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Eleonora Greca e Wanderley Lopes: vidas entrelaçadas ao Balé Teatro Guaíra

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Ela cresceu dentro do Teatro Guaíra nas aulas e ensaios de balé. Ele mudou o rumo de sua vida, ainda adolescente, ao entrar para o Balé Teatro Guaíra. Ambos colecionam memórias vividas no interior do prédio deste teatro, bem como das inúmeras apresentações no Brasil e exterior com o balé deste Centro Cultural. Juntos, os bailarinos Eleonora Greca e Wanderley Lopes, tiveram suas vidas entrelaçadas por esta cia de dança, dentro e fora dos palcos.

perfil_wande-e-nora_porta-madeiraA familiaridade com o prédio que abriga o Centro Cultural Teatro Guaíra, na praça Santos Andrade, no centro de Curitiba, fica evidente durante a sessão de fotos e entrevista que o casal de bailarinos concedeu ao portal Dança em Pauta. O espaço é como uma segunda casa para eles, que conhecem cada cantinho do local.

“Estes tempos eu estava passando aqui na frente do teatro, a pé, e de repente parei e pensei: ‘nossa, eu olhando este teatro do lado de fora, no meio da tarde!’. Porque eu vivia aqui dentro de manhã a noite, era raro ver o teatro do lado de fora”, comenta Eleonora, que ‘pendurou as sapatilhas’ em 2011, aos 53 anos, 35 deles como bailarina profissional do Balé Teatro Guaíra (BTG).

Já Wanderley, que aos 54 anos segue como bailarino do BTG, entrou na “casa” aos 17 anos, como aluno da escola do Guaíra. No balé encontrou sua vocação e a ferramenta para mudar seu destino.

A história deste casal é também uma parte da história do Balé Teatro Guaíra, ao qual tanto se dedicaram.

Eleonora Greca: a eterna primeira bailarina do Teatro Guaíra

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Ela entrou em cena pela primeira vez aos cinco anos, em uma peça de teatro da escola, e ficou encantada com os bastidores. A experiência ficou gravada em sua memória e, aos oito anos, pediu que a mãe a colocasse na escola de dança do Teatro Guaíra. “Dali em diante, minha vida foi dentro do Guaíra”, ressalta Eleonora.

A menina chamava atenção entre as colegas de dança, mas não apenas pelo talento. A professora de piano da escola, Liane Essenfelder, que na época escrevia para o jornal Gazeta do Povo, comentou em sua coluna que Eleonora era um talento promissor e poderia ser uma excelente aquisição para o corpo de baile do balé, o único problema é que era indisciplinada. O comentário, que lhe rendeu uma bronca do pai, era fruto do perfil de Eleonora, que ela mesma descreve como exibida e hiperativa.

Mas aos 12 anos, a conduta de Eleonora iria mudar com um momento marcante em sua vida. Percebendo a grande aptidão que ela tinha para a dança, a diretora da escola Yara de Cunto, também fundadora do BTG, junto com algumas professoras, levaram a menina para assistir uma apresentação do Royal Ballet de Londres, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Fiquei maravilhada com a apresentação e com os corpos musculosos daquelas mulheres lindas que dançavam na cia. Hoje sei que foi um divisor de águas, mas naquele momento foi inconsciente, apenas mudei meu posicionamento na escola”, recorda.

Eleonora e João Carlos Caramês em cena do balé Petrushka.
Eleonora e João Carlos Caramês em cena do balé Petrushka.

A partir de então, obstinada em seguir a profissão, aos 14 anos ela começou a estagiar no corpo de baile do BTG. Aos 17, recebeu do então diretor, Yurek Shabelewski, um papel solo e, aos 18, passou em segundo lugar na audição para bailarina da cia. Aproveitou para mostrar seu talento em todas as oportunidades que tinha e intercalou alguns papéis com Ana Botafogo, que atuou como primeira bailarina da cia em 1977 e 1978. Acompanhou de perto o início da era do português Carlos Trincheiras na direção da cia, em 1979, que marcaria a fase áurea do BTG, e que, em 1980, a promoveu a primeira bailarina, posição pela qual é lembrada até hoje.

No mesmo ano, engravidou do primeiro marido e ficou preocupada em como isto repercutiria no trabalho. Ela explica que, na época, a visão da maioria dos diretores era de que bailarino não podia casar e ter filho, devia viver para o balé. Mesmo receosa, bateu a porta de Trincheiras para relatar a situação em uma conversa que ela nunca esqueceu:

Eleonora“Preciso falar uma coisa pro senhor”.
Trincheiras“Estás grávida?”.
Eleonora“Sim Seu Trincheiras”, respondeu surpresa.
Trincheiras“Mas que maravilha! Verás que será melhor mulher e bailarina!”, afirmou.

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Wanderley e Eleonora com os filhos Guilherme e Isadora.

Eleonora se apresentou até o quinto mês de gravidez e seguiu fazendo aulas de dança até o oitavo mês. Com três meses de vida o filho já acompanhava a mãe nas aulas, ensaios e apresentações. “Deixava o Guilherme no camarim para ir dançar e as outras bailarinas iam se revezando pra atender ele”, recorda.

Em 1983, se separou do marido e, no ano seguinte, começou a namorar com Wanderley. “Eu jurava pra mim mesma que jamais iria ter nada com um bailarino. Não queria falar de dança em casa também. Mas aí começamos a namorar e em 88, nossa filha Isadora nasceu”, diz Eleonora com um terno sorriso de satisfação.

Wanderley Lopes: o coreógrafo do seu próprio destino

Wanderely e Eleonora em ensaio do BTG.

Quem poderia imaginar o futuro brilhante que o destino reservava para aquele menino que, aos três anos, foi deixado num educandário com seus dois irmãos pela mãe que não tinha condições de sustentá-los. Aos nove, aprontou com outros meninos e foi expulso da instituição. Passou quatro meses em outro educandário e de lá foi para a Casa do Pequeno Jornaleiro (CPJ), instituição em que as crianças moravam e trabalhavam entregando jornais.

Neste período, jogou futebol no ‘Dente de Leite’ do Coritiba e fazia aula de caratê. Mas aos 15 anos, enquanto fervia o leite para o café da manhã das demais crianças, ele viu na TV uma apresentação de balé e ficou encantado. Poucos dias depois, viu a mesma apresentação na TV da vitrine de uma loja. “Pensei comigo: ‘isto está me seguindo. Vou fazer dança”, recorda. Conversou sobre o assunto com a orientadora educacional da CPJ que indicou que ele procurasse a escola do Teatro Guaíra. Foi até lá se informar, mas eles não aceitavam rapazes.

O desejo ficou adormecido até que, em 1979, ele assistiu ao filme “Momento de Decisão” (The Turning Point), que apresentava no elenco o bailarino Mikhail Baryshnikov. Aquele foi o seu momento de virada na vida.

Wanderley, ao centro, em cena de A Sagração da Primavera
Wanderley, ao centro, em cena de A Sagração da Primavera.

No mesmo ano, o português Carlos Trincheiras assumia a direção do BTG e um de seus primeiros atos foi a implantação de um Curso de Formação Acelerada para Rapazes. Era a oportunidade que Wanderley precisava. No curso, ele teve entre seus primeiros professores o renomado bailarino Jair Moraes, que viria a se tornar um grande amigo.

O adolescente Wanderley passou a dividir seu tempo entre a escola, o trabalho e as aulas de dança, até que, aos 19 anos, deixou o emprego em que ganhava três salários mínimos, para ganhar meio salário como bolsista do BTG. “Na época eu não pensava na grana, nem gastava, então escolhi minha paixão”, comenta.

A decisão não poderia ser mais acertada. O bailarino logo se destacou e Trincheiras conseguiu para ele uma bolsa de estudos de 10 meses no Balé da Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal, uma instituição privada voltada a arte, beneficência, ciência e educação. Ele não sabia, mas em sua volta ao Brasil o sucesso com o BTG e o romance com Eleonora o esperavam.

O Grande Circo Místico e um Pas de Deux para a vida

Quando Wanderley retornou ao Brasil, o Balé Teatro Guaíra estava prestes a viver o seu ápice e Trincheiras o convidou a participar da empreitada como integrante do corpo de baile.

Eleonora e Wanderley em cena do dueto Beatriz, do espetáculo O Grande Circo Místico.
Eleonora e Wanderley em cena do dueto Beatriz, do espetáculo O Grande Circo Místico.

Em 1983, a cia estreou o espetáculo “O Grande Circo Místico”, que misturou dança, música, circo, teatro e poesia. Com coreografia do próprio Trincheiras, o roteiro de Naum Alves foi baseado em uma poesia de Jorge de Lima e a trilha sonora foi composta por Edu Lobo e Chico Buarque. O espetáculo conta a história do grande amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knieps, que vagava pelo mundo nas primeiras décadas do século XX.

O sucesso resultou em uma turnê de dois anos pelo país e exterior, assistida por mais de 200 mil pessoas, em quase 200 apresentações, entre elas plateias lotadas no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, e no Coliseu dos Recreios, Lisboa. “Sem dúvida é a obra mais icônica do Guaíra até hoje, ela ficou imortalizada. Fiz grandes papéis e tive grandes momentos na cia, mas O Grande Circo Místico foi o ápice. As pessoas paravam pra cumprimentar a gente na rua”, recorda Eleonora com brilho nos olhos.

Paralelo ao sucesso do BTG, em 1984, durante uma das viagens da cia, na Bahia, Eleonora e Wanderley começaram a namorar. “Quando voltei de Portugal é que comecei a observar e me encantar por ela. Começamos a ficar juntos nesta viagem e estamos ficando até hoje”, brinca ele.

Eleonora, Wanderley e Carlos Trincheiras, nos bastidores de Inter Rupto.
Eleonora, Wanderley e Carlos Trincheiras, nos bastidores de Inter Rupto.

No mesmo ano, ele relata outro momento marcante, este em sua carreira. Wanderley foi escolhido para dançar a Sagração da Primavera, trabalho que também apresentou em Portugal: “Era uma coreografia prova de fogo, música enérgica, pra cima, e você ficava praticamente 33 minutos sem sair de cena, a cortina só fechava pra mudar a pose. Mas eu tinha muita gana de fazer este trabalho, então foi inesquecível”.

O ano de 1988 também foi movimentado para a dupla. Wanderley foi promovido a primeiro bailarino, a filha do casal, Isadora, nasceu em fevereiro e, em julho, os dois viajaram a França para competir no 2º Festival de Dança Clássica e Contemporânea de Paris. A coreografia “Inter Rupto”, de Carlos Trincheiras, encantou aos jurados, mas foi declarada hors concours, pois segundo os mesmos se tratava de um trabalho neoclássico. Desta forma, a dupla foi convidada para uma apresentação especial na noite final da competição. “A gente foi pra lá com a cara e a coragem, enfrentando grandes bailarinos e saímos com todos falando sobre nosso trabalho. É um dueto muito especial, porque a gente era um casal de verdade dançando aquilo”, avalia Eleonora.

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Muitas coreografias, passos, piruetas e aplausos depois, em 2011, Eleonora fez sua despedida dos palcos em grande estilo, em um espetáculo conjunto com a colega Ana Botafogo, que também comemorava os 35 anos de carreira em turnê de A Dama das Camélias. Em cena, ao lado do parceiro de vida e de dança, Wanderley, ela apresentou o dueto Beatriz, do espetáculo ‘O Grande Circo Místico’. “A decisão de parar foi um processo duro, porque a gente vicia na adrenalina do palco, mas foi algo que fui depurando com o tempo. Já estava como coordenadora de dança da Fundação Cultural de Curitiba desde 2010, aí quando a Ana veio com a turnê, senti que era o momento”, afirma.

Bienal Internacional de Dança de Curitiba (2012): Eleonora, Wanderley, Jair Moraes e membros de sua Cia Masculina.
Bienal Internacional de Dança de Curitiba (2012): Eleonora, Wanderley, Jair Moraes e membros de sua Cia Masculina.

Depois do trabalho na FCC, em 2012, Eleonora assumiu a área de seleção de projetos de dança para financiamento através de lei de incentivo à cultura do grupo O Boticário, permanecendo no cargo até 2015. Hoje, ela diz estar em uma nova fase de sua vida, em que, entre outras coisas, decidiu empreender em uma área que até então era um hobby, a gastronomia. Ao lado da irmã Luiza, ela iniciou a produção de quitutes e confeitos da “Gulodices da Berenice”, marca que leva o nome de sua mãe. Quando questiono se não sente falta dos palcos, ela responde, sem hesitar, que não. “Estava muito bem resolvida quando parei, realizada. Meu ego já foi bastante escovado. Agora estou num momento de curtir minha família”, diz.

Já Wanderley, que ainda faz parte do BTG, diz que quando encerrar o trabalho nos palcos, certamente irá permanecer com a dança. “Seguirei como coreógrafo, produtor. E também tenho alguns sonhos, como por exemplo, remontar obras do Carlos Trincheiras que já detenho os direitos”, comenta.

Fotos: Juciane Dubiel/Dança em Pauta, Daniel Tortora/Dança em Pauta e arquivo pessoal Eleonora Greca.

Confira o vídeo em que eles contam qual é a sua Dança em Pauta:

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

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