Colunas, Dança a dois em cena

Geometria coreográfica: visceralidade, passionalidade e sensualidade ao “entortar” movimentos

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Você já assistiu uma coreografia buscando observar a geometria dos movimentos e formas que os corpos desenham no espaço? De forma bem básica, você observa figuras mais lineares, retas, ou aparecem mais as curvas e desenhos arredondados?

Ao assistir uma dança, o público faz essa “leitura” não de forma racional, mas de forma sensorial. Essas qualidades de movimentos e formas nos levam a determinadas emoções. Subliminarmente, essa “geometria” dos corpos contribui muito para o tipo de emoção, sensação que o público será levado a experimentar.

Durante os primeiros anos do meu trabalho junto à Mimulus Cia de Dança, ainda na década de 1990, as coreografias de danças de salão, não importando o gênero, eram muito influenciadas pela estética do balé clássico: leia-se linhas retas. Linhas de braços, pernas, coluna e deslocamentos retos no espaço. Naquele momento de “renascimento” das danças de salão – após o seu período de “hibernação”, nas décadas de 1960 e 1970 – era no modelo de composição coreográfica da dança clássica (e também do Jazz) que os inexperientes coreógrafos que trabalhavam com as danças de salão buscavam referências, conscientemente ou não.

Na maioria das vezes em que assistia uma apresentação de um casal dançando, sentia um incômodo que permaneceu indecifrável por bastante tempo. Muitos anos depois, pude entender onde residia. Como são as linhas dos movimentos executados num salão de baile? E as trajetórias que os casais descrevem espacialmente? Claro que existem exceções, mas se observarmos um salão com pessoas dançando improvisadamente a Salsa Cubana, o Tango, o Lindy Hop, Forró, Samba de Gafieira, prevalecerão os movimentos e gestos redondos, curvos. Então, onde estava a essência dessas danças, naquelas coreografias tão retilíneas?

Cena do espetáculo Dolores, da Mimulus Cia de Dança. | Foto: Daniel Tortora/Dança em Pauta
Cena do espetáculo Dolores, da Mimulus Cia de Dança. | Foto: Daniel Tortora/Dança em Pauta

Indo um pouco além, na grande maioria das vezes em que um casal dança – com a devida entrega à música e ao par, de forma bem conectada – temos ali uma relação de cumplicidade, sensualidade, passionalidade, em maior ou menor grau, dependendo do gênero musical e do nível de envolvimento a que os pares se propõem. E, na extensa maioria das coreografias criadas, essa visceralidade envolvida e essa paixão intensificada pela música são bastante exploradas, inclusive na interpretação por parte dos dançarinos.

E aí surge a grande questão: a paixão é reta ou curva?

Talvez o leitor estranhe a pergunta, e pode estranhar ainda mais as que virão a seguir, que servem para ilustrar melhor onde pretendemos chegar.

Quando você beija na boca, seu corpo descreve desenhos mais curvos ou retilíneos? E um casal se amando calorosamente? Ou, de forma mais sutil, como são os gestos de alguém que fala, que descreve a sua paixão, o seu desejo? Você já reparou como nesses momentos gesticulamos com os ombros, os braços e mesmo os dedos, muitas vezes nos curvando, até nos retorcendo? Claro que nem precisamos dizer como o abraço é redondo por natureza e, quando bem acalorado, é torto, retorcido.

Renata Alencar e Lucas Valente em Ngali.
Cena de Ngali, espetáculo da São Paulo Cia de Dança coreografado por Jomar Mesquita. | Foto: Wilian Aguiar/divulgação

No momento em que tudo isso me veio à consciência foi que decifrei o enigma. A causa do meu incômodo era me deparar com essa incoerência entre a prevalência de linhas retas numa coreografia executada por um casal “falando” de paixão, desejo, amor ou desamor. Era “esquizofrênico”. E então passei a entortar cada vez mais as figuras, os desenhos, as linhas de braços, pernas e coluna dos bailarinos. Sinto que o resultado coreográfico é muito mais fiel à essência do salão de baile, às origens daquela dança. E também às sensações a serem transmitidas.

Entretanto, é sempre importante lembrar que, em se tratando de arte, de criação, nenhum conceito é absoluto. Portanto, já vi trabalhos geniais onde a paixão é maravilhosamente representada com infinitas linhas de braços e pernas bem coreografados. Assim como uma linda linha reta subitamente descrita por um gesto, em meio a uma coreografia cheia de desenhos tortuosos, pode contrastar com aquele contexto “torto”, se sobressaindo e ganhando uma força sem igual e desejada pelo criador.

Cena do espetáculo Pretérito Imperfeito, da Mimulus Cia de Dança. | Foto: Guto Muniz/divulgação
Cena do espetáculo Pretérito Imperfeito, da Mimulus Cia de Dança. | Foto: Guto Muniz/divulgação

De forma menos literal, também usamos esse conceito de “entortar” na maneira como desconstruímos os passos mais tradicionais das danças de salão. Como uma ferramenta de criação para se chegar a algo distante do lugar comum, do clichê. A busca da forma, do movimento mais estranho. Somos frequentemente induzidos a pensar erradamente no estranho como sendo algo feio, ruim ou mesmo perigoso. Mas o estranho é somente o diferente dos padrões e o diferente pode ser lindo, surpreendente, admirável, maravilhoso!

Vamos entortar, mas sem perder a essência. “Entortar” a maneira de pensar a criação coreográfica em danças de salão, mas mantendo a fidelidade às origens.

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Professor, coreógrafo e bailarino, dirige a Associação Cultural Mimulus, a Mimulus Cia. de Dança e a Mimulus Escola de Dança desde 1990, desenvolvendo extenso trabalho de pesquisa das danças a dois em seus países de origem. Criando uma linguagem própria e inovadora, que se renova a cada espetáculo, alcançou prêmios e críticas favoráveis em todo o mundo. Desenvolve também trabalhos como professor e coreógrafo de outros grupos profissionais de dança e teatro, destacando-se: São Paulo Companhia de Dança, Balé Teatro Castro Alves, G2 do Teatro Guaíra, Grupo Galpão, Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi, Cia. Burlantins, Cia. Sociedade Masculina e Cia. de Dança de Minas Gerais.

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