Colunas, Dança & Saúde

Escolas de ballet, sapatilhas e… Homens dançam em pontas?!

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Por ser objeto de desejo das bailarinas, mas que merece muita atenção e cuidado com a saúde das praticantes, o uso de sapatilhas de ponta tem várias especificidades que devem ser observadas. No artigo anterior, abordamos os princípios básicos para se dançar em pontas, e o que deve ser observado do ponto de vista físico e técnico, tanto para crianças, quanto para adultos.

Neste artigo, vamos dar continuidade ao tema ressaltando aos alunos adultos e pais a importância da escolha da escola de dança e também da sapatilha mais adequada para cada praticante. Mas nossa proposta também é falar sobre um público normalmente esquecido quando o assunto são sapatilhas de ponta, os homens.

Homens dançam em pontas? Os critérios do uso de pontas para mulheres valem para eles também?

men-women_pointeNo artigo anterior, você deve ter percebido, ao longo de todo o texto, nos referirmos sempre no gênero feminino às praticantes do ballet em pontas. Isto tem uma razão histórica, sendo esta técnica proposta, desde o seu início, apenas para bailarinas. Até hoje, em companhias tradicionais de ballet, e mesmo em companhias de dança contemporânea que usam sapatilhas de pontas, ainda vemos uma preponderância do uso deste equipamento por mulheres.

Entretanto, há, sim, homens que praticam ballet em pontas. Os primeiros registros são da década de 1950, mas é possível que tenha acontecido antes. No início, o interesse era puramente técnico, já que dançar em pontas requer um tremendo domínio corporal e fortalece os pés e tornozelos muito mais do que o trabalho em meia-ponta. Ainda hoje, muitos rapazes calçam pontas nas aulas para este fim. Mas o interesse masculino pelas pontas ultrapassou as salas de aula e já foi para a cena há muitos anos, em brilhantes trabalhos constituídos, como o do “Les Ballets Trockadéro de Monte Carlo” (companhia de viés cômico fundada em 1974) e em várias outras iniciativas pontuais em companhias ou trabalhos independentes. Experimente procurar vídeos na internet com o assunto “men on pointe” e surpreenda-se! (abaixo um exemplo de trabalho feito por bailarino do “The Australian Ballet”)

Perguntamo-nos, então, se os critérios para uso de pontas em homens seriam os mesmos que para mulheres. Esta é uma resposta totalmente especulativa, pois se os estudos em mulheres, que tradicionalmente usam pontas há mais tempo, são ainda incipientes, nada pode ser afirmado com relação aos homens. Informalmente, o que vemos, são rapazes com constituição física mais definida e maturação corporal já finalizada usando pontas. Isto pode ser devido à idade geralmente mais avançada em que os rapazes começam a dançar, em comparação com as mulheres (pelo menos no nosso meio). Na maioria das vezes, o uso das pontas para eles não é uma exigência, mas apenas um adicional do trabalho técnico, podendo haver pausas conforme a vontade do praticante, e menor pressão profissional. Estes fatores podem contribuir para uma observação de menos lesões entre os rapazes que usam pontas do que entre as moças, mas nenhum estudo foi feito oficialmente sobre isto, até o momento.

Em nosso entendimento, seria coerente pensar nos mesmos critérios de aptidão que usamos para o gênero feminino: idade de maturação óssea, força muscular, correção técnica e adesão ao treinamento. Aguardemos os movimentos desta comunidade artística para acompanhar as tendências do uso de pontas em homens, e os estudos que sobrevirão.

Há alguma regulação ou controle sobre escolas de dança quanto ao início do trabalho em pontas?

Infelizmente, não só no Brasil, mas em todo o mundo, o tema ainda tem muito a avançar. Mesmo nos países em que a Medicina da Dança é mais atuante e mais pesquisas são produzidas, não há qualquer limitante legal a que uma escola ou professor indiquem pontas antes do momento correto para uma aluna. Estima-se, nos EUA, que seis milhões de estudantes de dança estejam sendo orientados por profissionais sem a devida formação para a função. No Brasil, nem sequer existe uma noção sobre estes dados, mas informalmente vemos, em muitos festivais escolares, crianças com visível despreparo físico e técnico equilibrando-se em sapatilhas de pontas. Estas crianças estarão, talvez, entre os inúmeros alunos lesionados pelo ensino incorreto da dança, que não conseguirão retornar à prática e que terão prejuízos para sua saúde física e emocional.

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O apelo comercial é um assunto delicado, mas precisamos falar sobre ele neste momento. Várias escolas e professores tem formação adequada e até tradição no ensino de pontas. Entretanto, em nossa observação, as exigências mercadológicas vêm fazendo com que muitas escolas antecipem o uso de pontas em algumas meninas, fundindo turmas com adolescentes de várias idades. Esta não é uma prática desejável; meninas de 9 a 13 anos, como temos visto nestas fusões, podem ter estados maturacionais completamente diferentes. Algumas escolas alegam que as meninas menores farão apenas “exercícios preparatórios” e aprenderão a “calçar as pontas”. Considero que esta é uma armadilha motivacional: exercícios preparatórios podem (e devem) ser feitos em turma própria, com aula adequada para isto, e não nas pré-pontas, junto com outras colegas que já fazem pontas. Além disto, qual o efeito de uma menina de 9 ou 10 anos, numa aula de pontas, fazer apenas alguns exercícios, enquanto vê as colegas fazerem outros mais difíceis? Como ficaria sua autoestima? E seus referenciais? E sua compreensão sobre o que é adequado em cada momento?

Como pais e profissionais de dança temos o dever de promover comportamentos de maior vigilância, demanda ética e atenção à saúde. Desta forma, as escolas se adaptarão às exigências da clientela (boas práticas no ensino da dança), e não as alunas cederão às condições de mercado (fusão de turmas, apelo competitivo, etc). Seria desejável, num futuro próximo, podermos contar com a fiscalização de órgãos reguladores com relação ao tema. Esta é uma realidade que se aproxima com a crescente profissionalização da docência em dança.

Posso comprar as sapatilhas para “ir me adaptando”?

ponta_lilasNão compre a sapatilha de pontas “porque está em promoção no festival”, porque “já quer ir experimentando” ou porque as amigas já têm. Comprar uma sapatilha de pontas adequada é uma ciência. Tanto que nas grandes companhias europeias ou norte-americanas existe um profissional específico para medir e sugerir o modelo adequado de sapatilha para o pé de cada bailarina, de acordo com suas dimensões; é o “shoe-fitter”, algo como “adaptador de calçados”.

A perfeita adaptação do calçado ao pé é tão importante que se estima que metade das bailarinas clássicas profissionais encomendem sapatilhas de ponta personalizadas. O ideal é aguardar a orientação do(a) professor(a), que muitas vezes até acompanha as alunas na hora da compra. Alguns fabricantes nacionais também disponibilizam profissionais em grandes eventos para esta orientação. O importante é não comprar sem conhecimento, a sapatilha errada aumenta o risco de lesões e atrasa o desenvolvimento técnico da bailarina.

Lembretes Finais:

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  • Mesmo tendo uma idade compatível com o início do trabalho em pontas, se a aluna não tem os requisitos físicos necessários, deve seguir estudando e esperar um pouco mais, até que tenha a força, a flexibilidade e a coordenação necessárias para um trabalho seguro em pontas;
  • Apesar da cronologia não ser um determinante único, somadas todas as considerações da ciência até o momento, nenhuma aluna deve iniciar o trabalho em pontas antes dos 11 anos (completos) de idade. Fuja das escolas e festivais que aceitam alunas menores em pontas!
  • Exceções são raríssimas e, sendo francos, não devemos pensar que nós, ou uma de nossas alunas, ou nossas filhas, estão entre elas. Pontas antes dos 11 anos: não! Se a menina for uma exceção (de precocidade em condições físicas) não terá dano algum à saúde ou à carreira em dança se esperar mais um ou dois anos para começar. Se ela não for uma exceção e começar mais cedo… Aí sim, lesões, frustração e mudança de planos serão muito prováveis. Não arrisque! Melhor um pouco mais tarde do que um pouco mais cedo!
  • Não se assuste com os termos técnicos de ballet clássico que encontrou neste artigo! Para os leitores iniciados na técnica, são termos habituais. O mais importante mesmo, independente da bagagem prévia do leitor, é o entendimento do respeito ao corpo e à saúde dos jovens bailarinos. Se preferir, fique à vontade para enviar perguntas à Dança em Pauta, para consultar as sugestões de leitura abaixo ou para procurar outros bons dicionários de dança já disponíveis online.

Lembremos das palavras de George Balanchine, coreógrafo russo do século XX, fluente em obras para sapatilhas de pontas: “Não há motivo para fazer uma jovem bailarina calçar pontas se, ao subir nas sapatilhas, ela não consegue dançar!”. O trabalho a seu tempo terá os resultados adequados.


LEITURA RECOMENDADA:

  • DALE, G. Answers for dancers: is it OK for a guy to dance on pointe? Dance Magazine, January 2002.
  • HEWITT, S.; MANGUM, M.; BRYAN, T.; CLAYTON, N. Fitness Testing to Determine Pointe Readiness in Ballet Dancers. Journal of Dance Medicine & Science, 20(4), 2016.
  • HOWELL, L. Perfect Pointe Parent’s Manual. Perfect Form Physiotherapy, Sydney, Australia, 1st ed, 2007. Disponível em < http://www.newcastledanceacademy.com.au/content.cfm?page_id=561756&current_category_code=13577>
  • MECK, C.; HESS, R. A.; HELLDOBLER, R.; ROH, J. Pre-Pointe Evaluation Components Used by Dance Schools. Journal of Dance Medicine & Science, 8(2), 2004.
  • MINDEN, E. G. The Ballet Companion. Fireside, New York, 2005. 333 p.
    NOVELLA, T. M. Pointe shoes fitting and selection criteria. Journal of Dance Medicine & Science, 4(2), 2000.
  • PEARSON, S. J.; WHITAKER, A. F. Footwear in classical ballet: a study of pressure distribution and related foot injury in the adolescent dancer. Journal of Dance Medicine & Science, 16(2), 2012.
  • ROSAY, M. Dicionário de Ballet. Rio de Janeiro, Editora Nordica, 6ed. 1980.
  • WALTER, H. L.; DOCHERTY, C. L.; SCHRADER, J. Ground Reaction Forces in Ballet Dancers Landing in Flat Shoes versus Pointe Shoes. Journal of Dance Medicine & Science, 15(2), 2011.
  • WEISS, D. S.; RIST, R. A.; GROSSMAN, G. When can I start pointe work? Guidelines for initiating pointe training. Journal of Dance Medicine & Science, 13(3), 2009.
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

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