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Forró: do nordeste Para Todos os brasileiros!

Forró, palavra curta, mas de imenso significado. Na interpretação popular, desmistificada por alguns estudiosos, a palavra teria origem na pronúncia do nordestino para o inglês “for all” (para todos), que era escrito na entrada dos bailes promovidos pelos britânicos construtores de ferrovias no nordeste, no início do século XX. Já de acordo com o folclorista Luís da Câmara Cascudo, o termo deriva de forrobodó, que significa farra, confusão, desordem, baile com festa.

Mas o que é o forró para você? Música e dança nordestinas? Qual será o alcance do forró em nível nacional e internacional? Que tipo de pessoa aprecia forró? Ele é bem visto pelos brasileiros, ou há algum tipo de preconceito a ele associado? Quais influências esse gênero recebeu para tornar-se o que é hoje?

Essas questões começaram a permear meus estudos teóricos sobre forró no preparo de aulas de musicalidade para cursos de professores. Ao ler diversos textos e artigos sobre o assunto surgiram algumas respostas e outras tantas perguntas. Mas o estudo despertou em mim, principalmente, uma sensação incômoda de que nós brasileiros talvez valorizemos menos o forró do que ele de fato merece.

Esta inquietação foi a motivação para este texto, que objetiva muito mais uma reflexão do que uma conclusão definitiva sobre o assunto. Para isso contei com o conhecimento do professor Fábio Reis, de São Paulo, bicampeão nacional de forró e um estudioso do ritmo, que possui extenso trabalho com o gênero. Filho de sertanejos da Bahia e vivenciando o forró nas festas de famílias durante as suas férias de infância, ele compartilhou comigo algumas de suas experiências e opiniões pessoais, através das quais podemos observar um pouco da cultura nordestina, raiz do forró, e da forma como ela se apresenta atualmente por todo o país.

Do toque da sanfona ao som do sintetizador,
a voz do nordeste!

Em nossas conversas, Fábio relatou sua admiração pelos vários músicos que tocam forró divinamente, há anos, sem nunca terem estudado nenhum tipo de técnica relativa à música e aos instrumentos que dominam e que, ainda assim, contagiam diversas pessoas com esse som repleto da mistura de alegria e desventura, festa e tragédia. Ele lembra que o nordestino é um povo totalmente realista com as dificuldades que passa, mas que valoriza muito o final de semana, as festas religiosas e o sociabilizar, não deixando que a seca e até mesmo a falta de alimentos roube a grande alegria de alma que eles possuem. E ele diz isso com propriedade, pois sua avó ainda vive no interior do nordeste, em uma região extremamente árida, em que a luz elétrica chegou há pouco tempo.

Acredito que esta é uma visão real e poética ao mesmo tempo. O pesquisador Renato Phaelante, da Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco, diz: “A música nordestina, apesar de provir de uma região de tragédia, sempre foi muito bem humorada”. Se refletirmos sobre esta frase e lembrarmos de filmes fantásticos como o “Auto da Compadecida”, perceberemos o quão admirável é esta imensa capacidade dos nordestinos de transformarem sofrimento em alegria em sua poesia cantada pelo forró. E sempre foi assim, desde o forró tradicional ou pé de serra, até o forró eletrônico de hoje em dia.

Não é à toa que o nome do gênero é associado à festa, pois quando os nordestinos mudaram para os grandes centros urbanos em busca de trabalho, por volta de 1955, para amenizar a saudade de sua terra, surgiram locais como o Forró do Pedro Sertanejo, no bairro do Brás, em São Paulo, e no Rio de Janeiro o Forró do Xavier, primeiro no bairro de Botafogo, mudando-se depois para o Flamengo. Nestes locais, os migrantes podiam ouvir e dançar o tão sonhado forró. Destas primeiras casas surgiu uma multiplicidade de outras em que, na atualidade, se pode dançar forró todos os dias em muitas capitais do Brasil.

Inicialmente, essas casas noturnas e o forró tradicional eram vistos como excessivamente populares, bregas no sentido pejorativo do termo, e frequentados pela classe econômica mais baixa da população. No entanto, mesmo hoje em dia, em que muitos jovens buscam aulas de forró nos grandes centros e existem diversas casas noturnas do gênero, aparentemente, essa visão ainda existe, ao menos musicalmente falando, no caso do forró eletrônico.

O forró tradicional é aquele que deriva ritmicamente do baião, xote, xaxado, coco e quadrilha e que era tocado por grupos ou Trios de Forró, dos quais faziam parte, principalmente, a zabumba, o triângulo e a sanfona, mas que também podiam incluir a rabeca, o pandeiro, o agogô, a viola e o cavaquinho. O forró eletrônico já sofreu uma influência maior da MPB, sertanejo romântico, pagode e até da axé music e incluiu a guitarra, o baixo, os teclados, a bateria, o saxofone e os sintetizadores, dentre outros, em substituição ou além dos originais. O excessivo romantismo de algumas letras, ou de luzes e cores nas vestimentas e shows de algumas bandas desse estilo de forró, talvez estejam relacionados à resistência ainda existente.

É claro que algumas músicas podem ser lançadas muito mais com o objetivo comercial do que de valorização cultural e ter essa consciência é algo importante. Contudo, Fábio acredita que o surgimento do forró eletrônico é uma evolução natural advinda do forró tradicional e que, na maior parte das vezes, existe resistência ao que é novo. É claro que a ideia não é esquecer ou não mais disseminar o forró tradicional, até porque, culturamente, é importante conhecermos e valorizarmos nossas origens, mas ter em mente que mudanças também têm seu lado positivo e que, possivelmente, contribuíram para que o forró tenha caído no gosto de pessoas mais jovens, sendo muito mais ouvido e dançado atualmente do que há 30 anos. Assim, sem declinar do som pulsante da zabumba que embala um bom pé de serra “coladinho”, por que não dançar também um forró eletrônico “arretado” e ultra rápido junto ao som do sintetizador? Na opinião do radialista Expedito Duarte Amorim, o Mano Novo, apresentador do programa Forró Nativa, que entrevistou Luiz Gonzaga, se o Rei do Baião, pai do forró tradicional, estivesse vivo, ainda que sem perder a sanfona de vista, estaria tocando com as bandas de forró eletrônico. Imagino que, possivelmente, isto se deveria a sua visão empreendedora, entendendo que transformação tem tudo a ver com sobrevivência.

Talvez a visão preconceituosa que vem desde as origens populares do forró, mas que é, em parte, ainda vigente, seja um dos fatores que faça com que o ritmo não pareça ter o mesmo prestígio no Brasil, do que, por exemplo, tem o samba. Logicamente, essa ideia não se aplica ao nordeste em que, nos dias atuais, há imensas festas juninas em que quadrilhas multicoloridas e ricamente coreografadas atraem milhares de turistas para algumas cidades da região. Aliás, Luiz Gonzaga e Zé Dantas já cantaram em ‘São João Antigo’:

“Vou passar o mês de julho, nas ribeiras do sertão, onde dizem que a fogueira, ainda aquece o coração. Para dizer com alegria, mas chorando de saudades, não mudei meu São João, quem mudou foi a cidade”.

Sobre as comemorações do São João, Fábio ressalta que fora dos grandes centros do nordeste ainda é possível encontrar a festa junina com sua ingenuidade e simplicidade típicas, o que, pensando em origens culturais, não deixa de ser reconfortante. Para ele, que já se apresentou na Europa divulgando nosso forró, a falta de um maior reconhecimento do gênero ocorre mais no Brasil do que no exterior, em que eventos de forró chegam a atrair mais público do que os de samba. Isto também se deve ao fato de que, internacionalmente, o samba é muito mais associado ao samba enredo e escolas de samba, do que ao samba de gafieira dançado a dois.

Então, será que nós brasileiros não estamos deixando de valorizar suficientemente esse gênero fantástico e rico que é o forró? O que fazer para mudar esta realidade? Podemos voltar a discutir o tema e o que fazer para essa valorização aumentar, mas, por enquanto, gostaria apenas de registrar estas ideias para reflexão e deixar o espaço aberto a discussões e sugestões. Acredito que aqueles que apreciam dançar a dois e um bom forrozinho são muito importantes nessa proposta. E os professores de dança de salão e de forró, a meu ver, têm a importante responsabilidade de disseminar corretamente e valorizar o que é uma das manifestações mais genuínas da cultura nacional, afinal, aproveitando a proximidade da Copa de 2014: é forró, é música, é dança e é do Brasil!!

* Por Ana Maria Caliman Filadelfi e Fábio Reis
Ana é especialista em dança de salão pela FAMEC; técnica musical em piano; mestre e doutora em Biologia pela USP, é docente do Departamento de Fisiologia do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Praticante de dança de salão desde 1993, atualmente é professora na Oito Tempos Escola de Dança, em Curitiba. Fábio é professor, dançarino, coreógrafo, DJ e proprietário da escola Applausos Ritmos, em São Paulo. Trabalha com dança desde 2002 e é especialista em forró, ritmo do qual é bicampeão nacional.

Imagens: xilogravuras de J. Borges, Fred Ozanan e Severino Borges; ilustração de Paulica Santos

LEITURA RECOMENDADA:

  • Florião, L. Dois dedos de prosa sobre o forró. Jornal Dança Arte e Ação, nº 47, p. 10. Rio de Janeiro (disponível aqui)
  • Silva, E. L. Forró no asfalto: mercado e identidade sociocultural. Editora Annablume, São Paulo, 2003, 153 p.
  • Phaelante, R. Forró: identidade nordestina. Folclore, nº 227, 1995. (disponível aqui)
  • Tinhorão, J. R. Os sons que vem da rua. Editora 34, São Paulo, 2005, p. 187 a 189.

 

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4 Comments

  1. Perdão por só ver os comentários bem depois… Apesar de no meu gosto pessoal, eu também preferir o forró tradicional ao eletrônico, uso este último eventualmente nas minhas aulas, pois acredito que a arte tem que ser permissiva para o novo e que nossos alunos merecem conhecer ao máximo os sub estilos de cada ritmo. Não tenho nenhum tipo de lucro pessoal direto com isso!
    E, até aonde eu sei, o trabalho do professor Fábio vai bem além do forró eletrônico…
    No entanto, respeito imensamente as opiniões aqui deixadas e é ótimo que todos possam expressar as suas!!! Saudações forrozeiras a todos que amam este ritmo independentemente de suas variantes!! 🙂

  2. Mesmo com toda essa ótima argumentação, em minha modesta opinião, o dito forro eletrônico está longe de ser comparado como uma evolução do forro tradicional(ou normal), acho sim, uma verdadeira “distorção” ou melhor “uma aberração” com o nosso ritmo nordestino. E, em termos internacionais, com essa “papagaida” toda do dito “forro eletrônico”, estão vendendo “gato” por “lebre”, para os “gringos”…

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