Colunas, Dança & Saúde

Dor muscular na dança

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Em colunas anteriores, temos lembrado de alguns cuidados de saúde importantes para dançar e após dançar. Pelos componentes artístico, lúdico e social da dança de salão, muitos praticantes esquecem de valorizá-la como atividade desportiva. Como tal, ela também necessita cuidados de preparação física e prevenção de lesões para uma prática segura.

A dor muscular é uma queixa frequente entre praticantes de atividade física, e a dança de salão também tem seus pontos críticos. Não é raro ouvirmos um colega queixar-se de ter ficado “doído” após uma aula, baile ou ensaio. Mas nem toda dor muscular tem o mesmo significado.

Para entendermos as diferenças, cabe lembrar como funciona a musculatura estriada, responsável pelos movimentos corporais que podemos controlar. Nossos músculos são compostos por milhares de fios finíssimos, que deslizam uns sobre os outros. São as chamadas miofibrilas, de dois tipos: actina (mais fina) e miosina (mais espessa); o conjunto de várias “camadas” de actina e miosina é chamado sarcômero, que é a unidade funcional do músculo (menor conjunto de estruturas capaz de desempenhar determinada função). O deslizamento das miofibrilas acontece cada vez que há uma ordem do cérebro; a ordem, por sua vez, é transmitida para a periferia quimicamente, por uma substância que chamamos neurotransmissor. Para os músculos, o neurotransmissor mais importante é a acetilcolina. Além disto, é preciso que haja sódio e potássio transmitindo a ordem através da geração de eletricidade, e trânsito de cálcio, magnésio e compostos de fósforo para “alimentar” o mecanismo de contração muscular. Por aí, já percebemos a importância de uma correta hidratação e fornecimento de eletrólitos e sais minerais para que a contração muscular funcione a contento.

Pois bem, nem sempre a dor muscular é ruim, ou é sinal de que há algo errado. Para darmos um enfoque bastante prático ao assunto, vamos dividir os tipos de dor conforme o tempo que ela demora para aparecer.

Dor muscular aguda

É aquela súbita, repentina, e geralmente intensa. Como não tinha antecedentes, pode facilmente ser relacionada a um desencadeante recente. Por exemplo: um entorse, uma queda em um passo acrobático, uma colisão com outro dançarino no baile. Pode ter também um componente tendinoso, ligamentar e de outras estruturas relacionadas ao músculo. Geralmente, este tipo de dor refere-se à ruptura de fibras ou à contusão; há liberação de líquidos inflamatórios no local, que justamente transportam as substâncias necessárias à cicatrização da lesão, mas que podem gerar edema, vermelhidão, calor local e dor. Conforme a intensidade da lesão, pode ser necessária a pausa na atividade, com avaliação médica e exames complementares. Usar gelo logo após o evento é uma recomendação. Felizmente, este tipo de lesão aguda é pouco frequente em todas as modalidades de dança. As lesões de instalação lenta, por esforços repetitivos ou técnica errada ao longo de muito tempo de prática é que são as mais prevalentes.

Dor muscular subaguda

Não é absolutamente súbita, mas tem um desencadeante bem determinado. Também não leva tanto tempo para instalar-se como a dor muscular tardia e, se mantidos os fatores que a desencadeiam, pode indicar a evolução para uma lesão crônica. O mecanismo mais frequente é a contratura muscular, seja por assimetria na posição executada ou por falta de preparo prévio daquela musculatura que está sendo exigida. Um mesmo movimento repetido muitas vezes pode sobrecarregar apenas um grupo muscular e apenas um dos lados do corpo. Por exemplo:
– após uma aula de tango com muitos pivôs (giros mantendo o antepé no solo como ponto de apoio, e o calcanhar suspenso) realizados sempre com o mesmo membro inferior, a musculatura da panturrilha pode mostrar-se tensa e dolorosa, principalmente para a dama, se estiver com saltos altos;

– após uma aula de zouk com muitos cambrés (extensões da coluna) sem o devido aquecimento, os músculos paravertebrais (paralelos à coluna) podem contrair-se para tentar protegê-la de uma lesão;

– Parceiros de alturas diferentes, que não consigam organizar cômoda e corretamente sua postura, podem ter contraturas musculares ao final da aula. O parceiro mais alto tende a curvar-se, desenvolvendo contraturas cervicais (atrás do pescoço), e “fechando o peito” (contratura e encurtamento de peitorais). O parceiro mais baixo tende a elevar os membros superiores acima da linha dos ombros, contraindo os deltóides (músculos do “contorno” dos ombros) e projetando a cabeça para trás; desta forma, também desenvolverá contraturas cervicais.

A dor muscular subaguda poderá ser manejada de imediato com calor local, que é sempre recomendável para contraturas musculares. O gelo também pode ser usado como analgésico, mas nos casos em que há contraturas, pode piorá-las. A grande maioria das pessoas que sofrem contraturas costuma referir maior conforto com calor úmido no local. O mais importante, contudo, é detectar o motivo que levou à contratura e corrigi-lo; posições viciosas e erros de técnica não devem ser repetidos para que não se tornem uma lesão crônica.

Dor muscular tardia

Costuma acontecer em pessoas sedentárias logo que iniciam uma atividade física, ou mesmo em pessoas que já praticam uma atividade, mas mudaram bruscamente o padrão de movimento (como numa aula mais “puxada”, num ensaio mais rigoroso, ou num baile em que não se parou um minuto!). Por ser uma atividade divertida, socializante, e com poucos riscos (se comparada a outros esportes), a dança de salão frequentemente é indicada como início (ou reinício) de atividade física em indivíduos sedentários. Portanto, a dor muscular tardia é comum neste público, devendo o professor ficar atento, sobretudo em turmas iniciantes. Este tipo de dor aparece cerca de 8 horas após o esforço desencadeante, aumenta de intensidade nas próximas 24 a 48 horas, e diminui progressivamente após 72 horas, mas pode demorar até uma semana para desaparecer totalmente. A musculatura envolvida fica rígida, sensível ao toque e não consegue realizar movimentos com a amplitude ou a força habituais. É curioso observar que, quando a dor muscular tardia já está instalada e é iniciada uma nova sessão de atividade física de mesma intensidade, após alguns minutos a dor quase não é perceptível; porém, quando finalizada a atividade, ela retorna.

O provável mecanismo de instalação da dor muscular tardia é por microlesão de miofibrilas e não por acúmulo de ácido lático, como se pensava há tempos atrás (o ácido lático é um produto do ciclo de gasto de energia no músculo, mesmo quando não há oxigênio suficiente, o que chamamos de metabolismo anaeróbio; é um “dejeto químico” do trabalho do músculo).

Para a melhora desta desconfortável dor, vários métodos foram estudados: massagem, compressão, alongamento passivo, acupuntura, medicamentos (analgésicos, antiinflamatórios, relaxantes musculares), laser, ultrassom, infravermelho, oxigênio hiperbárico e vários outros métodos alternativos. Todos eles podem promover um maior conforto, mas cientificamente nenhum se demonstrou superior, nem modificou o curso natural da condição.

Parece mesmo que o exercício físico é a melhor terapia para este tipo de dor, desde que se reduzindo intensidade e duração, e alternando os grupos musculares a serem trabalhados. Cada vez mais há consenso de que o processo inflamatório é, na verdade, um processo reparador, e não deve ser bloqueado, senão tolerado. O resultado final seria a adaptação muscular, com uma maior capacidade de responder bem aos esforços. De certa forma, os antigos tinham razão: “quanto mais faz, melhor fica”…

Bem, se você já foi vítima de uma destas condições ou já as observou nos seus alunos, alguns lembretes podem ser úteis:

  • O professor sempre deve ser avisado sobre sintomas que os alunos apresentem após as aulas, para poder replanejar as atividades e até corrigir eventuais equívocos didáticos;
  • A termoterapia (calor ou gelo) pode ser utilizada pelo próprio aluno, observando a evolução da dor. Porém, se ela for continuada ou recidivante, não hesite em consultar um médico. Talvez haja um diagnóstico e um tratamento a ser feito, e não apenas tolerar ou aguardar…
  • Evite usar medicamentos por conta própria, mesmo que seja possível comprá-los sem uma receita médica. Eles podem mascarar a dor ou sabotar o processo de recuperação muscular, além de possíveis contraindicações individuais;
  • Não se constranja em pedir a opinião de vários médicos, se julgar necessário. Infelizmente, vários profissionais da área não estão sensibilizados para aspectos particulares da dança, e podem não atender à sua demanda. Mandar parar de dançar não é solução para nada. Procure a abordagem certa até sentir-se compreendido;
  • A preparação física é indispensável para qualquer atividade física, inclusive para dançar. Como já comentamos em artigos anteriores, Pilates, Gyrotonics, Isostretching,
  • Hidroterapia, RPG, etc, podem ser técnicas benéficas para corrigir erros que levam às dores musculares após sua aula de dança de salão.
Gyrotonics
Hidroterapia
Pilates

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Tenha sempre atenção e respeito ao seu corpo, aprenda a ouvi-lo. Diferencie o que é apenas incômodo e passageiro do que é permanente e limitante. Dançar deve ser sempre um processo libertador. Desfrute!

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Leitura recomendada

* Efeito da massagem clássica na percepção subjetiva de dor, edema, amplitude articular e força máxima após dor muscular tardia induzida pelo exercício/ Effect of classical massage on subjective perceived soreness, edema, range of motion and maximum strength after delayed onset muscle soreness induced by exercise
Autor(es): Abad, César Cavinato Cal; Ito, Leonardo Takamitsu; Barroso, Renato; Ugrinowitsch, Carlos; Tricoli, Valmor
Fonte: Rev. bras. med. esporte; 16(1): 36-40, jan.-fev. 2010. graf, tab.

* Benefícios dos exercícios excêntricos e concêntricos dentro do programa de fortalecimento muscular/ Effectiveness of the eccentric and concentric exercises inside of a muscular program of strengthening
Autor(es): Lustosa, Lygia Paccini; Michel, Douglas José da Silva; Martelli, Gabriel Sanábio; Costa, Janaína Iara Moreira; Neiva, Roberto Lopes Santoro
Fonte: Fisioter. Bras; 8(4): 283-287, jul.-ago. 2007.

* Lesão muscular após diferentes métodos de treinamento de musculação/ Muscular injury after diferent resistance training systems
Autor(es): Almeida, Elson de; Gonçalves, Aguinaldo; El-Khatib, Soraya; Padovani, Carlos Roberto
Fonte: Fisioter. mov; 19(4): 17-23, out.-dez. 2006. tab

* Repercussão atual das lesões músculo-esqueléticas sofridas pelas ginastas durante suas carreiras na ginástica rítmica/ Current repercussion at the muscular-skeletal lesion suffered by gymnasts during their careers in rhythmic gymnastics
Autor(es): Raquel, Petry; Elirez, Silva
Fonte: Fisioter. Bras; 7(3): 219-223, maio-jun. 2006.

* Mecanismos envolvidos na etiologia da dor muscular tardia/ Mechanisms involved in delayed onset muscle soreness etiology
Autor(es): Tricoli, Valmor
Fonte: Rev. bras. ciênc. mov; 9(2): 39-44, abr. 2001.

http://www.slideshare.net/AlexandroSilvaNunes/bioqumica-usp-nutrio-e-esporte-uma-abordagem-bioqumica

 

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

3 Comments

    1. Olá, Nayara;
      “Dor na canela” é a descrição comum do sintoma doloroso na tíbia, um dos ossos da perna. Algumas possibilidades diagnósticas devem ser contempladas. Uma das mais comuns é a chamada “canelite”, ou inflamação do periósteo (camada que reveste externamente o osso) da tíbia. O sintoma também é comum em fraturas de stress, que são fraturas das microtrabéculas (finas paredes existentes por dentro do osso).
      Ambas as situações estão relacionadas a impacto (saltar, pular, atividades com paradas e retomadas bruscas). A dança é uma das atividades que podem desencadear estes quadros. Sempre se deve avaliar se não há erros de técnica, se a aula é adequada para o seu condicionamento físico e se está bem planejada quanto à progressão.
      Procure um médico para fazer o diagnóstico adequado e compartilhe os achados com seu professor de dança. Talvez ajustes precisem ser feitos na sua prática.
      Nayara, obrigada pela sua pergunta e interesse. Cuide-se bem e mande notícias!

      1. Legal!!! muito obrigada pelo esclarecimento! vou conversar com a minha professora a respeito! se for a canelite, tem cura? existe alguma possibilidade de me impossibilitar de dançar futuramente? Desde já muitíssimo obrigada!

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