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Diga não ao Tango Novo!

Eu danço Tango! Danço com a música que tiver vontade, com os passos que me vierem à cabeça, com a roupa que me trouxer conforto, com o abraço fechado ou aberto e, se me fizer feliz, danço até de tênis. Ainda assim, danço Tango!

As escolhas de repertório, por óbvio, têm de ser pautadas pelo ambiente e condições sociais favoráveis à execução da dança. Mediante essa lógica de educação social, criam-se regras de comportamento que são passadas para os estudantes de Tango sem o mínimo de crítica. Regras como: a pré-determinação de um tipo de abraço, um tipo de roupa, passos permitidos e proibidos e até o que se deve expressar ao dançar Tango em uma Milonga. A dança tem que ser socialmente adaptável, no sentido de que, em um salão de baile cheio, devo observar a segurança de meu par e dos outros casais não optando por passos aéreos ou movimentos como “voleo” ou “ganchos”. Já em uma demonstração, tenho espaço físico e artístico para a livre interpretação.

Não preciso estar todo de preto, com roupas sociais e sapatos argentinos para dançar Tango. Se quero, ótimo! Mas não é necessário. Existem muitos tênis, de dança ou não, que se adaptam muito bem a alguns pisos e algumas peças de roupa bem mais frescas para o clima do Brasil. Em relação ao calçado, o importante é não aumentar o atrito com o chão e vir a causar lesões nas articulações. Quanto à roupa, é claro que não precisa ser preta nem social! Pensem numa roupa que usariam para ir a uma festa ou a um bar, se for confortável, fresca e ficar presa em seu corpo (no caso das mulheres) dá para dançar Tango. Agora, se a festa exigir traje específico, aí sim é de bom tom usá-lo.

A contemporaneidade pede fusão de estilos, portanto vamos encontrar baterias e guitarras eletrônicas nos Tangos e bandoneóns em músicas Pop. Essa fusão mantém a música viva e atual, mas independente disso ela pode ser pobre ou rica, boa ou ruim. Pobre, se tem único plano, andamento constante, poucos instrumentos, arranjos simples, letra sem sentido e repetitiva demasiadamente. Isso é um Funk? Não! Acreditem, existem Tangos assim. Rica, se tem planos concorrentes, mudanças no andamento, arranjos complexos, solos de instrumentos e letra profunda que realmente nos faz sentir, o que quer que seja a proposta e sentimento do autor.

Carlos Libedinsky e Marcelo Toth, integrantes do grupo de tango eletrônico Narcotango.

Eu adoro dançar Tango, mas confesso que tenho dificuldades em frequentar algumas Milongas porque as músicas ou a qualidade do som são muito ruins. Parece que alguns DJ’s e organizadores não fazem escolhas pensando na qualidade da música ou das orquestras e sim, numa atitude vazia e sem sentido, escolhem as versões mais antigas com qualidade inferior de gravação para reproduzirem no baile e excluem de suas “playlists” os Tangos Eletrônicos. Digo “atitude vazia”, por que apenas têm o intuito de terem seus eventos rotulados como Milongas Tradicionais, típicas de Buenos Aires. Rótulo este que não é diretamente proporcional à qualidade da Milonga e, seguindo esse critério segregador e limitado de escolha das músicas, fadado ao insucesso no mercado atual.

É pura insegurança a atitude de descriminar Tangos eletrônicos em Milongas, tangueiros de calça jeans, calça larga ou mesmo com movimentações atípicas. Só uma dança tão rica, fruto de uma miscigenação de culturas e raças, pode trazer tantas silhuetas, sentimentos e interpretações, quanto o Tango.

Rótulos podem até ser bem vindos para se especificar um produto ou serviço, como por exemplo um tema de um workshop ou uma apresentação. Ao assumir um rótulo em relação a dança Tango, se assume também a responsabilidade de representar uma faceta de um ícone e patrimônio da cultura mundial. Portanto, deve-se ir a fundo nos estudos amplos da técnica antes de desconstruí-la.

Há pouco tempo tive notícia de uma frase simples e célebre de autoria de Marcelo Granjeiro: “Como fazer uma releitura sem antes ter lido?”. Pergunto eu: Como dançar Tango Novo sem aprender primeiro o padrão clássico?

Existe um caminho lógico para o aprendizado desta dança: do salão ao show; do clássico ao contemporâneo (me refiro ao tempo atual e não a Dança Contemporânea); da construção a desconstrução. São nos equívocos desse processo que surgem os preconceitos sobre o dito “Tango Novo”. O estudante brasileiro de Tango que aprende a dançar de uma maneira desconstruída a princípio, tem uma probabilidade muito grande de utilizar seu vocabulário corporal já disponível para executar as movimentações e, consequentemente, dançar um Tango com “cara” de Bolero ou de Samba.

Inversões de papéis, mudanças de nível, alterações de dinâmica, de lateralidade e contrapesos são algumas das possibilidades de pesquisa para desconstrução de figuras tradicionais do Tango. Por isso ratifico ser imprescindível seguir a ordem de construção da técnica e caráter do Tango Clássico para só depois desconstruí-lo.

Seguindo esse processo metodológico de ensino do Tango, nós brasileiros, de cultura, clima e história diferentes dos argentinos poderemos desconstruir o Tango sem perder sua identidade, elevando o rótulo de “Tango Novo” ao patamar de uma expressão legítima e artisticamente contemporânea e tirá-lo do limbo da cultura tangueira.

Insisto: Eu danço Tango! Danço com a música que tiver vontade, com os passos que me vierem à cabeça, com a roupa que me trouxer conforto, com o abraço fechado ou aberto e se me fizer feliz, danço até de tênis. Isso é pensar novo. Dançar Tango Novo sem deixar de ser Tango. Simplesmente, Tango!

* Por Lucas Bittencourt
Especialista em Tango atua como dançarino há 18 anos, sendo Campeão da etapa Brasileira e finalista do Campeonato Intercontinental de Tango, etapa Buenos Aires. Cursou a extensão “Pedagogia do Movimento para o Ensino de Dança” na UFMG. É professor de danças de salão, coreógrafo e proprietário da Oito Tempos Escola de Dança, em Belo Horizonte. Escreve sobre o Tango em seu Blog pensartango.blogspot.com.br

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta

 

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25 Comments

  1. achei incrível essa matéria… comentei sobre ela na minha rede de amigos e compartilhei no meu tumblr, espero que não tenha problemas…

    e estou imaginando uma coreo para Disritmia sugirida acima. muito bom pessoal.

    obrigado

  2. Lucas , pode não parecer , mais existem sim passos de tango especificos para cada ritmo de tango . Por exemplo , tem gente que quer dançar milonga com passos de tango cenario , levantando as pernas acima da cabeça. Vc não pode dançar uma musica do Pugliese igual que Troilo , ou dançar versões da orquestra ColorTango igual que Di Sarli . Logico , tem passos genericos que ate servem em todas as situaçãoes .E isso que quiz dizer com que aqui se dança todo igual . Se vc perceber nas milongas em Buenos Aires “nunca” vc começa a dançar com a musica . So começa depois que vc identifica a orquestra ou a forma da interpretação da musica .

  3. Olá José,
    Obrigado pela leitura e pelo comentário! Você esta certo! Existem poucos grupos, que talvez não possam ser chamados de orquestra, que misturam instrumentos de outros estilos ao tango. Como você disse, temos sempre que lembrar que o tango é um ícone na cultura mundial e realmente não precisa de nada para sobreviver.
    Agora, posso estar errado mas não existem passos de tango novo e de tango tradicional e uma música não deixa de ser tango poque saiu do padrão. Vejamos os exemplos do dançarino Gustavo Naveira e do músico Astor Piazzola, ambos romperam padrões.
    Seria um prazer conhecê-lo para trocarmos umas ideias sobre o tango!
    Grande abraço,
    Lucas Bittencourt

  4. Tango novo não existe mais. Tem poucos grupos , que não são orquestras , que insistem porque tem publico no mundo que gosta de este tipo de musica . Nunca entendi porque chamar de Tango este tipo de “gênero musical”. Ainda bem que não toca mais em nenhuma milonga .Quando a desconstruir , vc pode dançar forro com passos de tango . Mais vc esta dançando forro ou tango ? . E errado pensar que uma cultura que tem mais de 100 anos necessita de um modelo eletrônico para sobreviver. Lembrem foi em 1917 o primeiro tango gravado por Gardel. Quando a dança claro que e mais facil dançar este modelo eletronico que o tradicional .Para o leigo e mais facil porque não necessita entender a musica . O normal e ver dançar todo igual , sem perceber que a orquestra e diferente .

  5. Flávio, obrigado pelo comentário e fico muito feliz que tenha gostado do texto!
    Tenho certeza que sempre que eu abordar um tema tomando o tango como ponto de partida, ele vai se fazer pertinente também aos outros estilos de dança. A ideia é essa, despertar o questionamento em todos os tipos de dança a dois!
    Grande abraço!

  6. Parabéns pelo excelente texto! O que me chamou a atenção para eu iniciar a leitura foi o título, que de pronto me pareceu um ato de revolta contra o novo na construção da dança. Fiquei feliz ao perceber que o objetivo do título era apenas de instigar a leitura e funcionou comigo.

    Sobre o texto em si, embora eu não tenha nenhum conhecimento específico de Tango, achei de enorme pertinência, sugestionando a abertura da mente para o conceito de dança acima de conceitos fechados e específicos de cada ritmo. Embora o tema esteja relacionado ao Tango, é o mesmo pensamento que tento disseminar com relação ao Zouk e que acredito que deva ser considerado para os ritmos em geral. É claro que tudo é contextual, mas quando o objetivo é apenas o dançar por dançar o que mais importa é o prazer das pessoas envolvidas.

    Abraço e parabéns.

  7. Em primeiro lugar, parabéns Lucas, pelo excelente artigo e por levar as pessoas a questionarem! Está faltando bastante isso na nossa DS.
    E como realmente esse tema extrapola os limites do tango, gostaria de deixar minha opinião, como dançarino e como músico, sobre a pergunta da Vânia Andreassi e essa questão de “o que dançar” : muitos músicos (a maioria, eu diria) quando compõem, arranjam ou interpretam suas obras não estão nem um pouco preocupados em relação a qual estilo de dança elas se encaixam. Temos, claro, exemplos de estilos que são nitidamente percebidos e identificados com esse ou aquele ritmo. E músicos que fazem música para dançar. Mas também temos muitos compositores, arranjadores e intérpretes que simplesmente não se preocupam com isso. Querem apenas fazer música, misturando suas diversas influências e gostos. Cabe ao dançarino escolher a melhor forma de interpretar (dançando) essas músicas. E essa escolha pode tanto resultar em interpretações geniais e originais, como desastrosas. Vai muito do bom senso, do conhecimento e capacidade de cada um. E também do gosto (sempre subjetivo) de quem assiste ou vê, claro.

    Um abraço a todos!

  8. Acho demasiado limitante se ater somente ao nome do artista para decidir como rotular uma dança, se é que isso seja necessário. Por exemplo, essa versão sugere samba da música “This Love”, Maroon 5, um não intérprete de sambas:
    Abração!

  9. Excelente artigo! Mesmo o tema principal ser o TANGO, podemos aplicar essas idéias com qualquer ritmo do salão e até mesmo outras linguagens da dança! Que bom que há profissionais na área pensando assim!
    Um abraço!

  10. Olá Vânia,
    Apesar de não saber de qual música se trata, me parece que a dança não deixará de ser samba de gafieira.
    Agora, fica muito difícil eu te dar uma opinião precisa sem saber do conjunto (dança, música, figurino, expressão, interpretação).
    Desculpe-me se pareci pouco objetivo na resposta anterior, mas é muito difícil responder sem saber dos detalhes. E, como essa interpretação é muito individual, podemos ter danças diferentes com a mesma música.
    Um abraço,
    Lucas

  11. Obrigado pelos comentários Rafael e Vania!
    Vania, a música realmente influencia nas escolhas de um dançarino, mas essa influência é tão pessoal que pode levar a interpretações distintas.
    Ela é apenas um dos fatores a serem analisados para se rotular uma dança de Samba de Gafieira ou não. A música dançada nunca pode ser fator isolado, exatamente pela pluralidade de interpretações.
    Dois exemplos:
    1- versão de Ne me quitte pas da Maria Gadú.

    Você dançaria bolero ou tango nessa música?
    Eu acho que poderíamos dançar os dois!

    2- versão de Disrritimia do Zeca Baleiro

    O que você dançaria? Bolero, Samba ou Zouk?

    Obrigado pela leitura!
    Grande abraço!

  12. Lucas muito interessante seu texto … Seguindo seu raciocínio uma pergunta: Então se eu dançar Samba de gafieira com musica da Shakira, Beyoncé ou mesmo com Tango eletrônico ainda assim será Samba ????
    Vania

  13. Excelente texto, e muito oportuno. Cabe a discussão sobre “desconstruir”, que virou um clichê no discurso dos profissionais de dança, em todos os estilos. De fato, não se pode desmontar algo que nunca foi montado. Nem neurologicamente isto é possível. Sempre haverá uma base de conhecimento que, depois, pela expertise de quem faz, poderá receber derivações. Muitas vezes a dança dita “desconstruída” serve para mascarar a falta de embasamento do corpo dançante, querendo fazer crer que “qualquer coisa serve”. Antes estudar profundamente e não desrespeitar os que já construíram antes de nós.

  14. “Para Noverre, a dança em ação é a forma de interpretar as idéias escritas na música com verdade ao executar os gestos na dança. Noverre sentia-se orgulhoso de ter simplificado as alegorias na vestimenta e exigir ação, movimentações na cena e expressão à dança. Dizia: Abandonem caretas e estudem sentimentos; abandonem graça e expressões sem arte; aprendam a dar nobreza aos gestos, não esqueçam que isso é o sangue da dança; ponham critérios e significados em seus Pas de Deux ( dança de dois); deixem que a força de vontade indique o caminho e que o bom gosto esteja presente em todas as situações; fora com essas máscaras sem vida, que são cópias pobres da natureza.” Lucas, você é o Noverre da dança de Salão! Haha! E pra mim esse negócio de rotular as coisas é tão jeca mesmo… 😉 BJo!

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