Colunas, Dança Afro

Desafios da Dança Afro no séc. XXI

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Convido todos vocês a olhar as culturas com mais generosidade e respeito. Olhar outras crenças e valores diferentes dos seus com mais consciência.

Recentemente, me deparei mais uma vez com situações que me deixaram triste. Em meio a pessoas que são vistas pela sociedade como de sucesso e esclarecidas, fui surpreendida com falas incrivelmente preconceituosas e com um alto nível de desinformação. Lembrando que a religiosidade de um povo também faz parte da sua cultura, cito Dalai Lama que disse certa vez: “a melhor religião de todas é aquela que te faz bem”. Então, partindo desta premissa, acredito que não existe uma religião melhor do que a outra e não existe verdade absoluta.

A humanidade ainda se coloca em posição de se deixar levar por líderes que acreditam que seus estudos e verdades estão acima do respeito da escolha do outro. Se ainda vemos pessoas do nosso lado que acreditam que suas crenças e ritos são mais válidos e mais importantes do que outros, como a Dança e a cultura Afro podem ter o seu verdadeiro espaço de direito nessa sociedade?

A Dança Afro está intimamente ligada a religiosidade e, se o professor que trabalha com esses conteúdos em sua metodologia de ensino não for laico, esse processo continua a gerar entendimentos conflituosos. Por exemplo, brincadeiras e piadas pejorativas ainda são usadas quando nos referimos a palavra “macumba”. Saber “como” e “por que” ainda temos pessoas que pensam e se posicionam desta forma, faz toda a diferença. A história mostra que a sede de poder, riqueza e a política foram os principais fatores para deturpar e manipular pessoas e suas culturas pelo mundo. E não foi diferente por aqui. Se o preconceito religioso coloca em risco a arte da Dança Afro e o interesse por ela, o que devemos fazer? Uma alternativa é difundir o conhecimento e as informações corretas.

Macumbeira ou Macumbe, nome de uma espécie de árvore nativa da África.
Macumbeira ou Macumbe, nome de uma espécie de árvore nativa da África.

Macumba é uma árvore africana de onde são feitos os tambores e/ou atabaques usados nessas culturas. Além disso, encontrei também referências de que essa palavra significa “ritual”. Todos temos nossos rituais. Sendo assim, somos todos macumbeiros? O que você pensou quando leu isso? Viu?

Também gosto de referenciar “macumba” com as grandes festas familiares em torno das grandes árvores de mesmo nome, em que as famílias se reuniam para cantar, dançar, compartilhar alimentos, informações, escutar as histórias e experiências dos mais velhos, possibilitando às crianças referências culturais, sociais, educacionais e valores voltados a família e respeito aos mais velhos.

Então, chegam os colonizadores com esse pensamento de superioridade, de que apenas sua cultura e seus ritos são corretos e devido a sede de poder e dinheiro começam a deturpar conceitos milenares que tanto são necessários nos dias atuais: respeito e família. Isso sem falar dos Índios! Uau! Nossa dança e nossa cultura estão intimamente ligadas a eles. Então, vamos olhar com mais respeito e generosidade o mundo que nos rodeia.

Os Índios ainda são vistos com preconceito e criticados por incorporar hábitos, tecnologias e ferramentas da atualidade, ou seja, que não fazem parte de suas tradições, no dia-a-dia. Isso é uma grande hipocrisia. Os índios não serão menos índios por isso. Cada um de nós é dono da própria identidade. Podemos mudar e evoluir. Estamos no século XXI e ainda vemos estes desrespeitos básicos em relação as nossas identidades, valores e em relação as nossas escolhas.

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Você sabia que na região noroeste da Amazônia Brasileira vivem 24 povos indígenas? Entre eles estão os Baniwa, que são conhecidos por manter viva sua língua, tradições, além das suas pimentas e cestarias, mesmo tendo contato com o “mundo dos brancos”. As danças indígenas são influências muito fortes nas danças no mundo inteiro.

Mundo dos brancos? O conceito de raça já foi abandonado pela ciência. O Brasil é conhecido pela sua diversidade e miscigenação, mas o interessante é que, hoje, já se sabe que os portugueses, ao chegarem aqui, já carregavam em sua herança genética a bagagem de outros povos, inclusive os africanos. Pesquisas feitas pelo website Ancestry, especializado em genealogia, apontam que os povos de Portugal e Espanha possuem em média 51% de herança genética própria. O restante é de fora. As pessoas de pele negra, por exemplo, pode ter em seu DNA a predominância europeia.

Então quem somos? O que me define como ser humano? Essa pergunta me dá a clara visão da importância do conhecimento da história e da preservação da nossa cultura e identidade através da arte e da educação. Quando danço, por exemplo, me sinto sempre em contato com quem sou! Meu mundo interior!

E por falar em mundo, lembrei de duas personalidades ativistas que gostaria de citar, e que foram influências importantes na dança Afro. A primeira é Katherine Dunham que foi uma coreógrafa e ativista social americana, bailarina , escritora e educadora. Ela teve uma das carreiras mais bem-sucedidas de dança no teatro americano e europeu do século 20, dirigindo sua companhia de dança por muitos anos. Katherine foi chamada de “matriarca e rainha mãe da dança negra”. Outro destaque é Alvin Ailey, coreógrafo e ativista afro americano que influenciou a dança em Nova Iorque e depois no mundo. “Revelations” foi uma de suas obras.

Finalizando, acredito que para a Dança Afro estar mais presente no universo da Arte, ela precisa ser cada vez mais desmistificada. O preconceito passa também pela falta de informação e por questões emocionais e de valores pessoais. Se o respeito e a consciência forem colocados acima de crenças pessoais e religiosas, podemos evoluir, e assim ganhamos todos, e não apenas os de sempre.

Fotos: Isabela Kassow/grupo de dança afro N’Zinga e banco de imagens

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Fundadora e Diretora da Companhia de Dança TRIBAH (Tributo e Resgate da Identidade Brasileira e Afro com Honra) é coreógrafa há mais de 25 anos, com experiência internacional em países como EUA, México, Chile, Perú, Argentina e Europa. Professora universitária de graduação e pós-graduação nas disciplinas de Dança Afro e Corporeidade, trabalha com consultoria e capacitação de professores na lei 10.639/03, tendo vasta experiência como empreendedora em escolas, academias e na TV. Possui reconhecimento público na Assembleia Legislativa do Paraná pelo Consulado do Senegal no Brasil.

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