Eu danço

Hiago Castro: o ballet clássico não tem cor

“É preciso quebrar o tabu que balé clássico não é estilo para pessoas negras, que o nosso forte são as danças contemporâneas. Todo mundo é igual e tem muita gente talentosa e versátil atuando no mundo da dança”.

O comentário é do bailarino Hiago Castro, um dos mais jovens a integrar o elenco da conceituada São Paulo Cia de Dança. Há quase quatro anos na Cia, hoje, Hiago tem em seu currículo obras clássicas como La Sylphide (Mario Galizzi), O Sonho de Dom Quixote (Márcia Haydée) e Suíte Raymonda (Guivalde de Almeida) e contemporâneas como Odisseia (Jöelle Bouvier), Agora (Cassi Abranches) e, mais recentemente, Anthem (Goyo Montero).

O bailarino Hiago Castro em cena de Agora, coreografia de Cassi Abranches para SPCD. | Foto: Marcos Alonso.

Mas nem sempre o bailarino teve acesso fácil a um repertório amplo. “Já ouvi coisas como: ‘você tem que alisar o cabelo para dançar porque príncipe tem cabelo liso e não pode dançar com cabelo assim’. Passei por situações que me constrangeram, mas não me intimidaram. Optei por mostrar meu trabalho e seguir em frente”, comenta.

“Balé clássico não é apenas para pessoas brancas”, Hiago Castro. | Foto: Marco Salles

Nascido em São Luís em 1995, Hiago foi criado pela mãe e tias, juntamente com sua irmã mais nova. Desde pequeno, sua família sempre priorizou os estudos e o lazer, inscrevendo-o para diversas atividades extracurriculares como esportes e teatro. Foi então que ele descobriu a dança e, aos 14 anos, decidiu seguir a carreira de bailarino, ingressando na escola maranhense Ballet Olinda Saul com apoio da mãe e da avó, as pessoas que mais o incentivaram a continuar na dança.

Por indicação de seus professores na época, Hiago decidiu mudar-se sozinho para o Rio de Janeiro aos 17 anos, para frequentar a Escola Petite Danse – onde formou-se três anos depois. Lá, o bailarino teve a oportunidade de ampliar seu repertório na dança, aprendendo, além do balé clássico e contemporâneo, street dance, sapateado e jazz.

Neste período da adolescência, longe de casa e da família, Hiago conta que amadureceu muito e que precisou criar responsabilidade sobre sua carreira e vida, além de aprender a lidar com mais tranquilidade sobre preconceito. A dança e os amigos que fez na cidade o ajudaram a passar por estes momentos.

O sonho de entrar para uma companhia profissional no Brasil – especialmente a São Paulo Companhia de Dança – se concretizou em 2016, quando o bailarino participou de uma audição e foi um dos selecionados para integrar o corpo artístico da SPCD. Até hoje, Hiago já se apresentou pela Companhia em mais de 170 espetáculos no Brasil e no exterior, participando de grandes festivais de dança e estreando obras de grandes coreógrafos.

Hiago Castro em cena do grand pas de deux de Cisne Negro. | Foto: arquivo pessoal

Atualmente, morando na capital paulista com o namorado e uma prima, Hiago acredita que tudo o que conquistou até hoje foi fruto de sua perseverança e de não deixar as adversidades da vida – desde condições financeiras ao racismo – abalarem sua trajetória, enfrentando os obstáculos e mostrando com trabalho, dedicação e sem ofender ou prejudicar ninguém do que ele é capaz.

Sobre o cenário da cultura na sociedade brasileira atual, o bailarino percebe um maior acesso de pessoas antes marginalizadas aos programas de arte e dança, mas acredita ser necessário mais incentivos para expandir a presença destes grupos na produção cultural.

“Balé clássico não é apenas para as pessoas brancas, de classes mais elevadas, é uma dança de todos. É preciso que todos dentro da dança compartilhem desta ideia para ajudar de fato a transformar o mundo, que todos na plateia, ao assistir um espetáculo, se sintam representados e acreditem em seus próprios sonhos”, reflete Hiago.

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