Eu danço

Gabriel Matías: um “Flamenconauta” brasileiro em terras espanholas

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Em 2010, a UNESCO concedeu ao Flamenco o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade. Com a proposta de fazer valer o título, apresentando uma mostra do que é feito atualmente pelo mundo, a ‘Flamenconautas – Compañía Internacional de Flamenco’, dirigida pelo espanhol Javier Latorre, reuniu artistas de 12 países para a sua estreia, em fevereiro deste ano, no Festival de Jeres, o mais importante do gênero. Entre os bailaores da cia, está o brasileiro Gabriel Matías, que aos 23 anos é considerado um dos expoentes do flamenco brasileiro.

gabriel-matias_flamenco_perfilGabriel teve seu primeiro contato com o Flamenco aos 10 anos, em Porto Alegre, acompanhando a mãe nas aulas de dança. “Minha mãe é a grande culpada de eu estar dançando”, brinca o bailaor, destacando o grande apoio que sempre teve dos pais e da irmã na escolha da profissão. Aos 11 anos, a convite do professor Robinson Gambarra, ele deixou de apenas assistir e começou a participar das aulas. “Na primeira vez que ele me convidou não aceitei, porque achava que era coisa de menina. Mas eu já gostava daquilo só de ficar olhando, então ele insistiu e eu acabei aceitando”, recorda.

Superado o preconceito, ele entrou no universo do flamenco com toda intensidade, fazendo aulas quase todos os dias. Após apenas três meses de estudo, em dezembro de 2006, o garoto participou de seu primeiro espetáculo apresentando duas coreografias e, no verão de 2007, começou a dançar no Tablao da escola.

Com sua paixão pela dança, aos 13 anos ele já ministrava aulas para adultos, substituindo outros professores, e aos 15 passou a assumir turmas próprias. Neste período, além de Robinson, teve aulas também com Pedro Fernandez, Andrea Franco, Miri Galeano, Stephano Domit e Miguel Alonso, entre outros.

Em 2010, começou a fazer aulas particulares com Juliana Prestes e, no ano seguinte, ao concluir o ensino médio veio o dilema sobre a carreira. “A arte é uma profissão muito instável, então tinha muitas dúvidas. Prestei vestibular para Relações Públicas em 2011 e não passei. No ano seguinte comecei o cursinho em março e parei em abril. Pensava em um plano B, mas estava me enganando. Não aguentei porque eu sabia que não era o que eu queria”, relata.

O bailaor em cena do premiado espetáculo Las Cuatro Esquinas, da Cia Del Puerto.
O bailaor em cena do premiado espetáculo Las Cuatro Esquinas, da Cia Del Puerto. | Foto: Carlos Sillero

A decisão não poderia ser mais acertada. Ainda em 2012, Juliana o convidou a integrar a Cia Del Puerto que lançava naquele ano o espetáculo Las Cuatro Esquinas, que ficou em cartaz por três anos e viajou por várias cidades brasileiras. A obra ganhou o Prêmio Açorianos de Dança 2012 como Melhor Espetáculo e garantiu a Gabriel seu primeiro prêmio de Melhor Bailarino.

Em 2013, o bailaor fez sua primeira viagem a Espanha, onde viveu dois meses de imersão na cultura flamenca fazendo aulas, assistindo espetáculos e também conhecendo o famoso Festival de Jeres. “Quando voltei ao Brasil estava muito contaminado com tudo o que eu tinha vivenciado e passei a ensaiar muitas horas por dia”, ressalta. O resultado da dedicação foi ganhar um concurso de Tablao em Porto Alegre, em setembro, que tinha entre os membros do júri o bailaor argentino Adrián Galia. Acabou indo estudar com Adrián em Buenos Aires e lá recebeu o convite para se apresentar no ‘Encuentro Flamenco Independiente de Buenos Aires’, no ano seguinte.

O trabalho de Gabriel ganhava cada vez mais repercussão e, em 2014, ele participou de outro espetáculo da Cia Del Puerto, Consonantes, desta vez atuando também como coreógrafo e conquistando novamente o Prêmio Açorianos de Melhor Bailarino.

OS FRUTOS DO FLAMENCO

Em 2015, Gabriel partiu novamente para estudar em Madri e a viagem, prevista para três meses, acabou resultando em sua entrada para o Conservatório Superior de Danza María de Ávila, onde ele iniciou o curso de Pedagogia do Baile Flamenco.

Gabriel Matias em cena do espetáculo Vamo Alla, da Cia Flamenconautas | Foto: divulgação.
Gabriel Matias em cena do espetáculo Vamo’ allá, da Cia Flamenconautas | Foto: divulgação.

Hoje, após três anos morando em Madri ele se diz adaptado a cidade e a cultura e cada vez mais inserido no panorama flamenco da região. Além da Cia Flamenconautas, também dançou na cia de Antonio Canales, profissional de destaque no meio, ministra aulas de flamenco e se apresenta em Tablaos. No ano que vem ele conclui o curso, mas diz que não pretende voltar a morar no Brasil, ao menos pelos próximos cinco anos. Ele espera poder se dedicar mais as apresentações e ao seu desenvolvimento como bailaor nos palcos, uma vez que, segundo ele, as aulas no conservatório ocupam quase todo seu tempo atualmente.

Apesar de afirmar que acima do amor ao flamenco está o amor a sua família, Gabriel comenta que o flamenco é algo que o torna completo. “O flamenco pra mim é terra, porque é minha base, a maneira que tenho de me expressar, de me comunicar, é meu mundo. É por meio dele que consigo me desenvolver, conheço meus amigos, tenho uma profissão, me sinto feliz e frustrado muitas vezes também. É uma terra que me dá muitos frutos, mas é preciso plantar e cuidar”, diz Gabriel.

E são estes frutos que ele virá apresentar no Brasil, em junho deste ano, em Curitiba, em sua participação especial no espetáculo “De Sur a Sur: Frutos de Nuestra Tierra”, do grupo Perla Flamenca, dirigido pela bailaora Miri Galeano e pelo guitarrista Jony Gonçalves. “Fiquei encantadíssimo com o convite para o espetáculo. Quando comecei a dançar a Miri já era muito conhecida no Brasil, então dividir o palco com ela, agora, representa muito pra mim. Fico recordando desde quando comecei a dançar até aqui, e vejo que deu certo. Estudei, aprendi e estou aprendendo. É muito especial”, afirma.

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“De Sur a Sur” é um espetáculo em constante construção. Em sua primeira edição com o tema “Inspirados em la raiz bailamos nuestro sentir”, o espetáculo apresentou uma afirmação do flamenco paranaense, valorizando as raízes desta arte. Desta vez, a ideia é prestigiar os artistas e a produção flamenca de todo o Brasil, fazendo uma ponte entre a cena flamenca da Espanha e do Brasil, o que com certeza Gabriel poderá fazer com grande embasamento por meio de sua vivência em terras espanholas.

Para quem quiser conferir o trabalho do jovem gaúcho em sua passagem pelo Brasil, tem mais informações sobre o espetáculo no site do grupo Perla Flamenca. www.perlaflamenca.com.br

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

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