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Dance of Love: um documentário sobre o zouk

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Título Original: Dance of Love
Ano de produção: 2012
Gênero: documentário
Direção: Wilco de Groot
Elenco: Kwok Wan, Shannon Hunzicker, Gilson Damasco e Claudio Gomes
Sinopse: Quatro pessoas de diferentes regiões do globo tem em comum sua paixão pelo zouk, um ritmo de dança a dois relativamente novo, criado no Brasil, mas atualmente dançado em mais de 40 países. Elas viajam pelo mundo buscando a plenitude de suas vidas através da dança. O documentário apresenta um pouco da história destes personagens da vida real antes e depois do contato com o zouk, suas metas e a transformação que a dança trouxe em suas trajetórias.
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Um tema universal

Todo mundo quer ser feliz, mas como chegar lá, é a pergunta que todos se fazem. Para o holandês Wilco de Groot, diretor do documentário Dance of Love, esta é a essência do filme que, tendo o zouk como fio condutor, acompanha a trajetória de seus quatro protagonistas em busca da realização pessoal. “Eu queria mostrar os sentimentos, as escolhas e suas repercussões, algo que pudesse atingir qualquer pessoa, dançarino ou não. Não é preciso saber dançar para entender o que o filme quer passar”, disse ele em entrevista à Dança em Pauta.

Apesar da amizade antiga de Wilco com o goiano Claudio Gomes – um dos protagonistas do filme, que residiu na Holanda por 18 anos atuando como professor de dança e chegando a contar com duas escolas e cerca de 600 alunos – foi o relato do então aluno de Cláudio, Kwok Wan, que despertou a ideia do documentário.

A história deste descendente de chineses de 1,50m, nascido na Holanda, lembra o roteiro de “Capitão América”, o sujeito baixinho com grande valor interior. Só que, neste caso, diferente do herói dos quadrinhos, Kwok não precisou ficar com a aparência de Chris Evans (ator que interpreta o personagem na versão cinematográfica da HQ) para então revelar o seu valor, sua arma secreta foi a magia do zouk. E quem dança qualquer gênero de danças de salão, conhece muito bem os superpoderes de um bom dançarino. Kwok, que era tímido e sofria muito com o preconceito por sua baixa estatura, passou a dançar com mulheres de até 1,80m, com desenvoltura, e tornou-se um divertido professor de dança.

Kwok Wan em cena do documentário no Japão. O dançarino cuja história inspirou o diretor.

E foi assim que surgiu a ideia de um documentário sobre as transformações que o zouk é capaz de incitar na vida das pessoas. Em 2009, as vésperas de um grande evento de zouk, que acontece a cada dois anos em Porto Seguro, na Bahia, Wilco precisou tomar uma decisão: esperar mais dois anos para filmar o evento, e então poder buscar subsídios financeiros para a produção; ou arcar pessoalmente com os custos do projeto. Ele não teve dúvidas, e partiu para o Brasil acompanhando outro protagonista, o paulista Gilson Damasco, dançarino de destaque na Europa, que já fez carreira em Buenos Aires e, há alguns anos, reside na Holanda.

Para completar o quarteto de personagens reais que dão vida ao roteiro de Dance of Love, a convidada foi a norte-americana Shannon Hunzicker. Funcionária do conceituado jornal The New York Times, ela decidiu largar o emprego e arriscar tudo para construir uma carreira como dançarina de zouk.

Shannon Hunzicker, protagonista feminina do filme, com o venezuelano Henri Velandia, em Nova York.

Embora sejam estes os quatro protagonistas oficiais, a verdade é que o filme acabou tendo mais um personagem diretamente “afetado” pelo zouk. Wilco aprendeu a dançar depois de iniciadas as filmagens, o que, segundo ele, mudou sua própria visão por trás das lentes. “Ter aprendido a dançar mudou bastante o documentário. Acho que antes estava procurando a emoção em outras coisas. Então, descobri que existe um tipo de emoção que só acontece na pista de dança e que é difícil descrever, mas é muito forte. Isso é algo que tento explicar no filme também”, conta.

É esta emoção dos apaixonados pela dança que o documentário busca transmitir ao público em seus 88 minutos de duração, sem narrações, apenas através das imagens e dos depoimentos dos protagonistas, além de entrevistas com outros personagens relevantes. “Nunca pensei em ficar famoso ou ganhar muito dinheiro com este documentário, meu objetivo é mostrar esta dança ao maior número de pessoas possível. Estamos vivendo uma era muito solitária, materialista, queria apresentar uma alternativa para socializarem e se divertirem”, comenta.
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O zouk na estrada

Em Dance of Love os personagens centrais nos levam a eventos de zouk e cenas de suas vidas cotidianas em nove países diferentes: Brasil, EUA, Holanda, França, Emirados Árabes, Japão, Alemanha, República Tcheca e Espanha. “Este não é apenas um filme de dança, é um road movie, ele trata de várias viagens. Seguir os personagens em suas jornadas cria uma atmosfera única. Também é possível ver alguns dos mais lindos lugares do mundo”, ressalta o diretor.

Jan Lachenmayer e Anni Kinast, dançarinos de Berlim entrevistados em Dance of Love

Durante as filmagens, Wilco pôde observar a repercussão do zouk nos diferentes países com suas respectivas culturas e características peculiares. Desde o Brasil onde a dança surgiu, a polos de zouk na Europa como Holanda e Barcelona, e a ponte cultural entre o oriente e o ocidente representada por Berlim, na Alemanha. Uma história interessante que ele conheceu nos Emirados Árabes, país de religião muçulmana, foi a de um casal de brasileiros que emigraram a trabalho do Rio de Janeiro, grande polo do zouk, para Dubai, e foi lá que conheceram e se encantaram com a dança. “O que mais me surpreendeu foi o pessoal do Afeganistão dançando zouk e também encontrar uma comunidade em Omã que é bem grande”, relata.

Já no Brasil, destaque para três entrevistados que falam sobre as origens do zouk, a cantora Loalwa Braz, vocalista da extinta banda Kaoma, que difundiu a Lambada pelo mundo na década de 80; e os dançarinos Adílio Porto e Renata Peçanha. “Nunca foi minha intenção falar sobre a história do ritmo, minha ideia era focar nas pessoas, nas emoções, mas era preciso fazer alguma referência ao surgimento da dança. Sei que teriam muitos outros personagens importantes pra falar sobre o assunto, mas optei por dar mais espaço a história de vida dos meus protagonistas”, explica.
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Lambazouk ou Zouk Brasileiro?

A publicação de uma matéria no jornal O Globo falando sobre o documentário foi suficiente para que o debate sobre assuntos como a terminologia adequada a ser usada para a dança fervilhasse nos blogs e redes sociais. Wilco explica que o documentário não aborda o assunto, uma vez que não houve narração e cada um dos entrevistados falou livremente, mas ele diz que esta polêmica é algo que acontece apenas no Brasil. “Posso estar errado, mas em minha opinião esta polêmica vem de dois campos, o lambazouk celebra a raiz da lambada, já o zouk brasileiro quer se diferenciar do zouk dançado nas Antilhas, diretamente ligado a música de lá. Parece-me uma questão de marketing”, comenta.
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Onde ver?

Apesar do documentário já ter sido exibido em alguns festivais e ter recebido indicação ao prêmio especial do júri do Califórnia Film Awards, que acontece no dia 26/01, em San Diego, o filme ainda não foi exibido ao grande público. Problemas com os direitos autorais de algumas músicas levaram a contratação de um compositor para substituir a trilha sonora. Nesta terça (22/01), Wilco tem uma reunião em Los Angeles para tentar negociar a distribuição do filme.

Enquanto esperamos que o trabalho do diretor holandês consiga apoio e seja disponibilizado para assistirmos no telão ou na telinha, confira os trailers, pequenos aperitivos da Dança do Amor.


CURIOSIDADES

  • o documentário foi quase todo filmado com máquinas fotográficas que, segundo o diretor, fazem imagens de vídeo fantásticas. Apenas umas poucas imagens foram captadas através de câmeras de vídeo profissionais;
  • ele calcula ter investido cerca de 20 mil euros no projeto que, somados as horas de trabalho, resultam num custo total de produção em torno de 60 mil euros, o equivalente a cerca de 165 mil reais;
  • “Sempre tive uma paixão por tudo que tem a ver com o Brasil”, diz o diretor, que é músico, trabalha como produtor e editor de TV, e morou por cerca de um ano no Rio de Janeiro. Neste período, viajou a Porto Seguro onde foi apresentado a lambada. Tentou comprar a música, mas não haviam fitas cassete disponíveis para venda por lá e, em outras cidades brasileiras, ninguém havia ouvido falar do ritmo. Meses depois, de volta a Holanda, encontrou o grupo de lambada Kaoma em primeiro lugar nas paradas musicais do país.
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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

9 Comments

  1. Sentimos falta da (necessária) abordagem sobre dança (Zouk, estilo Brasil, criado no Brasil) e Música (Afro-Antilhana). Brasil dança Zouk, ao seu estilo, sob som, majoritário, internacional. Qual o problema? Errada a questão. Esta, a solução! Que bom que dançamos (nosso estilo) ao som internacional! Parece-nos ainda persistir certo “melindre” em se abordar a questão, querendo-se extender o conceito (restrito à dança) de Zouk Brasileiro para, também, a música: o que é uma leviandade e falta de respeito com cultura (musical) já há mais de 35 anos instaurada e vivida em países africanos de lingua portuguesa e Antilhas.
    Acorda Brasil, acorda mundo: estamos jogando fora, não reconhecendo, o grande diferencial do movimento Zouk (no Brasil): dança (estilo nacional) ao som internacional (de países de língua portuguesa/créole).

  2. Bela matéria Keilla , parabéns pelo trabalho e parabéns ao Wilco e ao elenco pelo filme.
    Gosto do Zouk, mas ainda não fui infectado por esse ritmo, faço uma aula aki outra ali, mas ainda não o senti na Alma, espero sinceramente ser infectado por esse vírus do amor que é a dança e principalmente aqui, o ZOUK.
    Mais uma vez parabéns e Deus ilumine a todos.
    Abraços,
    Du Chapeu/BH

  3. Q bom esse documentário, finalmente o trabalho suado de Claudio Gomes, Claudia de Vries e compania de dança Claudio Gomes na Holanda com Vanderlei Moreira sendo reconhecido. Eu estive nessa epoca e vi o quanto foi dificil fazer os Europeus dançarem o Zouk porque na epoca todos so conheciam a Salsa e merengue. Promover a dança e fazer os europeus deixarem de serem duros foi dificil!

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