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Do carnaval ao Flamenco: arte e expressão popular como grito político

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Como comentamos nas colunas anteriores, o flamenco se relaciona diretamente com o contexto histórico, social e cultural em que está inserido – influenciando e sendo influenciado. Enquanto arte, pode ser muitas vezes um grito político.

'Un gitano granadino', 1914, tela de Michael Arthur C.
‘Un gitano granadino’, 1914, tela de Michael Arthur C.

Sobre esse aspecto, o sociólogo Willian Washabaugh diz que, como a maioria dos gêneros musicais populares, o flamenco exerce um poder político, ainda que aparente um desapego por este campo. Da mesma forma que, este ano, alguns enredos de protesto no carnaval do Rio de Janeiro evidenciaram o papel político da arte e dos gêneros musicais populares, o flamenco, desde seu surgimento, tem mostrado anseios populares, às vezes de forma mais jocosa, outras vezes, mais séria e até desesperançada.

Isso é bem claro nas letras de alguns cantes flamencos, que serviram para expressar a situação social, econômica e política do povo andaluz, bem como, retrataram acontecimentos históricos, inspirando muitas composições que são cantadas até hoje. O flamencólogo Gerhard Steingress afirma que no conteúdo dos cantes flamencos se expressa uma poesia de sentimentos extremos, relacionada, principalmente, ao mundo dos marginalizados, da pobreza e da desesperança.

É possível identificar como um dos primeiros acontecimentos históricos cantados pelo flamenco a invasão napoleônica. A cidade de Cádis, no sul da Espanha, e seu entorno, viveram esse momento de forma especial e como as tropas francesas não conseguiram tomar a cidade em 1808, nada melhor que cantes alegres e festeiros para comemorar o fracasso dos invasores. Como exemplo, a canção ‘Alegrías de Cádiz’:

Un baluarte invencible,
Fue la Isla de León,
Porque con los gaditanos,
No pudo Napoleón

A segunda invasão, na qual os franceses saíram vitoriosos, também foi cantada pelos flamencos da época, mas dessa vez por Seguiriyas, que é um cante mais triste, como exemplo:

Baluarte invencible
Isla de León
que como ganaron los franceses, mare
fue por una traición.

Silvério Franconetti, um dos primeiros cantaores profissionais que se tem registro histórico, era nitidamente comprometido com ideais liberais, antimonárquicos. Como exemplo de letras de Silvério com conteúdo político temos as Seguidillas del Riego, muito cantada até hoje. A música faz referência ao General Riego, que comandou um golpe liberal em 1820:

El día que en capilla
metieron a Riego
los suspiritos que daban sus tropas
llegaban al cielo.

Além dos conflitos com os franceses e da crítica ao regime monárquico, também não passaram despercebidas pelo flamenco as guerras coloniais, que provocaram crescentes migrações do campo para as zonas urbanas, fazendo surgir bairros suburbanos como o de Triana – um grande caldeirão mestiço e marginalizado que se tornou um solo muito fértil para o crescimento do Flamenco.

‘La fiesta de Triana’, ilustração do livro Don Gitano (1944), de Walter f. Starkie
‘La fiesta de Triana’, ilustração do livro Don Gitano (1944), de Walter f. Starkie

A emigração do campo levou muita gente a buscar trabalho nas zonas mineiras, onde surgiram os “Cantes de las Minas”, os quais costumam ter como tema o trabalho e a exploração da força humana, sendo comum aparecerem os conceitos de acumulação e exploração capitalista, como nestes Fandangos Mineros:

Los mineros son leones
Que los bajan enjaulados,
Trabajan entre peñones
Y allí mueren sepultados,
Dándole al rico millones
(…)
Minero, ¿pá que trabajas,
Si pá ti no es el producto?
Pá el patrón son las alhajas,
Para tu familia el luto,
Y para ti la mortaja

Assim vemos que nem só o samba tem servido para fazer uma reflexão sobre a exploração humana e as precárias condições de trabalho. Infelizmente, a escravidão contemporânea não é assim um tema tão contemporâneo, nem exclusivamente brasileiro. É o que podemos observar nesses Cantes de Trilla:

Trabajo de sol a sol,
Trabajo de sol a sol,
Las ganancias son pal amo,
Pá mí solo es el sudor

Tudo isso para dizer, mais uma vez, que o Flamenco é uma arte viva e que através de seus cantes deu e dá voz a muitos gritos. Como intérpretes, estudantes e aficionados, parece fundamental ter ideia desses aspectos, pois nos traz ferramentas de interpretação, bem como pode aumentar o respeito e a admiração.

No próximo artigo vamos retornar a esse tema, abordando a segunda república espanhola, época em que, seguramente, houve mais compromisso político nas letras flamencas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • WASHABAUGH, Willian. Flamenco. Pasión, política y cultura popular. Paidos: Barcelona, 2005. p. 30 Disponível em: http://www.juntadeandalucia.es/culturaydeporte/centroandaluzflamenco/RecursosEducativos/b/b3/actv2.htm Acceso en 21 jul. 2014.
  • STEINGRESS, Gerhard. Sobre flamenco y flamencologia. Signatura Ediciones: Sevilla. 2004 p. 37/49
  • ORTIZ NUEVO, Jose Luis. Pensamiento político en el cante flamenco. Editoriales andaluzas unidas: Sevilla. 1985. p. 76/137.
  • GRIMALDOS, Alfredo. Historia social del Flamenco. 2º ed. Ediciones Peninsula: Barcelona, 2011. p. 41/42.
  • CUBERO, Jose Ignacio. Cal y Arena: letras de flamenco. Disponible en http://sevilla.abc.es/hemeroteca/historico-03-03-2007/sevilla/Cordoba/cal-y-arena-letras-de-flamenco-(por-jose-ignacio-cubero)_1631776613476.html. Acceso en 21 jul. 2014.
  • GARCIA, Luis Mariano. Flamenco y Revolución. Disponível em: http://www.cronicapopullar.es/2012/12/flamenco-y-revolucion Acceso en 22 jul. 2014.
  • Disponível em: http://altrabajoconalegria.blogspot.com.es/2013/06/flamenco-reivindicativo.html. Acceso en 01 jul. 2014.
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Integrante do Grupo Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano (Perlita) e Jony Gonçalves, adora ouvir e contar histórias, seja com palavras, com a dança ou com imagens. Jornalista, formada pela UFPR e bacharel em Direito pela Unicuritiba, pós-graduada em Estética e Filosofia da Arte pela UFPR. Cursou mestrado em Sevilha, onde se perdeu muito pelas ruas, tirou fotos com famosos e mergulhou na cultura flamenca.

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