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Escutando sua dança

Muitas vezes, observamos um casal dançar, admirados, e nos pegamos pensando: “o que faz a dança daquele par tão especial?”. Várias respostas poderiam ser dadas, por exemplo, o casal pode ter uma perfeita harmonia em sua movimentação; uma interação envolvente incluindo olhares e abraço; ou apresentar uma qualidade de movimentos tecnicamente superior, postura e equilíbrio notáveis; etc. No entanto, um dos motivos que normalmente é citado é que esse casal, com certeza, dança no ritmo da música e parece interpretá-la com seus movimentos.

Hoje em dia, diversos profissionais da dança de salão têm usado a palavra musicalidade para expressar o conceito de uma dança que realmente esteja conectada e coerente com o que a música expressa. Musicalmente falando, dançar no ritmo da música é seguir o tempo ou o pulso da música, já que o conceito de ritmo é bem mais abrangente do que simplesmente a pulsação musical.

Na realidade, o conceito de musicalidade não existe sem o de ritmo, pois todos são elementos da mesma música. Entretanto, quando usamos a palavra musicalidade estamos nos referindo a aspectos que não estão somente associados à parte mais percussiva e dos instrumentos que estabelecem o acompanhamento rítmico e o pulso musical, mas também às questões melódicas e dos vários planos ou linhas musicais que possam ser identificados na mesma.

Se uma dança de qualidade passa então por esse aspecto da musicalidade, se todos nós, praticantes e profissionais da área, sempre almejamos e admiramos uma dança com essa característica mais “musical”, seria possível incorporar isso à prática e ao ensino da dança de salão de maneira mais específica, rotineira, didática ou metodológica?

Em artigo publicado em setembro de 2011 na Dança em Pauta (O diálogo entre a música e a dança de salão) abordei a possibilidade dos professores de dança de salão trabalharem as questões de ritmo e musicalidade com seus alunos, buscando uma prática dançante mais musical. Algumas pessoas têm, intuitivamente, um ouvido capaz de perceber melhor as diversas nuances musicais e já aplicam, naturalmente, essa percepção na sua dança. Neste caso, os conceitos acima podem não ser totalmente indispensáveis, mas, ainda assim, podem auxiliar um professor na sistematização de como transmitir essa capacidade inerente aos alunos que, nem sempre, irão apresentá-la de pronto. Uma vez que, mesmo para o professor, essa dança mais musical não é tão fácil de executar, o aprendizado desses conceitos pode ampliar em muito o desenvolvimento dessa característica.

O assunto em questão pode fazer parte de uma ampla discussão da necessidade de que conteúdos relativos ao conhecimento de música façam parte dos cursos gerais de formação de professores de dança de salão, bem como de eventuais cursos de graduação ou pós-graduação que ainda venham a ser criados para esse tipo de formação. Contudo, embora eu acredite nessa ideia e esteja aberta à discussão a ela associada, na sequência desse artigo busco apenas dar alguns exemplos práticos de como a dança de salão pode tornar-se mais musical e, portanto, apresentar maior qualidade. Se o professor de dança de salão buscará ampliar esses exemplos sozinho, por meio de cursos ou de outros profissionais que o ensinem, acredito ser uma reflexão de cunho mais pessoal.

Como então, a dança pode ser musical?

  • Se a música tem uma parada, por exemplo, a dança pode exibir uma pose, um passo mais estático, para acompanhá-la;
  • Se tem uma pulsação mais forte, vibrante, pode-se variar a intensidade dos movimentos do casal para ser coerente com essa energia;
  • Se a pulsação constante sofre uma variação em dado momento, pode-se buscar movimentos do casal, do cavalheiro, ou da dama, em separado, que possam evidenciar essa variação;
  • Se tem uma melodia principal, pode-se variar a dinâmica dos passos que se utiliza, fracionando-os, do modo mais conveniente, para evidenciar as diferentes frases musicais dessa melodia. Em resumo, quando a frase termina, o passo é momentaneamente interrompido até o começo da próxima frase, quando é retomado;
  • Se tem diferentes planos melódicos, posso evidenciar com os movimentos não só a melodia principal, mas também esses outros planos.

Isso tudo não precisa ser feito somente através dos passos, é possível utilizar-se diferentes partes do corpo para mostrar todas essas nuances. É possível ainda, que o cavalheiro mantenha-se, em dado momento, mais focado no aspecto do pulso musical, e a dama possa evidenciar, com seus movimentos de braços, por exemplo, uma nuance mais melódica. E essas são apenas algumas das muitas possibilidades existentes.

Para que tudo isso possa ser feito, alguns exercícios básicos podem ser aplicados como:

  • identificar a frase musical da melodia principal (quando há voz, a do cantor);
  • caminhar na frase, individualmente primeiro e depois, com o par, parando quando ela terminar e recomeçando quando ela reiniciar;
  • usar, primeiro individualmente, diferentes parte do corpo para evidenciar vários sons ou planos musicais em uma dada música;
  • pisar no tempo forte e fazer outro movimento corporal nos demais tempos do compasso, entre vários outros exercícios.

Em resumo, há um verdadeiro mundo a ser explorado para que uma prática dançante mais musical aconteça e, quando ela acontece, a dança de salão torna-se grandemente mais prazerosa e bonita de se ver!

Foto: Daniel Tortora

Então, fica aqui minha sugestão para que agucemos nossos ouvidos e busquemos os meios e/ou formação necessários para que nossa dança de salão seja um verdadeiro instrumento de visualização da música, e que essas duas formas de arte somem, portanto, em expressar o que o coração do casal dançante tem de melhor!

 

.* Por Ana Maria Caliman Filadelfi
Especialista em dança de salão pela FAMEC; técnica musical em piano; mestre e doutora em Biologia pela USP, é docente do Departamento de Fisiologia do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Praticante de dança de salão desde 1993, atualmente é professora na Oito Tempos Escola de Dança, em Curitiba.

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4 Comments

  1. Excelente texto Ana – como mencionado no comentário acima, é ótimo ver o assunto estruturado e com exemplos práticos – dessa forma mesmo quem está num nível mais básico consegue começar a aprender e a utlizar o conceito. Como aluno, percebo que esses exercícios básicos funcionam bem mesmo, além de serem divertidos.

  2. Adorei o texto! Sempre achei esta questão de ser musical ao dançar um bicho de sete cabeças, mas a forma como a autora abordou aqui, com exemplos práticos, me deixaram mais estimulada a buscar esta tal musicalidade. Pena que a autora não dá aulas aqui em São Paulo, senão gostaria de experimentar.
    Parabéns a autora e equipe da revista pela divulgação de informações que nos ajudam na caminhada dançante.

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