Colunas, Danças de Salão, Salsa em Pauta

Dançar Salsa é difícil?

Acho estranho quando me dizem: “Salsa é uma dança difícil”. Sempre pergunto o porquê dessa afirmação e de onde vem essa visão. As respostas quase sempre percorrem o mesmo discurso, “tem muitos giros”, “tem muitos passos complicados”, “tem a questão do tempo”, e por aí vai. Alguns se dizem intimidados pela complexidade que a dança tem hoje, outros, impressionados, e até mesmo assustados, com as performances acrobáticas de muitos dançarinos. Há ainda aqueles que se queixam das diversas “regras” e “convenções” a serem seguidas, como a marcação correta dos tempos (“no 1” ou “no 2”, por exemplo), formas adequadas de conduzir e executar giros, marcar os passos, figuras elaboradas, etc.

Tudo isso é verdade. Tudo isso existe mesmo, na salsa e em suas variantes de estilos. Tudo isso é salsa, mas há um ponto essencial a ser ressaltado: a salsa não é só isso.

Salsa é muito mais e também “muito menos”.

Para entendermos a origem dessa imagem equivocada de dança difícil e acessível a poucos, é preciso entender o contexto internacional em que ela se insere e os aspectos que influenciaram sua formação e evolução através dos tempos. Vejamos alguns fatores que contribuíram muito para sua evolução técnica e complexidade:

  • Entre todos os ritmos do chamado “universo das danças de salão” ou “de par” é o mais dançado no mundo. Mesmo considerando todas as formas de dança da atualidade, a salsa figura sempre em qualquer lista ou ranking entre as mais populares. Esse fato faz com que uma quantidade muito grande de excelentes dançarinos, de todas as partes do mundo, a pratiquem cada vez mais, elevando a cada ano o nível técnico e a diversidade da dança e seu repertório de movimentos;
  • Os grandes congressos e festivais internacionais, que acontecem pelo menos desde 1998 em todo o mundo, têm acarretado um grande aumento da qualidade e capacidade técnica, tanto dos profissionais que buscam se diferenciar, quanto dos alunos que têm acesso a grande quantidade de informações e inovações;
  • As importantes competições internacionais de salsa e sua grande visibilidade na mídia em geral, principalmente na internet, têm proporcionado considerável destaque ao estilo competitivo e performático da dança, com acrobacias e movimentos cada vez mais velozes, executados por dançarinos que cada vez mais se aproximam da condição de “atletas competidores”. Se por um lado esta realidade é importante para a evolução da qualidade técnica, do estilo e dos próprios dançarinos, por outro é um fator limitante e intimidador àqueles que têm um primeiro contato com essa forma de dança e expressão;
  • Considerando desde as suas raízes, como o son, danzon e rumba cubanos, é um dos estilos mais antigos de dança de par, sendo natural que tenha se tornado também, com o passar das décadas, um dos mais complexos e elaborados.

É compreensível, portanto, que por todos esses fatores, a salsa tenha se convertido numa dança altamente complexa. No entanto, o grande equívoco que se comete está na interpretação que se dá às palavras “complexa” e “difícil”, que têm significados completamente diferentes. Em meus 21 anos de aprendizado e ensino da salsa afirmo: apesar da complexidade que alcançou, a salsa pode sim ser uma dança muito fácil e também acessível a qualquer pessoa! Pode ser leve e divertida, como sempre foi nas suas raízes. Pode ser dançada nos bares, nas ruas, nos quintais, como sempre foi, desde os seus primórdios. Seus fundamentos, seu repertório básico de figuras e seus elementos mais tradicionais, são extremamente fáceis e acessíveis a qualquer um, mesmo os mais iniciantes. E não teria como ser diferente, numa dança que surgiu do povo, das ruas e que era dançada por qualquer pessoa. Pode ser extremamente prazerosa, desconfio que até mais, mesmo dançada de forma simples. Ser ou não complexa é apenas uma questão de escolha de quem se propõe a praticá-la ou ensiná-la. É aí que entra a grande responsabilidade dos professores e profissionais em “apresentá-la” aos iniciantes da forma adequada.

Para exemplificar, façamos uma comparação com o futebol. Se alguém me perguntar se é difícil jogar futebol, vou responder: depende, se sua intenção for se tornar um grande profissional, jogar num grande clube, ou seleção, ser reconhecido internacionalmente e ganhar milhões, é bem difícil sim. Mas se o que você quer é jogar sua pelada nos finais de semana ou na praia com os amigos, se divertir e tomar sua cerveja depois, é muito fácil!

Podemos ir mais longe ainda, traçando um paralelo com o sexo. Não é porque existe o Kama Sutra, com toda a sua diversidade de posições, instruções e ensinamentos, que o sexo em si precisa ser “difícil”. Na verdade é uma das coisas mais fáceis e naturais do mundo, e mesmo feito da maneira mais simples, pode ser a mais prazerosa.

No final, a despeito da simplicidade ou complexidade com que se escolha encarar a dança, o mais importante é conservar sempre, em qualquer situação ou contexto, os elementos e ingredientes fundamentais que a compõem, e por isso mesmo deram a ela o nome de Salsa (em espanhol, tempero, molho, sabor): a alegria, a diversão, a sensualidade e, sobretudo, o prazer!

Bibliografia sugerida:

 

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Professor, dançarino, músico, coreógrafo e produtor artístico, envolvido com a dança desde 1995 e especializado em salsa e ritmos caribenhos. É co-fundador, diretor, coreógrafo e dançarino da Conexión Caribe Companhia de Dança, a primeira especializada em Salsa no Brasil. Diretor e organizador do Congresso Mundial de Salsa do Brasil e da Semana da Cultura Latina, em São Paulo.

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