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Gelo ou calor? Como tratar lesões na dança

Quem movimenta o corpo, na dança, no esporte ou na rotina diária, provavelmente já teve esta dúvida: em caso de dor ou machucado, uso frio ou calor?

O uso empírico da termoterapia já data de séculos, mas muito tem sido estudado sobre o tema, procurando saber qual o seu mecanismo de ação e em que situação específica é melhor usar um ou outro.

O uso do gelo, também chamado de crioterapia, é recomendado no tratamento de lesões recentes, ou agudas, como entorses, contusões, luxações e quedas. O frio promove a vasoconstrição, ou seja, os vasos sanguíneos diminuirão de calibre, levando menos sangue ao local afetado. Com isto, evita-se uma grande reação inflamatória, menos edema é formado, o metabolismo local se mantém baixo e a recuperação ocorre mais rápido. E mais: se o frio for utilizado por períodos superiores a 15 minutos e o tecido chegar a menos de 10 graus, teremos o efeito oposto, a vasodilatação. Pode parecer paradoxal, mas o organismo entende que, se os vasos superficiais estão contraídos, ele deve dilatar os profundos, para garantir que chegue sangue àquele segmento. Este fenômeno, chamado de vasodilatação reflexa profunda, também pode ser um dos mecansimos que torna a crioterapia eficiente em situações tão diversas.

Por outro lado, o calor promove a vasodiladação, ou dilatação dos vasos sanguíneos, levando mais sangue ao local. O líquido sinovial (lubrificante articular natural) fica mais fluido, ocorre melhor oxigenação, mais produção de anticorpos, maior transporte de nutrientes e enzimas para o tecido danificado, e maior limpeza de metabólitos (a “sujeira bioquímica”). É um grande colaborador no processo de recuperação, permitindo que os músculos fiquem relaxados para realização de exercícios, massagens, etc.

Tanto o frio quanto o calor oferecem inegável efeito analgésico, proporcionando conforto e manutenção das funções através da diminuição da dor. Em várias situações pode ser indiferente utilizar um ou outro. Em outras, como na espasticidade, pode-se usar a alternância entre ambos.  Vamos destacar aqui algumas situações de uso preferencial e particularidades na dança de salão.

Uma das queixas mais comuns após a prática de dança de salão é a dor lombar (dor “nas costas”, aproximadamente na altura da cintura); é mais comum em mulheres, sobretudo nas que usam saltos muito altos para a prática, mas homens também apresentam esta queixa. Está muito relacionada à fraqueza da parede abdominal, permitindo que a curva normal da coluna fique exagerada (hiperlordose lombar).  Nesta situação, os músculos paravertebrais, que ficam ao lado da coluna vertebral, como pilares de sustentação, contraem-se para tentar proteger aquela estrutura que está sendo “mal utilizada”. Esta contração gera uma rigidez muscular dolorosa que percebemos ao final da atividade. O calor, então, estaria muito bem indicado para induzir um relaxamento das fibras musculares e alívio da dor. Cabe ressaltar que, nas referências científicas, o uso do frio também estaria correto nesta situação. Porém, empiricamente, no decorrer da experiência clínica e da prática de dança, temos observado que o calor, nestes casos, proporciona um maior conforto. Quem pode negar o alívio de um banho quente após uma atividade muscular extenuante?

Outro ponto deve ser lembrado: não basta aliviar a dor, deve-se corrigir o erro de postura ou execução do movimento que levou à contratura. Aí entra a importância de um professor atento e bem preparado, observando e orientando o aluno sempre. No exemplo da dor lombar é fundamental salientar a necessidade do reforço abdominal para a correção postural.

As lesões mais frequentes na dança (em todas as modalidades, não apenas na dança de salão) não são as agudas, como entorses, fraturas ou eventos mais “dramáticos”; se lembrarmos de nossos colegas e do convívio em sala de aula, veremos como são raras estas situações. Já as lesões crônicas, causadas por pequenos erros repetidos por longo tempo, estas sim, são realmente frequentes. Portanto, atenção a dores recorrentes e constantes: elas podem estar apontando para um erro de técnica que deve ser corrigido.

Outro exemplo interessante é a dor no ombro direito em cavalheiros, decorrente dos movimentos de condução na posição social de dança. A sobrecarga deste membro superior, em comparação ao esquerdo, é ainda mais marcada em ritmos como o tango e o samba de gafieira, que utilizam bastante o abraço fechado. Se o cavalheiro não tiver uma musculatura de ombro fortalecida (deltoide, manguito rotador), pode desenvolver tendinites e bursites por esforço repetitivo. Neste caso, a melhor opção seria o gelo, uma vez que o calor está contraindicado em processos inflamatórios agudos, e pode até piorá-los. As bursites são inflamações das bursas, “almofadas” de conteúdo líquido que protegem extremidades ósseas, e o calor pode aumentar a produção deste líquido, piorando-a.

Bem, as situações relatadas são apenas exemplos ilustrativos bem particulares da dança de salão. Cabe ressaltar que ainda há controvérsias na literatura científica sobre termoterapia, e não há recomendações absolutas. Mas, para facilitar nosso entendimento e a tomada de atitudes no cotidiano da escola de dança, elaboramos algumas sugestões, baseadas no que já está posto, e em vivências clínicas e corporais:

É MELHOR USAR GELO:

  • Em lesões agudas, traumáticas ou recentes, como bursites, entorses, luxações e quedas;
  • Em casos de “desgaste” articular (osteoartrite, ou “artrose”), pelo aumento da viscosidade do líquido sinovial.

NÃO USE GELO quando houver doenças causadas ou pioradas pelo frio (urticária, crioglobulinemia, Raynaud, hemoglobinúria, problemas circulatórios, etc). Consulte seu médico a respeito.

É MELHOR USAR CALOR:

  • Quando houver espasmos (contraturas, tensões) musculares;
  • Em processos inflamatórios crônicos ou lesões com inflamações brandas;
  • Para reduzir a dor da rigidez articular. O calor diminui a viscosidade do líquido sinovial;
  • Em processos de cicatrização interna (por exemplo, dias ou semanas após um entorse de tornozelo);
  • Antecedendo manobras de manipulação muscular ou massoterapia (o resultado tende a ser melhor);

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NÃO USE CALOR:

  • Em processos inflamatórios agudos;
  • Quando houver transcorrido menos de 48 horas de uma lesão traumática, como um entorse (pode piorar o edema);
  • Em bursites (a vasodilatação provoca o aumento da produção de líquido e distende ainda mais esta pequena bolsa de fluido, piorando a dor);
  • Quando houver febre;
  • Próximo aos olhos ou genitais;
  • Sobre cicatrizes de queimadura, lesões de pele abertas, sangrantes ou infeccionadas, hematomas ou tromboflebites;
  • Em pessoas com a sensibilidade da pele diminuída (como diabéticos, por exemplo), pelo risco de queimadura imperceptível.

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COMO PROCEDER?

Existem vários métodos de termoterapia com frio ou calor que devem ser aplicados somente por profissionais da área da sáude. Nesta categoria estão infravermelho, laser, turbilhão, forno de Bier, parafinagem (calor superficial), ondas curtas, ultra-som (calor profundo), turbilhão frio, massagem com gelo e tanques de imersão.

Como nossa orientação, aqui, é para medidas que podem ser realizadas rotineiramente na escola de dança, dentro da relação aluno-professor, aqui vão dicas simplificadas:

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USO DO GELO:

  • Utilizar sprays, compressas, sacos de gelo ou packs de gel. Se você é professor ou administrador de escola, tenha sempre à mão estes materiais;
  • A temperatura deve variar entre zero e 18 graus centígrados. Períodos intermitentes de aplicação do gelo são mais efetivos para analgesia do que usá-lo continuamente;
  • O ideal são sessões de 15 a 20 minutos. Excedendo 30 minutos já pode haver risco de ulceração e paralisia dos nervos periféricos.

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USO DO CALOR:

  • Utilizar Termogel, compressas ou bolsa de água quente enrolada em toalha úmida, em sessões de 15 a 20 minutos;
  • Um banho quente ou imersão em piscina térmica podem ter o mesmo efeito relaxante e analgésico.

Não esqueça de ouvir as recomendações de seu professor e corrigir os erros que levaram à dor. Consulte um profissional de saúde para orientações personalizadas e…dance para sempre!

Leitura recomendada

  • BLEAKLEY, C. M. et al. The PRICE study (Protection Rest Ice Compression Elevation): design of a randomised controlled trial comparing standard versus cryokinetic ice applications in the management of acute ankle sprain. BMC Musculoskelet Disord; 8: 125, 2007.
  • COSTA, T. V., et al. Avaliação entre a eficácia do alongamento utilizando calor profundo e crioalongamento/ Evoluation between the effectiveness of strechching using deep heat and chryostretching Ter. man; 6(27): 293-298, set.-out. 2008.
  • FELICE, T. D., SANTANA, L. R. Recursos Fisioterapêuticos (Crioterapia e Termoterapia) na Espasticidade: Revisão de Literatura. Rev Neurocienc; 17 (1): 57-62, 2009
  • GRAZIO, S. Non-pharmacological treatment of musculoskeletal pain. Reumatizam; 54(2): 37-48, 2007.
  • GRAZIO, S. Hot and cold treatments. Relieving aches and pains. Mayo Clin Health Lett; 23(8): 7, 2005 Aug.
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

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