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Flamenco: uma paixão antiga dos brasileiros que vem ganhando força pelo País

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Em julho deste ano, foi realizado o primeiro workshop de flamenco da história do Festival de Dança de Joinville, que foi registrado pelo portal Dança em Pauta em matéria neste link.

O fato peculiar não é o convite feito pelo Festival de Dança à bailaora Miri Galeano para ministrar as aulas de flamenco, mas sim isso ter acontecido somente em 2017, já que o interesse e amor dos brasileiros pelo flamenco é algo antigo.

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A bailaora espanhola Carmen Dauset, a Carmencita, que viveu no Brasil no século XIX | Pintura de William Merritt Chase

Ao olhar para a história do flamenco no Brasil, vemos que desde 1889 há registros desta arte em diferentes regiões do território brasileiro. De acordo com a pesquisa do flamencólogo Juan Vergillos, a bailaora espanhola Carmen Dauset, conhecida como Carmencita, viveu no Brasil e morreu no Rio de Janeiro em 1902.

Conforme dados levantados pelo estudioso espanhol, o Jornal do Brasil noticiou em 03 de outubro de 1889 a presença de Carmencita em uma festa carioca e, em 19 de janeiro de 1901, a participação da “famosa cantora e bailarina hespanhola” no Moulin Rouge do Rio. A pesquisa também mostra que a celebridade espanhola levou sua arte para outros locais do Brasil, pois em 1902 embarcou para o Recife como bailarina de uma companhia de zarzuela, gênero lírico-dramático espanhol, que unia cenas teatrais, música e dança.

Carmencita também foi a primeira mulher a aparecer em imagens em movimento, como mostra o vídeo abaixo, editado pelo site “Cinematheque Froncaise” com imagens do site da Livraria do Congresso, dos EUA.

De lá para cá muita coisa mudou. Hoje, no Brasil, há muitos aficionados, estudiosos, profissionais e alunos ligados ao flamenco, seja através da música, da dança ou de seu estudo acadêmico. É possível afirmar que há um grupo grande de “flamencos” no Brasil. Em uma pesquisa rápida na internet, encontrei mais de 115 escolas, das quais, muitas se dedicam exclusivamente a esta arte. Além disso, existe um mercado de roupas, acessórios, sapatos e instrumentos musicais, fruto de empreendedores brasileiros, que buscam, como meio de vida, fornecer suportes materiais para o estudo e execução da arte flamenca.

Apesar de tanto amor e interesse, o flamenco ainda busca espaços de expressão e de diálogos com outras artes, especialmente no nosso país. Mesmo tendo transcendido seu berço (Espanha), sendo declarado Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade, o flamenco ainda é, muitas vezes, confundido com algo folclórico e classificado como danças populares. Destaco que, de forma alguma, é pejorativo o título de folclórico ou de dança popular, mas é certo que esta não seria a classificação mais adequada para o flamenco.

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Do ponto de vista metodológico, o flamenco é um gênero de dança e de música, configurando uma arte autônoma, que possui história, linguagens, signos e códigos próprios, bem como estruturas coreográficas e corporais distintas de outras danças. O flamenco vai além do folclórico, sendo um gênero artístico e uma manifestação cultural viva, em constante transformação, acompanhando as evoluções e involuções sociais, considerando o aspecto cíclico da história, bem como influenciando e sendo influenciado por todo o entorno cultural em que é praticado e estudado. Prova disso é que, na Espanha, há o estudo de Flamencologia nas universidades. Também nos conservatórios espanhóis, e em outros países da América do Sul, seu estudo tem cadeira própria.

Workshop de Dança Flamenca no Festival de Dança de Joinville 2017, ministrado por Miri Galeano e Jony Gonçalves. | Foto: divulgação
Workshop de Dança Flamenca no Festival de Dança de Joinville 2017, ministrado por Miri Galeano e Jony Gonçalves. | Foto: divulgação

Nesse contexto, a participação do flamenco no Festival de Dança de Joinville em 2017 é significativa, pois deixa visível a nova fase dessa arte no Brasil. Acompanhando a tendência mundial, cada vez mais essa forma de expressão distancia-se do exótico tão bem apropriado pelo romantismo – que será tema de outro artigo nesta coluna -, para solidificar-se como arte e forma de expressão, com espaço tanto para o estudo virtuoso, quanto para a vanguarda de criação artística.

Com o recorte deste importante fato para a história do flamenco do Brasil, iniciamos esta coluna, que vai tentar transitar entre o antigo e o contemporâneo, a memória histórica e a notícia mais recente, valorizando a raiz e o flamenco vivido e compartilhado no nosso país.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Integrante do Grupo Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano (Perlita) e Jony Gonçalves, adora ouvir e contar histórias, seja com palavras, com a dança ou com imagens. Jornalista, formada pela UFPR e bacharel em Direito pela Unicuritiba, pós-graduada em Estética e Filosofia da Arte pela UFPR. Cursou mestrado em Sevilha, onde se perdeu muito pelas ruas, tirou fotos com famosos e mergulhou na cultura flamenca.

2 Comments

  1. Maravilhoso descobrir essa coluna sobre o flamenco! Muito bem escrita, com as consultas bibliográficas, muito bem articulada e o melhor….escrita por quem ama o flamenco! Achei um mapa do tesouro! Obrigada e parabéns Letícia Volpi pela coluna!

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