotônico não é suco nem refrigerante! Cabe lembrar que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária exige as seguintes notificações na rotulagem destes produtos:

“Este alimento é destinado exclusivamente a atletas sob recomendação de nutricionista ou médico e não substitui uma alimentação equilibrada”
“Este produto não deve ser consumido por crianças, gestantes, idosos e portadores de enfermidades”.

Como estas bebidas podem ser adquiridas livremente nos supermercados, cabe ao consumidor o bom-senso.

Já os energéticos são definidos como bebidas que estimulam o metabolismo e visam fornecer grande quantidade de energia através de aminoácidos, vitaminas (que funcionam como auxiliares das enzimas, ou coenzimas), extratos de ervas e outros nutrientes. Foram lançados no mercado há alguns anos com grande apelo comercial para “revigorar”, “tirar o cansaço”, ou suportar longas horas de trabalho ou diversão. Entretanto, podem ter efeitos maléficos devido a componentes como a cafeína e o aminoácido taurina. Em excesso, eles podem determinar palpitações (por aceleração dos batimentos cardíacos), aumentar a pressão arterial e até gerar formas leves de dependência. A cafeína também acelera a perda de cálcio, magnésio e potássio, podendo causar câimbras. Além disto, não está provado pela ciência que estas formulações aumentem ou melhorem objetivamente o desempenho de quem ingere, senão que deixe-o mais agitado, e com uma falsa disposição para o exercício. São alimentos altamente calóricos e, para quem deseja controlar ou diminuir de peso, também não são boas opções. Assim, não vemos necessidade nem recomendamos o uso de energéticos no contexto da dança de salão (como em vários outros esportes). O bom mesmo é estar adequadamente nutrido, hidratado e repousar na justa medida que nossa atividade exige.

Refrigerantes, mesmo na versão zero ou light, também não são os melhores reidratantes, por provocar perda de potássio, conter altos teores de sódio e serem gaseificados, dificultando o esvaziamento gástrico.

Prefira água aos isotônicos e energéticos

Camiseta suada?

Bem, revisados estes tópicos mais técnicos acerca da homeostasia (ajustes internos do organismo para manter uma condição estável), cabe lembrar também as implicações sociais de nossa sudorese. Afinal, dançamos aos pares e desejamos ser agradáveis e desfrutar de bons momentos, tanto quem conduz como quem é conduzido.

Por mais que estejamos com a higiene em dia, e que recém tenhamos tomado banho, é desagradável para nosso(a) parceiro(a) dançar com alguém que está encharcado de suor. É claro que isto pode ser inevitável em uma aula de nível avançado em clima quente, ou em ensaios prolongados, ou ainda em bailes no verão. Também há variados graus de aceitação entre nossos colegas. Mas se observarmos algumas recomendações, seremos parceiros mais agradáveis:

  • Damas devem evitar dançar com blusas cavadas ou de alcinhas, pois na posição social de abraço, sua axila esquerda ficará sobre o ombro e o braço direitos do cavalheiro. Prefira uma blusa que proteja a axila;
  • Da mesma forma, cavalheiros devem evitar camisetas tipo regata, onde seus ombros suados serão tocados pela dama;
  • Quem transpira muito deve ser prevenido: leve uma blusa a mais (ou quantas precisar) para trocar durante a aula e até nos bailes. Pergunte a si mesmo se gostaria de dançar com alguém que estivesse em suas condições;
  • Toalhas também ajudam, mas evite dançar com ela pendurada no pescoço! Use-a, e deixe-a de lado ao abraçar seu(sua) parceiro(a);

E não esqueça:

  • Prefira água para sua hidratação;
  •  Beba em pequenas quantidades e com frequência. É mais efetivo que ficar muito tempo sem beber e depois ingerir grandes volumes;
  • Não espere sentir sede para reidratar-se;
  • Leve uma garrafinha para a sala de aula, ou utilize o bebedouro disponível na escola;
  • Certifique-se de que a escola escolhida para praticar dança de salão proporciona um ambiente com ventilação adequada;
  • Professor, ao escolher seu espaço profissional, priorize este aspecto, certo de que uma sala de aula ampla e arejada, além de água disponível, não são supérfluos, e sim medidas necessárias à saúde, além de representar seu respeito ao aluno;
  • Nunca é demais lembrar: bebida alcoólica não é reidratante (pelo contrário; desidrata mais!), piora seu desempenho na dança e não combina com direção. Se beber, você não pode dirigir, e certamente não dançará tão bem no baile! Na chegada, um brinde à dança de salão, e depois…muita água e bom baile!

LEITURA RECOMENDADA:

  • Carvalho, T & Sampaio, M L. HIDRATAÇÃO E NUTRIÇÃO NO ESPORTE. Ver Bras Med Esporte, 16 (2): 144-148, mar-abr 2010.
  • Carvalho, T et AL. MODIFICAÇÕES DIETÉTICAS, REPOSIÇÃO HÍDRICA, SUPLEMENTOS ALIMENTARES E DROGAS: COMPROVAÇÃO DE AÇÃO ERGOGÊNICA E POTENCIAIS RISCOS PARA A SAÚDE. Diretriz da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Ver Bras Med Esporte, 9 (2): 43-56 mar – abr 2003.
  • Moreira, C A M ET AL. HIDRATAÇÃO DURANTE O EXERCÍCIO: A SEDE É SUFICIENTE? Ver Bras Med Esporte, 12(6): 406-409, nov-dez-2006.
  • Sawka, M N et al. EJERCICIO Y REPOSICIÓN DE LÍQUIDOS. Medicine & Science in Sports and Exercise. Pronunciamento do Colégio Americano de Medicina do Esporte, vol 39 (2), 2007, 25p.

Veja também:
http://www.medicinadoesporte.org.br/diretrizes_posicionamentos.htm
http://www.acsm.org
http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/CP/CP%5B24416-1-0%5D.PDF

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

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